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O Presidente Negro

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'O presidente negro' é o único romance adulto de Monteiro Lobato. Embora ainda não tivesse pisado em terras norte-americanas quando escreveu esse livro, Lobato ambienta sua história futurista nas terras de Henry Ford. Em 1926 o autor publicou o romance com o título 'O choque' e, duas décadas depois, mudou o nome para 'O presidente negro'. A obra aborda temas como a segregação entre brancos e negros, aculturação, feminismo e ainda profetiza o surgimento de uma rede pela qual as pessoas se comunicariam e trabalhariam à distância. Através das lentes do 'porviroscópio', aparelho capaz de prever o futuro, Lobato leva os leitores para 2228, ano em que o personagem Jim Roy concorre à presidência dos Estados Unidos.

212 pages, Paperback

First published January 1, 1926

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About the author

Monteiro Lobato

459 books120 followers
José Bento Renato Monteiro Lobato (April 18, 1882 - July 4, 1948) was one of Brazil's most influential writers, mostly for his children's books set in the fictional Yellow Woodpecker Ranch but he had been previously a prolific writer of fiction, a translator and an art critic. He also founded one of Brazil's first publishing houses (Companhia Editora Nacional) and was a supporter of nationalism.

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48 (17%)
Displaying 1 - 24 of 24 reviews
Profile Image for Drizia Macedo.
5 reviews
November 28, 2019
- Considero a leitura das obras de Monteiro Lobato uma chocante experiência antropológica, já que, por ter nascido no séc. XIX e ser de uma família de fazendeiros que alegavam terem perdido muito dinheiro com a abolição da escravidão, ele é retrato de uma sociedade elitista. E é através dessa condição de filho de importantes, que ele foi educado naturalizando a submissão do diferente, tornando-se, assim, porta-voz da sua bolha social por meio da literatura.
- Nessa obra, em específico, é possível observar que Lobato foi extremamente panfletário: assim como fez nos livros que deram origem ao Sítio do Picapau Amarelo e com o personagem Jeca Tatu, o intuito dele era "educar" o leitor (ou convencê-lo a pensar de acordo com o que era explicitamente defendido nos textos). Para isso, além de ter adotado uma linguagem simples, preenchendo o conteúdo com extensos diálogos, de ter optado por capítulos curtos com fontes grandes, ele realizou a construção de personagens de uma forma que permitisse guiar o leitor a escolher um lado na dicotomia bem (a eugenia) x mal (o negro, a miscigenação, o feminismo, entre outras coisas).
- Assim, ao descrever Ayrton como sendo um homem superficial, colocado em uma realidade de aparências, o qual não tinha ideias próprias e, por isso, sua vida era resumida ao desejo fútil de ter um carro e, em contrapartida, ter adotado para Jane e pro Professor Benson uma caracterização quase que de santos, pois possuíam inteligência única, mas eram humildes quanto a isso; tinham a oportunidade de fazer fama e fortuna graças aos conhecimentos adquiridos, mas limitavam-se a ganhar apenas o que lhes era útil para o momento; Lobato teve intenção de levar o leitor a torcer que Ayrton se convertesse a "sábio" (racista), para que ele pudesse ser merecedor do amor de Jane. Perverso, não?
- Diria que sim, mas o que mais assustou nessa obra não foi o conteúdo racista nem o modo como Lobato quis enfiar goela abaixo da sociedade um pensamento desumano, uma vez que é de conhecimento nacional o fato de que esse livro, especificamente, defende abertamente a inferioridade negra. Mas foi a atualidade do tema que me tirou o sono, já que pude observar, em diversos trechos, fragmentos do discurso de alguns gurus da moda: o sentimento anti-histórico, o cientificismo sem bases acadêmicas, o separatismo sulista, a xenofobia, a exaltação ao norte-americanismo (ou culturalismo racista, se quisermos citar Jessé Souza), a volta da naturalização do racismo, machismo, homofobia, entre outras práticas que ferem os direitos humanos.
- É preocupante que em pleno século XXI, em 2019 mais precisamente, quando pensávamos estar caminhando positivamente na busca por uma harmonia social, essas ideias retrógradas tenham arrumado palco novamente, mas espero que a humanidade tome um rumo diferente do livro e passe a buscar um estado de bem-estar social.
Profile Image for DANIEL TOMAZ DE SOUSA.
43 reviews4 followers
January 15, 2022
Quando criança tive contato com a obra infanto-juvenil de Lobato, e na época não tinha discernimento suficiente para perceber a nuance racista da obra. Passou-se o tempo e vontade de revisitar a obra do autor só diminuía, mas devido a um desafio da MLV 2022 (Livro de autor envolvido em polêmica), veio a mente ler algo da linha adulta de Lobato e junto a possibilidade de ler O presidente negro ou o choque das raças (1926).

O porquê das duas estrelas? O livro é desenhado em torno questões de ficção científica, uma grande mente cria o "porviroscópio", uma espécie de instrumento para ver o futuro. Até a parte que é explicado isso, eu estava apreciando o texto. Lobato teve ótimos insights sobre algumas tecnologias que permeiam nosso meio, hoje, como a comunicação mais rápida entre as pessoas.

Mas o grande plot do livro está no ano 2228, nos EUA, em que um presidente negro é eleito (mas por um "golpe" da raça branca, não chega a assumir o posto). Entretanto, não veja isso de forma positiva, em cada página pós essa eleição é feita de puro racismo. A eugenia é enaltecida em cada página do livro...
Um dos livros mais incômodos que já li, desaconselho fortemente a leitura.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Janus.
45 reviews
January 3, 2021
Finalmente terminei de ler esse livro. Depois de acompanhar inúmeras discussões no Twitter sobre o racismo nas obras de Monteiro Lobato, fiquei tão curioso a ponto de ir procurar o que estava acontecendo diretamente da fonte. Eu nunca fui grande fã do Monteiro Lobato. O Sítio do Pikapau Amarelo nunca me atraiu quando criança, e hoje continuo não vendo graça alguma. Mas eu não sou referência nesse assunto, já que essa obra infantil é provavelmente a mais popular do Brasil. E eu até consigo entender, Lobato conseguiu construir uma história completamente autóctone, e não há nada melhor do que nos vermos representados nos livros e na TV enquanto crianças. Seus personagens entraram para a cultura brasileira de uma forma inexplicável, quase fazendo parte do folclore brasileiro. Isso consolidou a carreira de Monteiro Lobato na literatura brasileira, transformando-o numa gigante referência artística até os dias de hoje. Ou melhor dizendo, até os dias de ontem.

Em sua época, ninguém teria coragem de "cancelar" Monteiro Lobato por ser racista. Ninguém sequer teria um pensamento como esse. Mas hoje, em 2020, é quase impossível que obras como as de Lobato passem despercebidas e não tenham suas integridades questionadas. Eu até cheguei a estranhar o fato de que eu nunca havia ouvido falar nisso quando, de uma hora para outra, tudo tomou uma repercussão enorme. A questão é que o racismo de Monteiro Lobato vem sido discutido há pouco tempo exatamente porque nossa mentalidade mudou de forma muito rápida, ainda bem. Há alguns anos esse livro não fazia diferença na vida de ninguém, mas hoje descobrimos que sempre fez sim! Pessoas consagradas como Lobato tem grande influência sobre a vida das pessoas, ainda que essa não seja a intenção principal. Aliás, é importante ressaltar que esse não é um caso isolado. Monteiro Lobato inseriu seu racismo em diversas de suas obras, incluindo o livro infantil Em Caçadas de Pedrinho, onde se refere a Tia Nastácia como uma "macaca de carvão" que "parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros". Logo, o racismo de Monteiro Lobato é um assunto a ser discutido com extrema urgência, já que passou tanto tempo ensinado crianças (e adultos) a serem racistas.

Existe também um livro chamado Negrinha, o qual é visto por muitos como um livro antirracista e que, ao mostrar os sofrimentos de uma jovem negra, pode ser isento de acusações. Mas mesmo sem ter lido este, preciso desconfiar disso, já a obra foi levada para o STF em 2012 para que uma decisão fosse tomada em relação da distribuição em escolas públicas. Eu vi muita gente no Twitter defendendo a ideia de que os livros de Monteiro Lobato deveriam não apenas serem impedidos de entrar em escolas, mas também deveriam ser censurados por completo. Na minha opinião, não há nada pior do que a censura, principalmente quando se trata de obras históricas, por mais problemáticas que sejam. É preciso que haja uma discussão acerca do assunto, e mais do que isso, que a editora do livro se manifeste inserindo notas e prefácios que evidenciem o conteúdo da obra. Além disso, se os livros estiverem sendo usados em ambientes educacionais, é preciso que exista professores preparados para advertir os alunos quanto ao teor racista ou quaisquer outros problemas que possam existir na obra em questão. É com grande contentamento que vejo que essas coisas já estão acontecendo atualmente. A discussão do Twitter, que eu tanto critiquei, na verdade é incrivelmente útil, foi ela que me levou a ler esse livro e entender melhor o quanto o racismo no nosso país é estrutural. Essa edição da Editora Globo que li, de 2009, possui um prefácio que evidencia não só o racismo na obra, mas também o quanto o próprio Monteiro Lobato era eugenista, não só essencialmente, mas também empiricamente, ao se relacionar com a própria Sociedade Eugênica que existia em São Paulo em 1918. Enfim, felizmente vivemos numa época onde esse tipo de coisa, além de não ser mais aceito, recebe um novo significado.

Para desfazer esse teor jornalístico que criei nessa resenha sem querer, quero comentar também sobre o quanto eu gostei de toda a construção da máquina capaz de viajar no tempo. O presidente negro, que intitula o livro, se encontra no ano de 2228 enquanto a história é narrada há muito tempo antes. Essa parte da história poderia ser tratada como mera fantasia, mas Lobato consegue utilizar de diversas referências da ciência real para explicar o funcionamento daquela máquina, o que faz com que tudo pareça perfeitamente possível. Enfim, esse livro tem muitas coisas além da eugenia, e exatamente por isso que eu me oponho a censura de qualquer obra que seja e defendo a ressignificação. Sem dúvidas, o impacto cultural consegue ser bem maior dessa forma.
4 reviews
June 4, 2020
Um panfleto eugenista.

Até o capítulo 3, vê-se uma propensão do autor a rerratar a realidade a partir de oposições hierárquicas: pedestre x rodante; patrão x empregado; o sábio letrado x ginasial; o poderoso x simples. O personagem se sente impelido a querer estar no polo superior.

A ideia expressa nos inventos de Benson são herdeiras de uma tradição cientifica que achava q, sabendo todos os vetores e variantes envolvidas seria possível prever e determinar o futuro. A revolução industrial parecia dar ainda mais razão aquelas afirmativas. Nesse raciocínio chama atenção o determinismo, o poder de controlar o futuro, e como serão as coisaa, inclusive as raças.

Começa a falar das raças no capítulo 7, ao comparar mongóis ou amarelos com os brancos franceses, e isso seria uma catástrofe, apesar do determinismo neutro de Jane. Curioso também ele prevê o trabalho remoto.

Em relação a mulher coloca-se o papel de toda mulher como aquela que casa e tem interesses específicos. Miss Jane seria o oposto disso, mas por não conhecer esta realidade, e não por uma escolha. O papel da mulher seria uma característica intrinscica à mulher e não uma construção social.

No capitulo 10 se coloca de forma explicita e didatica a teoria do eugenismo. Fala dos EUA como tendo no sangue a caracteristica de ter um ideário orgânico, de uma sociedade sem conflitos de classe. É assim que o autor descreve o fordismo. Essa superioridade racial se dá por uma peneira de imigrações em que somente oz melhores povos entram nos EUA. O autor coloca os EUA como a grande luz do mundo - de fato, após a primeira guerra mundial, com a Europa destruída, EUA desponta como grande potência.

Arrematando a teoria eugenista, coloca como o Brasil errou em misturar as raças, pois daí sairia a degeneração de ambas as raças. Esse pensamento serve para justificar que esse não seria um penaamento racista, já que apenas queria manter pura a sua raça, seja ela qua for.

No capítulo 11 a coisa piora. Vale ressaltar como na esterilização e seleção artificial (trocadilho com seleção natural) acaba-se vários gêneros de pessoais imorais. Lembrar o quanto tais características estavam associadas a pesslas negras, na época.

Há também forte teor determinista, relacionando ao clima, na separação entre o clima temperado desenvolvido e o clima quente arrasado e miscigenado. Neste ultimo caso, o português tb não é perdoado, considerado o unico europeu a aguentar o clima quente e misturando-se no atraso com os negros no norte.

Parece que há também leves cutucadas nos modernistas ao se colocar gramáticos no rol dos moralmente excluíveis, e discussões sobre pronome na semi morta língua portuguesa como coisas do atrasafo Brasil do norte.

Pra coroar seu pensamentk essencialista, fala que mulher seria de outra especie, por isso não se adequava a cultura do homem, no maximo produzia a feminista. Sua caracteristica intrinseca seria a dissimulação.

O negro é descrito com adjetivos maldosos de caráter, como manhoso. Afinal o eugenismo servira para trazer o moralismo.

É impressionante como não existe na concepção de mundo do autor qualquer futuro possível em que as raças vivam em harmonia. O fator racial, e a defesa da pureza racial está acima de qualquer outro projeto de sociedade, mesmo que a eficiencia seja a caracteristica predominante dos EUA ela não consegue transpor as diferenças raciais no convívio.

Na descrição do fim do partido feinista fica claro, e clichê, uma crítica ao feminismo como fruto da mulher mal amada.

Ele faz referencia a suposta liberdade da revolução feancesa como um impecilho ao eugenismo e a melhoria da raça e da sociedade. Uma concepçâo tipicamenfe nazista. Para os eugenistas os problemas sociais, como pobreza e corrupção eram fruto da moral das pessoas, que por sua vez era advinda do sangue.

Livro tenebroso e piegas.
Profile Image for Harvey Hênio.
633 reviews2 followers
March 11, 2024
O paulista, natural da cidade de Taubaté, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882/1948) é uma das expressões máximas de nossa literatura. Escritor, crítico de arte e editor corajoso (foi o único no Brasil a publicar Lima Barreto quando quase ninguém nele acreditava), seu nome é quase que automaticamente ligado à literatura infantil, principalmente ao ciclo de histórias do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” já adaptado para várias mídias além dos livros e um grande sucesso. No entanto Monteiro Lobato, como é conhecido o escritor, tem uma produção que vai muito além de suas inegáveis contribuições à literatura infantil e vale muito a pena conferir o que existe “além do sítio”.
Desafortunadamente aquele que considero um dos grandes escritores da literatura nacional em todos os tempos, um esteta do nosso idioma, dono de um senso de humor mordaz, detentor de uma grande capacidade de observação da realidade em que ele então vivia e de um senso crítico que demolia sem dó nem piedade as instituições e tradições da época, encontra-se, hoje em dia, “cancelado” em função de um pretenso racismo que permearia as suas obras. São muito contundentes as afirmações que Tom Farias, escritor, jornalista, roteirista e colunista da “Folha de São Paulo” fez em detrimento de Lobato em artigo publicado na revista “Piauí” (Fevereiro de 2024). Farias afirma que Lobato seria “herdeiro da exploração escravista no país” além de “conhecido por seu racismo e a inclinação eugenista” e um precoce “apologista do apartheid”.
Por outro lado o mesmo Tom Farias, um crítico de Lobato admite, no mesmo artigo que ele era “hábil escritor e contador de histórias”.
E é esse lado de “hábil escritor e contador de histórias” que Beatriz Resende, professora titular do departamento de letras da UFRJ, especialista na obra de Monteiro Lobato e organizadora do excelente e obrigatório “Contos Completos”, lançado em 2014 e que reúne os quatro livros de contos lançados pelo autor (“Urupês”/1918, “Cidades Mortas”/1919, “Negrinha”/1920 e “O macaco que se fez homem”/1923) que ela procura explorar em suas análises sobre a obra do escritor. Ela afirmou com propriedade e convicção, na apresentação desse livro o seguinte:

“Basta a leitura de “Negrinha” para compreender toda a tolice que envolve as críticas feitas a momentos de sua literatura em que reproduz o linguajar racista de seus contemporâneos. As falas evidentemente irônicas da boneca Emília, por exemplo, são o eco da sociedade racista, classicista, escravocrata que atravessa o século XX e chega até hoje convencida de que espaços como as universidades não se devem abrir aos pobres, aos diferentes e vêm na ainda tímida política de cotas uma heresia e nas condenações penais por racismo um excesso”.

Polêmicas à parte Lobato era especializado em contos, em narrativas mais curtas em que era considerado um mestre.
“O presidente negro” é o único romance de Monteiro Lobato e, curiosamente, pode ser classificado como ficção científica, o que por si já garante ao livro a condição de obra pioneira na literatura brasileira.
No romance um melancólico cobrador chamado Ayrton se envolve num acidente automobilístico e é socorrido por um cientista chamado Benson e por sua filha, a bela Jane.
Convalescendo na espaçosa casa do cientista o cobrador toma ciência de que o cientista criou uma engenhoca chamada “Porviroscópio” que lhe permitia ter vislumbres de tempos vindouros.
Observando o futuro através de seu “porviroscópio” o professor Benson, no capítulo intitulado “Passado e presente”, descreveu a um atônito Ayrton o seguinte, que antecipa de certa forma o home office:

“Cessa a era dos veículos. Nada de bondes, automóveis ou aviões no céu. Pois para lá caminhamos. Em cortes sucessivos que fiz de dez em dez anos observei a diminuição rápida dos veículos atuais. A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o radiotransporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á a distância. E acho muito lógica esta revolução”.

Outro desses vislumbres revelou que no ano de 2228, nos USA, uma política eugênica, separou brancos de negros com o objetivo de “purificar” as duas raças e evitar a degradação de ambas que a miscigenação havia causado. Nesse futuro, às vésperas de uma eleição presidencial a sociedade estadunidense estava dividida em três partes: os negros de ambos os sexos, os brancos homens e as mulheres brancas.
Nessa eleição em que a raça branca costumava votar em aliança contra os negros uma cisão leva à vitória do candidato negro – Jim Roy - e a raça branca, aliada contra a “tragédia” da vitória negra trama uma maquiavélica vingança.
O já citado Tom Farias avaliou o romance como racista e defensor da eugenia.
Sinceramente não avaliei dessa forma pois Lobato, claramente, descreve o futuro como distópico e o que fica claro, pelo menos para mim, no romance é o desastre da política eugênica.
No capítulo intitulado “O titã apresenta-se” os personagens Jane e Ayrton observam que Jim Roy, o candidato negro à presidência dos USA do futuro fez as seguintes e contundentes elucubrações acerca da necessidade dos negros de tomar o poder:

“Às nove e quarenta e cinco aproximou-se da janela e correu os olhos pelo casario de Washington. O panorama que viu, entretanto, não foi o da cidade. Descortinou todo o lúgubre passado da raça infeliz. Viu muito longe, esfumado pela bruma dos séculos, o humilde kraal africano visado pelo feroz negreiro branco, que, em frágeis brigues, vinha por cima das ondas qual espuma venenosa do oceano. Viu o assalto, a chacina dos moradores nus, o sangue a correr, o incêndio a engolir as palhoças. Depois, o saque, o apresamento dos homens válidos e das mulheres, a algema que lhes garroteava os pulsos, a canga que os metia dois a dois em comboios sinistros tocados a relho pela costa. Viu, como goelas escuras, abrirem-se os brigues para tragar a dolorosa carne do eito. E recordou o interminável suplício da travessia... Carga humana, coisa, fardos de couro negro com carne vermelha por dentro. A fome, a sede, a doença, a escuridão. Por sobre as cabeças da carga humana, um tabuado. Por cima do tabuado, rumores de vozes. Erma os brancos. Branco queria dizer uma coisa só: crueldade fria...
Viu depois o desembarque. Terra, árvores, sol – não mais como em África. Nada deles agora – nem a terra, nem as árvores, nem o sol. Caminha, caminha! Se um tropeça, canta-lhe o látego no lombo. Se cai desfalecido, trucidam-no. A caravana marcha, trôpega, e penetra nos algodoais...
Viu Jim viçarem luxuriosos os algodoais da Virgínia depois que o negro chegou. Além das chuvas havia a regá-los agora o suor africano – suor e sangue.
Viu dois séculos de chicote a lacerar carne e outros dois séculos de lágrimas, de gemidos e lamentos os uivos de dor. E viu a América ir saindo dessa dor, como a pérola, filha do sofrimento do molusco, nasce da concha...
Viu depois a Aurora da noite de 200 anos: Lincoln. O Branco Bom disse: “Basta!”. Ergueu exércitos e das unhas de Jefferson Davis arrancou a pobre carne-coisa.
As algemas caíram dos pulsos, mas o estigma ficou. As algemas de ferro foram substituídas pelas algemas morais do pária. O sócio branco negava ao sócio negro a participação de lucros morais na obra comum. Negava a igualdade e negava a fraternidade, embora a lei, que paira serena acima do sangue, consagrasse a equiparação dos dois sócios.
E viu Jim que a Justiça não passava de uma pura aspiração – e que só há Justiça na terra quando a força se impõe.
“Ei de fazer força e impor a justiça”, murmurou o grande negro”.

Não creio que um racista procuraria explicitar as injustiças cometidas contra os afrodescendentes através da história de uma forma tão contundente e embasada historicamente falando.
De qualquer forma trata-se de uma obra polêmica que vale a pena ser lida e discutida além de ser mais um ótimo trabalho do “hábil escritor e contador de histórias” que foi Monteiro Lobato.
2 reviews
October 27, 2018
A cada dia que passa essa ficção fica mais e mais real. Esse é um tema que nunca vai deixar de ser atual apresentado num formato fiel ao das ficções clássicas de H.G.Wells.
Profile Image for Thiago Santos.
3 reviews
November 6, 2023
Monteiro Lobato defendia e publicou neste livro um futuro eugenista e higienista onde "vence por fim a inteligência do branco". Até grandes autores podem ser um pedaço de lixo.
Profile Image for Bruno Assaz.
87 reviews4 followers
February 28, 2024
Com o título que tem, "O presidente negro" poderia ser um livro muito diferente do que é. Poderia, por exemplo, tratar de como o Brasil ou os Estados Unidos alçaram à presidência da república um homem negro após séculos de escravidão, exploração e brutal marginalização da população afroamericana. O livro, porém, não poderia ser mais diferente disso.

Decidi lê-lo após tomar conhecimento da grande simpatia que Monteiro Lobato nutria pela eugenia, pela qual advogou fortemente no Brasil. Sabia, ao iniciar a leitura, que não viria boa coisa pela frente, mas devo dizer que fiquei muito espantado com o que li, mais espantado do que havia imaginado que ficaria. "O presidente negro" (ou "O choque de raças") é provavelmente o desabafo de Monteiro Lobato, que anos antes apresentara ao Brasil Jeca Tatu, o "funesto parasita da terra", uma das descrições que deu à personagem. Parece ser a explosão de tudo aquilo que o autor queria ver, que eram seu país natal e os Estados Unidos, a grande nação americana, livres dos negros. A obra me parece, pois, um panfleto eugenista em forma de ficção científica. É um livro realmente perturbador, que ilustra muito claramente o que desejavam os eugenistas do início do século passado e que, se tivesse sido escrito por um estadunidense e bem promovido à época, provavelmente seria lido com entusiasmo até hoje por boa parte do eleitorado republicano no meio-oeste e no sul dos Estados Unidos. Ainda bem que não foi.

Agora, depois de tudo isso que escrevi, por que diabos dei nota 4 ao livro? Bem, porque acho que é um livro que deve ser lido. Monteiro Lobato continua sendo um dos principais nomes da literatura brasileira, e seus livros infantis foram e seguem sendo para muitos brasileiros o primeiro contato com a leitura e com a literatura. Conhecer a faceta mais perversa de Monteiro Lobato e refletir sobre ela é de grande importância, sobretudo porque a discriminação contra os negros hoje, no Brasil, não difere muito daquela de cem anos atrás, quando a obra foi publicada. Também porque "O presidente negro" pode auxiliar adultos a perceberem o racismo presente nas obras infantis do autor, impulsionando uma grande questão dos nossos tempos, que é a separação entre criador e criatura, autor e obra.
Profile Image for ·.
503 reviews
November 11, 2025
(11 November, 2025)

Crap, all of it: story, setup, prose, translation... words, everything sucks!

The way Lobato writes is shit. Many persons (morons, the lot of them) still talk like this: white man, black man - what the fuck? Might as well separate people by hair colour, or by number of teeth! Just imagine it: "Did you hear? Your neighbour, that 32 guy, is going out with a 28 girl... that's not right!" Let's go back to skin colour for a sec (and be more 'discerning'): "My pinkish-of-skin colleague just married his slightly paler pinkish-of-skin high school sweetheart, the world has gone mad!" Sounds ridiculous, right? That's because it is, race is a human invention - it's fiction - skin colour is a non-factor.

Everything else is tedious. The setup is way too long and the pseudo-philosophising is bad as fuck. The 'science' behind the time travel is so bad I wonder why the author did not just skip the whole thing. This is also peopled by insipid, forgettable characters: who gives a shit for professor Z, jackass Y, miss X, or President W?

... thank you very much, Mr. Lobato!
Profile Image for Maria do Socorro Baptista.
Author 1 book27 followers
February 3, 2022
Primeiro livro de Lobato para adultos que leio. Li todos os seus livros infantis, gosto de dizer que passei minha infância no Sítio do Picapau Amarelo, e li um de seus contos quando ainda era criança, 'Negrinha'. Lembro-me do quanto fiquei angustiada com o conto, e tinha me prometido nunca ler seus textos para adultos. Mas depois de ler vários comentários muito negativos sobre este livro, decidi criar coragem, e o li. Tenho certeza de que terei pesadelos. É uma distopia muito cruel, altamente racista, com uma ironia sutil que talvez escape ao leitor menos atento. Achei interessante algumas questões apontadas no livro, com a questão dos direitos da mulher e uma tecnologia que permite o home office. Mas acho que vou continuar lendo apenas seus livros destinados para crianças, nestes eu me sinto em casa, considerando as devidas proporções.
Profile Image for Douglas Lobo.
Author 11 books15 followers
February 23, 2020
Monteiro Lobato comete um erro técnico no romance "O presidente negro" (1926): o futuro distópico dos Estados Unidos é narrado por um personagem do presente, de modo que a maior parte do livro é um gigantesco diálogo expositivo. Assim o autor não cria de fato o ambiente futurista, com as nuances e os detalhes necessários à imersão do leitor. A prova de que mesmo grandes escritores podem errar, inclusive já na concecpção. 
34 reviews
February 4, 2020
Puro suco da eugenia. Monteiro Lobato era um racista. Publicado um ano após Mein Kampf, merece estar ao mesmo lado na prateleira.

Apesar de tudo recomendo a leitura, para desconstruir um herói nacional que teve a memória perpetuada por pessoas tão preconceituosas quanto.
2 reviews
December 31, 2020
Ótima distopia. O romance de Lobato monta manequismos sociais bastante aguçados.
Profile Image for Roberto Toledo.
6 reviews2 followers
May 28, 2021
Poderia ter sido um clássico nacional de ficção científica mas se perdeu em questões políticas dos anos 20/30
Profile Image for Brenda Lopes.
38 reviews
não-deu
March 6, 2023
"Do presente, meu caro, e do passado, só temos vagas sensações." p. 59
Profile Image for s. ganeff.
25 reviews5 followers
June 30, 2025
que show de horrores! esse livro deve ser lido e discutido. tem que ser lido para se perceber o quão absurdo é tudo que está escrito
Profile Image for Laura.
7,134 reviews607 followers
September 10, 2015
'O presidente negro' é o único romance adulto de Monteiro Lobato. Embora ainda não tivesse pisado em terras norte-americanas quando escreveu esse livro, Lobato ambienta sua história futurista nas terras de Henry Ford. Em 1926 o autor publicou o romance com o título 'O choque' e, duas décadas depois, mudou o nome para 'O presidente negro'. A obra aborda temas como a segregação entre brancos e negros, aculturação, feminismo e ainda profetiza o surgimento de uma rede pela qual as pessoas se comunicariam e trabalhariam à distância. Através das lentes do 'porviroscópio', aparelho capaz de prever o futuro, Lobato leva os leitores para 2228, ano em que o personagem Jim Roy concorre à presidência dos Estados Unidos.
Displaying 1 - 24 of 24 reviews

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