Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida.
- A gente combinamos de não morrer
Conceição Evaristo é uma escritora brasileira de raça negra que nasceu numa favela, em 1946, sendo a segunda de 9 irmãos, trabalhou como empregada doméstica enquanto estudava, só começou a escrever nos anos 90 e acabou por se doutorar em 2010. Não costumo salientar os dados autobiográficos de um autor, mas neste caso creio que são relevantes, primeiro, porque o seu percurso é admirável e, em segundo lugar, porque é sobretudo a experiência de ser mulher negra, pobre, trabalhadora e mãe, que Conceição Evaristo explora nestes contos. São muitas as lágrimas que estas personagens vertem, de dor, de miséria, de solidão, de velhice, de amor; e o tempo que passamos com elas, quer seja uma vida inteira, quer seja durante uma viagem de autocarro, leva-nos a criar uma ligação imediata com estas pessoas e a desejar que houvesse mais páginas acerca delas em vez de terem de dar lugar a outras igualmente reais e envolventes. Conceição Evaristo fala sobre sexo e violência de forma crua, mas a escrita ampara o golpe, porque é esplêndida e doce, sem pieguice.
Ela era vencedora de outras distâncias. Já saltara montanhas e divisas de um tempo-espaço que ficara para trás. Como era mesmo a sua cidade natal? Não sabia bem. Lembrava-se, entretanto, que as pessoas eram lentas. Andavam, falavam e viviam de-va-gar-zi-nho. A vida era de uma lerdeza tal, que algumas mulheres esqueciam-se de parir seus rebentos. A barriga crescia até aos onze meses. As crianças nasciam moles, desesperadamente calmas e adiavam indefinidamente o exercício de crescer. Cida desde pequena guardava um sentimento de urgência.
- O cooper de Cida
Não, ela não se envergonhava de seu narcisismo. Era com ele que ela compunha e recompunha toda a sua dignidade. Encarou novamente o espelho e se lembrou de um poema, em que uma mulher contemplando a sua imagem refletida, perguntava angustiada onde é que ela deixara a sua outra face, a antiga, pois não se reconhecia naquela que lhe estava sendo apresentada naquele momento. Não, não era o caso de Luamanda, que se reconhecia e se descobria sempre.
- Luamanda
Em meio ao tiroteio a menina ia. Balas, balas e balas desabrochavam como flores malditas, ervas daninhas suspensas no ar. Algumas fizeram círculos no corpo da me- nina. Daí um minuto tudo acabou. Homens armados sumiram pelos becos silenciosos, cegos e mudos.
- Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos