Este é o segundo livro que leio do escritor moçambicano Mia Couto, e tal como o anterior que li do mesmo escritor, "A Varanda do Frangipani", tive dificuldades em compreender e em seguir a história que estava a ser narrada.
De facto, acabei por fazer várias pausas e recomeçar a ler por mais de uma vez bastantes páginas, bem como quando iniciava um novo capítulo, tinha que voltar ao final do anterior, pois não me lembrava do desenrolar da história.
Ao ler um livro com esforço e não com naturalidade, acabo sempre por não me interessar muito pelo seu conteúdo, esqueço-me com mais facilidade das personagens e termino a leitura com um sentimento de desilusão.
No entanto, este foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX, e Mia Couto é um escritor de sucesso, tendo já sido distinguido com vários prémios literários.
Pelo que, poderei estar a ser injusta no comentário que estou a escrever, mas não consegui sentir empatia com a escrita de Mia Couto em ambos os livros que já li deste autor. Talvez porque o mesmo utiliza muitas palavras que não compreendo, umas que são próprias da linguagem dos povos africanos e outras que o autor inventa. Aliás, Mia Couto é conhecido por nos seus livros utilizar muitas palavras criadas pelo próprio através da junção de partes de palavras já existentes, mas cujo significado nem sempre consegui entender.
A história de "Terra Sonâmbula" desenrola-se em Moçambique durante a guerra civil que se seguiu à independência, e não se debruça tanto sobre os confrontos que ocorreram, mas sobretudo pelas suas suas consequências na população civil e no país.
Deparamo-nos com campos de refugiados, onde as pessoas agonizam com fome, com doenças e com a morte "sempre à espreita", com vilas e aldeias destruídas, com campos abandonados e não cultivados e com destroços por todo o lado. Um país onde as pessoas perdem a esperança e desistem de viver, onde é fácil arranjar armas e onde se mata sem motivo, pois a vida humana perde todo e qualquer valor. A própria terra e suas paisagens parecem sofrer com a guerra e, em consequência, a natureza é também afetada.
Apesar de as vítimas civis da guerra terem perdido todo o interesse umas nas outras, um idoso encontra um rapaz moribundo num campo de refugiados, ajuda-o a recuperar-se e ambos vão percorrer uma estrada que os leve a algum sítio onde possam sobreviver. Nesse caminho sem destino certo, encontram um machimbombo (autocarro) incendiado, com pessoas mortas, onde decidem ficar, uma vez que aí existe comida e bancos para dormirem.
Após retirarem os mortos e limparem o autocarro, o rapaz descobre cadernos escritos por alguém que se chamava Kindzu, que nos mesmos narra a história da sua vida desde que decide abandonar a sua casa por causa da guerra e da morte do seu pai e irmãos, e percorrer o país, em busca do mar, talvez por achar que aí poderia encontrar um lugar seguro e ficar em paz.
Todas as noites, o rapaz lê os cadernos escritos por Kindzu ao idoso, o que origina maiores laços de amizade entre ambos, e durante o dia vagueiam pelos lugares existentes em redor do autocarro em busca de comida, encontrando as personagens mais bizarras, até que decidem também ir em direção ao mar.
Deste modo, entrecruzam-se duas histórias de vida, a da amizade entre Muidinga (o rapaz) e Tuahir (o idoso), e a de Kindzu, que na sua viagem por Moçambique, acaba por conhecer em momentos diferentes duas mulheres, por quem se apaixona, pelo que no meio de tanto ódio e mortes, também é possível existir o amor.
Por último, neste livro as personagens e as suas vidas têm uma envolvente mística, pois a todo o momento nos surgem relatos de feitiços, de crenças nativas, de fantasmas, de mistura da realidade com a magia, de interferências dos mortos e do além na vida terrena; mas do meu ponto de vista, com uma componente excessivamente trágica.