SONÈTOS Tatuagens complicadas do meu peito:…Trophæos, emblemas, dois leñes alÞdos’ Mais, entre coraäñes engrinaldados, Um enorme, soberbo, amor-perfeito’ E o meu brazào’ Tem de oiro n'um quartel Vermelho, um lys; tem no outro uma donzella, Em campo azul, de prata o corpo, aquella Que æ no meu braäo como que um broquel. Timbre: rompante, a megalomania’ Divisa: um ai,…que insiste noite e dia Lembrando ruinas, sepulturas rasas’ Entre castelos serpes batalhantes, E aguias de negro, desfraldando as azas, Que realäa de oiro um colar de besantes
CAMILO PESSANHA nasceu em Coimbra em 7 de Setembro de 1867. Licenciou-se em Direito em Coimbra e partiu para Macau onde exerceu exerceu funções judiciais. O contacto com a cultura chinesa levou-o a escrever vários estudos sobre esta cultura e a fazer traduções de poetas chineses. Foram, todavia, os seus poemas simbolistas que largamente influenciaram a geração de Orpheu, contando com Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. Os seus poemas foram reunidos na colectânea Clepsidra (1922), tendo sido Fernando Pessoa o principal mentor da edição. É considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista da fragmentação. Em 1919, recebe a comenda da Ordem de Sant'Iago da Espada pelos «serviços prestados às letras e artes em Macau». Faleceu em Macau em 1 de Março de 1926.
For an unrequited love, he exiled himself in Macau for almost 30 years. Ana de Castro Osório refused his marriage proposal, but it was she who took care to edit "Clepsydra", the poetry book that immortalized him.
Camilo was not concerned with keeping what he wrote on paper, but had the poems in colour and dictated them when necessary. In his "poetry of images" there is a words' melody, an encounter between states of soul and musicality, a rhythm of sounds that can perceive in reading. His work "is the purest and most seasoned fruit of Portuguese Symbolism".
"Esvelta surge! Vem das águas, nua, Timonando uma concha alvinitente! Os rins flexíveis e o seio fremente... Morre-me a boca por beijar a tua.
Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha? Eis-me formoso, moço e casto, forte. Tão branco o peito! — para o expor à Morte... Mas que ora — a infame! — não se te anteponha.
A hydra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a De encontro à rocha onde a cabeça te há-de, Com os cabelos escorrendo água,
Ir inclinar-se, desmaiar de amor, Sob o fervor da minha virgindade E o meu pulso de jovem gladiador."
*** O sentimento que sobrevive a esta primeira leitura está entre o deleite e a incredulidade. Li alguns destes poemas à noite — noites muito avançadas e cansadas —, e creio que o silêncio intocável dessas horas agudizou ainda mais uma experiência que já se adivinhava maravilhosa: há algo de irreal nos poemas do Camilo Pessanha, são como um exercício de ascese ou um processo de alquimia que transformava as palavras em notas musicais. Não são versos, mas movimento, oscilações, flutuações — a primeira palavra formando-se pedra, roçando a superfície da água e desenhando, languidamente, um caminho até ao invisível, até à dissolução absoluta.
Estou apaixonada por este livro e sei que o voltarei a reler em breve.
Clepsydra or water clock (literally to steal water in Greek).
Camilo Pessanha was championed by Ana de Castro Osório and was the forerunner of Mario de Sá-Carneiro. He was very influenced by the French Symbolist poets Valéry, Baudelaire, Verlaine and Mallarmé and known as a modern Portuguese poet. This was his only published book of poems.
The book is divided into three sections: sonetos, poesías and final. Most of the poems are untitled or so one believes. In the Sonnets section, it starts with an untitled one-page poem, then Estátua (one-page), then Fonógrafo, which seems like one page but as one turns the page the ideas seem to continue for numerous pages. However, the index states these are all separate pages. A tad confusing and yet all these pages after the one-page Fonógrafo are very good and flow together nicely.
In fact the entire book is quite good. Moody, almost perversely words of alienation, adrift, loss, deprecating, melancholic, mystical, self-loathing, and even apologetic in tone. Sounds of symbolism?
“Ó minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova, Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova… Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.” (Sonnets)
A portrait of the artist as a young man?
“De sob o cómoro quadrangular Da terra fresca que me há-de inumar,
E depois de já muito ter chovido, Quando a erva alastrar com o olvido,
Ainda, amigo, o mesmo meu olhar Há-de ir humilde, atravessando o mar,
Envolver-te de preito enternecido, Como o de um pobre cão agradecido.” (Poesía, Em um retrató)
Stealing time by way of that water clock,
“Abortos que pendeis as frontes cor de cidra, Tão graves de cismar, nos bocais dos museus, E escutando o correr da água na clepsidra, Vagamente sorris, resignados e ateus,
A comparação é má, mas ajuda-nos a encontrar um referencial: a poesia de Camilo Pessanha não anda longe da de Baudelaire. «Só o meu craneo fique/ Rolando insepulto no areal/ Ao abandono e ao acaso do simoün.../ Que o sol e o sal o purifique», lembra certas passagens das Fleurs du Mal, e justamente as mais pungentes. Críptico amiúde, lírico a espaços, em quase tudo diferente do que mais se fez em Portugal no capítulo poético. E mais prazer é lê-lo na escrita original (trata-se de uma edição crítica com uma longa introdução à problemática da fixação do texto), um português de início do século XX que nos dá o sabor da época e do génio de Pessanha.
* Ao meu coração um peso de ferro Eu hei de prender na volta do mar. Ao meu coração um peso de ferro... Lançá-lo ao mar. Quem vai embarcar, que vai degredado, As penas do amor não queira levar... Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar. E hei de mercar um fecho de prata. O meu coração é o cofre selado. A sete chaves: tem dentro uma carta... _ A última, de antes do teu noivado. A sete chaves, _ a carta encantada! E um lenço bordado... Esse hei de o levar, Que é para o molhar na água salgada No dia em que enfim deixar de chorar. *** Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, Se alguma dôr me fere, em busca d’um abrigo; E apesar d’isso, crês? Nunca pensei n’um lar Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. Nem depois de acordar te procurei no leito, Como a esposa sensual do Cântico dos Cantos
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo A tua côr sadia, o teu sorriso terno... Mas sinto-me sorrir de vêr esse sorriso Que me penetra bem, como esse sol de inverno.
Passo contigo a tarde, e sempre sem receio Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. Eu não demoro o olhar na curva do teu seio Nem me lembrei jámais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo. Eu não sei que mudança a minha alma presente... Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço, Que adoecia talvez de te saber doente. *
É interessante como, ao ler Clepsidra de Camilo Pessanha, me veio à mente White Nights de Fiódor Dostoiévski. Embora sejam obras distintas em forma e contexto, ambas partilham temas de melancolia, amor efémero e não correspondido, e um profundo lirismo. Em White Nights, acompanhamos o protagonista num breve encontro romântico que o deixa desiludido, enquanto em Clepsidra, Pessanha explora a fragilidade do amor e do tempo através de uma poesia simbolista e etérea.
Apesar das diferenças culturais — o romanticismo russo de Dostoiévski e o simbolismo português de Pessanha —, ambos os autores capturam o sentimento de perda e a impossibilidade de alcançar a felicidade plena, usando a linguagem como veículo para expressar as emoções mais profundas da alma humana.
Segunda Leitura obrigatória para este semestre na faculdade. E mais uma vez fiquei surpreendida por ter realmente gostado de um livro de poesia, sim porque tal como já devem ter reparado este não é dos meus géneros literários favoritos. Neste livro encontramos diversos poemas que não falam de amor, nem de esperança ou dor, neste poemas encontramos sentimentos descontinuados, o que leva o sujeito poético à desistência destes mesmos sentimentos, o que acaba por levá-lo ao tédio. Apesar de não serem poemas com sentimentos felizes, ou pelo menos com mensagens felizes, são poemas que nos fazem pensar na vida, no dia-a-dia, na realidade que nos rodeia. É verdade que este livro não me deixou sem fôlego, mas a forma de escrita do autor consegue levar o leitor à adoração dos seus textos e ao mesmo tempo ao entendimento daquilo que o autor queria transmitir.
Sei que ainda não analisei este livro nas aulas, o que deverá estar quase a acontecer, e desta forma não consigo fazer uma análise mais detalhada dos poemas e das suas mensagens, mas pelo menos consigo ter uma perspetiva externa do que me irá esperar nas aulas.
Diz Carlos Reis, na nota prévia, que "Camilo Pessanha não é certamente um poeta de grande público"; chega mesmo a chamar-lhe um "poeta de culto". Tendo lido este pequeno volume onde se concentra toda a sua (reduzida) obra poética, não posso dizer que discorde. E ainda que lhe reconheça os méritos, parece-me que a rigidez da forma, combinada com a complexidade do vocabulário, lhe conferem certo ar pesado, palavroso, sem a graciosidade que atingiram outros poetas por ele influenciados, como Fernando Pessoa ou Eugénio de Andrade.
Não quer isto dizer que não aprecie o talento, ou que não me tenham encantado alguns dos muitos poemas que aqui expôs. Mas quer dizer que, ainda que volte a um ou outro poema em particular, suspeito que o livro em si não deverá sair da estante tão cedo.
Diria que dou uma classificação menos positiva não porque não reconheça qualidade no autor, mas porque não me identifiquei com a sua obra. No final das contas, a poesia é muito pessoal e Camilo Pessanha não me tocou particularmente. Ainda assim não digo que não vale a pena ler.
Não sou leitora assídua de poesia e não posso também dizer que seja um dos meus géneros favoritos, mas a verdade é que aqui no blogue já tive o prazer de ter algumas surpresas, pelo que foi com entusiasmo e de espírito aberto que iniciei esta leitura.
Se bem que não se revelou uma leitura arrebatadora, este pequeno livro foi no entanto uma leitura muito agradável. A forma como o autor domina as palavras , os sentimentos que evoca, a melodia e ritmos intrínsecos, tudo é de uma enorme beleza, reveladora da grande mestria do autor.
Esta poesia foi a mais melódica e rítmica que alguma vez li, quase mesmo como música sem o som de instrumentos, onde as notas são trocadas por palavras e é o som dessas palavras que nos embala a leitura.
Só não gostei mais desta leitura, porque senti os temas algo distantes, não me fazendo "sentir", factor que é na minha opinião a maior qualidade da poesia. É na poesia que me faz sentir, quase sofrer ou alegrar-me com o poeta, que me revolve os sentimentos e me deixa a pensar, é nessa a poesia que mais encontro gosto por este género literário.
A poesia do presente livro é uma poesia linda, ritmicamente perfeita, mas falhou por não me fazer sentir. Senti-me como uma admiradora de uma linda obra de arte, mas que me fala pouco ao coração.
Assim, e pelo que disse anteriormente, recomendo esta obra a todos os amantes de poesia, mas não gostei o suficiente para a recomendar de uma forma geral a todos os leitores deste blogue.
Clepsydra é um daqueles livros que talvez seja fenomenal demais para eu entender. Peço desde já desculpa por isso. Tenho, no entanto, uma ressalva a fazer que possa compor tal perjúrio: as estrelas do livro vão subindo, de 1 para 2, de 2 talvez suba para 3 e adiante, quem sabe? Parece-me que quanto mais analiso cada poema, ou assisto a aulas sobre este, leio bibliografia secundária, mais rico fica o livro. Mas os poemas, tirando o grande Violoncelo um fenômeno, e outros da mesma índole, resumem-se todos aos mesmos temas: efemeridade, pessimismo, morte. Fica verdadeiramente sofrível e cansativo. É por isso que não vejo o gênio de Pessanha. Talvez o veja em um ou dois poemas. Mas no todo? Desculpem-me.
i don't usually rate poetry books because i feel that they are part of the author's soul; and yet i feel compelled to rate this one.
in each poem, you can feel his anguish and melancholy, both emotions that characterize the portuguese people and yet Camilo managed to create a deeper meaning to those emotions. it's impossible to read this book and not feel. Camilo was able to produce feelings in these poems, leaving the reader as nostalgic and melancholic as him.
truly a great read and so meaningful. i can't wait to study some of the poems myself.
A collection rich in symbolism, of the march of time like water from a clepsydra, Pessanha is a modernist poet of exceptional talent. This was my first time reading a bilingual text, the poet being Portuguese, and it was great seeing the original text alongside the English, allowing comparisons between rhythm and flow. Thanks, Toby, for lending me the copy.
A dor, deserto imenso, Branco deserto imenso, Resplandecente e imenso, Foi um deslumbramento. Todo o meu ser suspenso, Não sinto já, não penso, Pairo na luz, suspenso Num doce esvaziamento.
a dor, deserto imenso, branco deserto imenso, resplandecente e imenso, foi um deslumbramento. todo o meu ser suspenso, não sinto já, não penso, pairo na luz, suspenso num doce esvaimento.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Li esta obra de Camilo Pessanha pela primeira vez aos 17 anos, quando ainda era uma amadora a ler poesia mas, apesar de pouco compreender, a partir desse dia nunca mais gostei tanto de um livro de poesia como gostei deste. Esta poesia não é fácil de ler para quem não está habituado a ler poemas, a estranheza da sua linguagem mais técnica lembra por vezes Eugénio de Castro que era defensor do uso das palavras que estão escondidas nos confins dos dicionários e que tão poucos conheciam. Esta poesia foca-se na mágoa e na dor da morte acompanhada de uma desfragmentação do sujeito que utiliza uma sintaxe desarticulada. Esta poesia é de um rigor técnico perfeito, qualquer entusiasta da poesia se emociona ao ver tudo isto. Podia ficar aqui tanto tempo a falar sobre este livro e tudo aquilo que ele significa para mim mas não tenho palavras suficientes para o fazer, Camilo Pessanha é sem dúvida o meu poeta preferido e o grande pilar do Simbolismo português.
A vida, a pulsão da vida, e a morte, a podridão da morte. Mas a vida, o ruído da vida, a inutilidade da vida, e a morte, o sossego da morte, a plenitude em si mesma que é a morte.
Camilo Pessanha, simbolista português com um pé no Oriente, arquitetou estes poemas como quem constrói uma catedral gótica. O resultado é uma sinfonia de ecos do passado que se entranha no vaivém oco do presente. Também hoje se sonha, também hoje se corre, também hoje ideais se esvaem assim que se lhes toca com a ponta do dedo. Também hoje nos perguntamos se valerá a pena tentar. Pessanha oferece uma metamorfose das mesmas questões, uma transubstanciação da existência nos movimentos acrobáticos das "arcadas do violoncelo".
Num universo desprovido de fé, cujas fronteiras são a consciência aguda de que a matéria dos sonhos nada é para além disso, vive-se num movimento pendular - num extremo, o pulsar fervoroso da conquista; no outro, o inevitável sofrimento provocado pela desilusão. Intermediando um e outro, a trajetória do indivíduo para a tomada de consciência daquilo em que se alicerça a realidade. Assim como, detrás da Vénus imaginada, vive um corpo degradado e mal-cheiroso, haverá, nos bastidores da vida, uma realidade, menos brilhante e mais mórbida, indiferente à "orgia, ao longe, que em clarões cintila". É o vulto inevitável, mas sempre contornado, cujo rosto é a insignificância de tudo, a voz da nossa verdadeira pequenez, o quarto onde repousa a eternidade de cada um. O nada. O nada que é a morte e que Pessanha e os Simbolistas expandem para a vida - fragmentam a existência (e a inexistência) para as fundirem depois.
Este é o resultado dessa dissolução sublimada do eu, encarnada em composições compassadas. Estas são as melodias do sonho, da busca, do ideal, da desilusão, da abulia e da decadência. Paremos para as ouvir. Afinal, a água na clepsidra escorre ininterruptamente.
"Relógio! Deus sinistro, hediondo, indiferente, Que nos aponta o dedo em riste e diz: Recorda! (...) O dia vai, a noite vem; recorda! Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento."
Baudelaire, "O relógio" in "As Flores do Mal"
A clepsidra ou relógio de água foi um dos primeiros sistemas criados para medir o tempo. Funciona pelo mesmo princípio da ampulheta e era usada na Grécia Antiga para medir tempos curtos como os discursos de defesa dos arguidos. Muitos dos poemas de Pessanha giram em torno de um recordar doloroso que o afunda, de um vislumbre grandioso que o assombra pela sua pequenez, de um coração que fala na solidão de uma cárcere, da procura por uma mão branca ou pela flor de jasmim, de algo distante e puro demais para ser tocado, mesmo presente. Traz consigo o sentimento de um ideal perdido, de uma insurreição silenciosa, chorosa e rendida.
"Coração, quietinho...quietinho... Porque te insurges e blasfemas? Pschiu...Não batas...Devagarinho... Olha os soldados, as algemas!"
E depois, a morte. A espera pelo caixão, a assunção de que a vida terminou sem se cumprir, o desejo de ser consumido pela terra para finalmente descansar. Boémio, desiludido, de fraca saúde psíquica e física, o apaixonado e desapaixonado Pessanha, revela-nos através da sua única obra publicada, uma alma renegada por si própria, esmagada pelo peso do seu desligamento para com a vida e ao mesmo tempo, uma sensibilidade errática que parece inundar cada momento de uma lembrança de infortúnio, de um sonho, uma esperança qualquer, que o atormenta e aflige.
"Eu vi a luz em um país perdido Minha alma é languida e inerme Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se como faz o verme..."
Camilo Pessanha foi um dos nomes maiores do nosso simbolismo, ao lado de António Nobre, Eugénio de Castro, Alberto Osório de Castro. Ficou imortalizado pelo único livro de versos, "Clepsidra", síntese dramática do "eu", como se se apresentasse inacabado e sempre pronto para despontar nos dramas de cada nova geração (o sentimento de Pessanha é universal e intemporal).
Foi o grande inovador da linguagem poética, depois de Cesário e antes de Pessoa. As imagens poéticas desfilam enquanto elementos oníricos que elevam a própria densidade do verso. Os recursos de linguagem procuram interpretar o desmoronamento do sujeito poético; e, a síntaxe psicológica, traduz cada elemento que lhe assombra a alma.
Na palavra poética coincidem sons, aromas, sensações. Aqui, a poesia polariza-se nos extremos entre a sensualidade da paixão e as simples vivências sensoriais. Como Antero, mergulha na abstracção ontológica e na dúvida metafísica. E, como Nobre, chora sobre o paraíso perdido, as miragens da infância, os territórios insondáveis do passado, a ansiedase face ao futuro, como lembram os mais sublimes versos escritos na língua portuguesa: "Tenho sonhos cruéis; n'alma doente/ Sinto um vago receio prematuro./ Vou a medo na aresta do futuro,/ Embebido em saudades do presente..."
Pessanha mergulha no pessimismo do ser e desbrava as profundezas mais obscuras da alma humana (como Baudelaire, Verlaine...). Mas aí está a grande poesia, o confronto total entre as oposições íntimas que desafiam o verso. O poema é sempre um duelo entre o sentimento e a linguagem, neste prisma constitui-se o estilo e, na superação do conflito interno entre poeta e poema, eleva-se a grande arte.
O livro é composto por um conjunto de poemas que se destacam pela sua delicadeza, sensibilidade e profundidade. Camilo Pessanha utilizou uma linguagem clara e objetiva para retratar as suas experiências pessoais e as reflexões sobre a vida e a morte, embora surja, de vez em quando, uma ou outra palavra só desvendada recorrendo ao dicionário.
Marcou-me a musicalidade dos poemas, embora dramáticos de mais para mim. Ao mesmo tempo, existe alguma falta de variedade temática (de certeza resultante mais da minha limitada capacidade de interpretação do que de qualquer falha do autor). Terei que revisitar alguns dos poemas que não compreendi na totalidade para reformular a opinião de uma obra que gostei de ler e gostarei ainda mais de, futuramente, compreender.
"Non so se questo è amore. Cerco il tuo sguardo, se un dolore mi ferisce, per trovarvi rifugio; malgrado questo (ci credi?) non ho mai pensato a una casa dove tu fossi felice, ed io felice con te.
Per te non ho mai pianto la fine di un ideale. E non ti ho mai scritto dei versi romantici. Né al mio risveglio ti ho cercata nel letto, come la sposa sensuale del Cantico dei Cantici.
Se è amarti non so. Non so se in te idealizzo il tuo colore sano, il tuo sorriso tenero... Eppure mi sento sorridere vedendo questo sorriso che mi penetra dentro, come questo sole d'inverno.
Passo con te la sera, e sempre senza temere la luce crepuscolare, che snerva, che tormenta. Non indugio lo sguardo sulla curva del tuo seno né mi è mai venuto in mente di baciarti la bocca.
Io non so se è amore. Sarà forse un inizio. Non so che mutamento presagisce la mia anima... Amore non so se è, so che provo per te tenerezza, che forse starei male sapendoti ammalata."
Um livrinho de poesia que comprei em super promoção na Feira do Livro.
Para ser completamente sincera, este livro foi tão pouco memorável que não sei bem o que dizer sobre ele. São poemas, a maior parte sonetos, inspirados no movimento literário da época. Esta autor terá conhecido Venceslau de Moraes e viveu na Ásia por algum tempo, e a sua poesia tem portanto alguma influência dessas imagens orientais.
São poemas de amor não requisitado, de grande tristeza e desespero, mas que não me levaram a lado nenhum. Poesia não será o meu género preferido, no entanto este livro clássico foi mesmo um desapontamento.
O expoente do simbolismo luso e merecedor de uma maior devoção literária do que aquela que lhe é votada. Não é um livro de leitura imediata e descomprometida, dada a complexidade e profundidade dos versos nele contidos. Porém, para os leitores mais persistentes e sem complexos em ler e reler o mesmo poema, "Clepsydra" deixa uma marca no imaginário do leitor, inaugurando um elo entre ele e Camilo Pessanha que levará a que o livro, uma vez lido, não fique sempre muito tempo guardado nas estantes.