Todas as Cartas reúne correspondências escritas por Clarice Lispector ao longo de sua vida. A seleção de cartas, das quais cerca de meia centena é inédita para o público, configura um acervo fundamental para compreender a trajetória literária da escritora.
Ponto alto de Todas as Cartas, o conjunto de correspondências inéditas endereçadas aos amigos escritores tem entre os destinatários João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Lêdo Ivo, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Natércia Freire e Mário de Andrade. As correspondências foram organizadas por décadas – dos anos 1940 a 1970 – e contam com notas da biógrafa Teresa Montero, que contextualizam o material no tempo, no espaço e nas inúmeras citações a personalidades e referências culturais.
Com grande material inédito, o volume resultou de longa pesquisa realizada pela jornalista Larissa Vaz, sob orientação de biógrafos e da família, para trazer uma visão integral da pessoa e da escritora. A publicação da correspondência de grandes escritores constitui-se em importante acontecimento literário, pois o autor mantém a inspiração, o lirismo e o humor ao escrever cartas, que chegam a ser tão ou mais fascinantes e criativas quanto seus próprios livros.
Clarice viveu quase duas décadas no exterior e se correspondeu sempre para cultivar o afeto da família e dos amigos e para tratar da publicação dos seus livros. Apesar de afirmar que "não sabia escrever cartas", suas cartas são tão interessantes quanto seus romances, contos e crônicas.
Clarice Lispector was a Brazilian writer. Acclaimed internationally for her innovative novels and short stories, she was also a journalist. Born to a Jewish family in Podolia in Western Ukraine, she was brought to Brazil as an infant, amidst the disasters engulfing her native land following the First World War.
She grew up in northeastern Brazil, where her mother died when she was nine. The family moved to Rio de Janeiro when she was in her teens. While in law school in Rio she began publishing her first journalistic work and short stories, catapulting to fame at age 23 with the publication of her first novel, 'Near to the Wild Heart' (Perto do Coração Selvagem), written as an interior monologue in a style and language that was considered revolutionary in Brazil.
She left Brazil in 1944, following her marriage to a Brazilian diplomat, and spent the next decade and a half in Europe and the United States. Upon return to Rio de Janeiro in 1959, she began producing her most famous works, including the stories of Family Ties (Laços de Família), the great mystic novel The Passion According to G.H. (A Paixão Segundo G.H.), and the novel many consider to be her masterpiece, Água Viva. Injured in an accident in 1966, she spent the last decade of her life in frequent pain, steadily writing and publishing novels and stories until her premature death in 1977.
She has been the subject of numerous books and references to her, and her works are common in Brazilian literature and music. Several of her works have been turned into films, one being 'Hour of the Star' and she was the subject of a recent biography, Why This World, by Benjamin Moser.
"quanto à outra pergunta: como é que você se sente ao escrever seus livros? respondo com outra pergunta: como é que você se sente quando lê meus livros? aí você tem a medida de como é que me sinto quando escrevo"
Clarice Lispector (1920/1977), nascida Chaya Pinkhasivna Lispector, foi uma escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia. Romancista, cronista, contista e ensaísta é considerada um dos maiores nomes da literatura brasileira, autora de clássicos como “A paixão segundo G.H.”, “A hora da estrela” e “Laços de família”, sendo que muitos a consideram o maior nome da literatura judia desde Franz Kafka. O advento do centenário do nascimento da escritora aumentou o entusiasmo em torno de sua obra e excelentes lançamentos como “Todos os contos” (2016) e “Todas as crônicas” (2018) foram muito oportunos e ótimos veículos para revelar todo o talento de Clarice para novos leitores. “Todas as cartas” (2020) fechou a trilogia das grandes compilações com material de autoria de Clarice e à exemplo dos dois volumes com contos e crônicas, mereceu uma edição caprichada da editora Rocco com uma bela sobrecapa, capa dura e ótimos prefácio e posfácio. Clarice viveu muitos anos fora do Brasil (Itália, Suíça e USA principalmente) pois seu marido de 1943 a 1959, o diplomata Maury Gurgel Valente, era adido diplomático nestes países. Sendo assim Clarice escreveu dezenas e dezenas de cartas para suas irmãs e seus amigos brasileiros já que, na época redes sociais ainda não existiam e ligações interurbanas custavam uma fortuna. Nestas dezenas e dezenas de cartas Clarice se mostra uma pessoa insegura, amarga e com uma visão muito desencantada da vida. Suas opiniões acerca de certos assuntos e, ou acerca de si mesma chegam a ser algo chocantes. Abaixo seguem dois trechos de cartas que Clarice escreveu em 1940, respectivamente, para sua irmã Tânia e para seu amigo escritor Lúcio Cardoso:
“Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei por que nasceu em mim desde sempre a ideia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum, mas em alguma coisa apática e miserável como uma mendiga.”
“Todo mundo (em Lisboa onde ela estava com o marido Maury) é inteligente, é bonito, é educado, dá esmolas e lê livros; mas por que não vão para um inferno qualquer? Eu mesma irei de bom grado se souber que o lugar da “humanidade sofredora” é no céu. Meu Deus, eu afinal não sou missionária. E detesto novidades, notícias e informações. Quero que todos sejam felizes e me deixem em paz”.
Por outro lado, em várias e várias cartas, temos uma outra Clarice; doce, insegura, solitária, preocupada com saúde das irmãs a quem trata de forma afetuosa utilizando tratamentos e adjetivos que beiram o infantil e implorando por respostas a suas cartas. São muito interessantes também suas correspondências com colegas escritores com quem discute suas obras, pede conselhos e discorre acerca do processo criativo. Confesso que este volume não impactou-me como “Todos os contos” e “Todas as crônicas” e, em vários momentos desse espesso volume, me deparei com temas algo repetitivos nas cartas mas, a leitura é mais do que oportuna e mais do que recomendável para quem quer conhecer mais sobre essa grande escritora.
É sempre estranho ler um material que não foi pensado ou escrito com objetivo de publicação pelo autor. Acho que o mesmo acontece quando eu leio diários e outros escritos assim. Dito isso, também é uma experiência muito única e especial em ter esses registros, em poder conhecer autores para além das obras publicadas e conhecer de fato, um pouquinho mais da pessoa Clarice Lispector. E chegou no fim do livro e a minha sensação foi muito a de que eu queria mais. Eu queria mais cartas, mais Clarice e mais essa conversa "íntima" construída ao longo das quase 800 páginas de cartas desta edição.
Eu -ainda- não li nenhuma biografia de fato da Clarice, então eu conheço a história dela de forma mais geral, a partir da leitura das cartas eu sinto que conheço um pouco mais e de uma forma mais especial. Conhecer mais da Clarice através das palavras da própria Clarice foi uma experiência muito especial. Eu amei o humor, os comentários, os conselhos para as irmãs, as dúvidas, inseguranças, medos e processos criativos. Amei também ver uma aproximação da Clarice com a psicanálise e os comentários dela sobre fazer análise e tudo mais
Além desses momentos, ter acesso ao processo criativo de Clarice é algo único. Bem como acesso a todas as inseguranças que vinham com o ato de escrever, o significado de escrever e o que ela pensava a respeito da própria escrita. É incrível
As cartas são a melhor forma de conhecer verdadeiramente alguém. Nesse livro conheço Clarice crua, exposta em suas verdades e em todas suas inseguranças. Foram ponta-pés na boca do estômago, mas que me fizeram querer ser gente de verdade
“‘Então, por que escreve?’ Creio que ao escrever se entende o mundo um pouco mais que quando não se escreve. E uma lucidez meio nebulosa porque a gente não tem direito consciência dela.”
"E o tempo se conta mesmo em anos. Deus me livre se fosse em dias. É como crescer ou envelhecer que só se vê em anos. Como é que se pode ver a curva tão larga das coisas se se está tão próximo como é proximo o dia! Pois se as vezes a palavra que falta para completar um pensamento pode levar meia vida para aparecer”
"Os meus livros não se preocupam muito com os fatos em si porque, para mim, o importante não são os fatos em si, mas as repercussões dos fatos no indivíduo. Isso é que realmente importa. Éo que eu faço. E penso que, sob este aspecto, eu, também faço livros comprometidos com o homem e a sia fealidade, porque a realidade Não é um fenômeno puramente externo."
Eu nunca vou me cansar de Clarice, sempre vou querer mais, e quando não houver mais o “novo”, revisitarei o “conhecido”, pois creio que não tem como conhecer totalmente Clarice e sua obra, uma vez que não importa quantas vezes você tenha lido algum escrito dela, sempre que reler ele irá te tocar de forma diferente, uma outra porta irá se abrir, uma nova interpretação, uma nova forma de olhar o mundo e olhar a si mesmo. Muito obrigada por tudo, Clarice! Você é um presente para todos nós, e como você mesma disse “Muitas vezes as coisas ruins perdem para mim a virulência somente porque você existe.“ 💗
difícil dar nota pra cartas de alguém porque tipo? dou 3 de 5 pros seus pensamentos, muito chato... mas enfim, acabei não dando 5 não pela clarice, mas porque a organização da seleção de cartas ficou um pouco tediante e repetitivo em algumas partes. de qualquer forma, adoro ler as coisas da clarice lispector e acho que ela me bateria se me conhecesse, teria medo dela