Do premiado autor Michel Laub, um romance sobre ódio, perdão e os modos como nossa intimidade é definida pela política e pela barbárie do nosso tempo.
Uma cineasta alemã marcada por um trauma prepara um documentário sobre a violência brasileira. Os principais entrevistados são dois irmãos: Raquel, artista de cento e trinta quilos cujo trabalho se baseia em episódios que a levaram a detestar o próprio corpo, e Alexandre, empresário que atua no ramo fitness na periferia de São Paulo. Ambos foram escolhidos por causa da repercussão mundial de uma agressão que Raquel sofreu, no início de 2018, durante um debate sobre arte e política num hotel da capital paulista. Diante das câmeras, os segredos dessa história íntima que envolve bullying de adolescência, uma disputa por herança e diferentes visões sobre temas como sexo, religião e responsabilidade individual são pontuados por flashes da história recente do país ― do Plano Collor, que iniciou a ruína da família dos protagonistas, às vésperas de uma eleição que mobilizou o ódio de uma sociedade profundamente dividida. A ideia de conciliação, afinal, é inimiga ou aliada da barbárie em que nos metemos?
Michel Laub was born in Porto Alegre, in 1973, and lives in São Paulo. He is a writer and journalist, he was editor-in-chief of Bravo magazine and coordinator of publications and internet at Instituto Moreira Salles. Today he is a columnist for Folha de S.Paulo, in addition to collaborating with several publishers and vehicles. He published six novels, all published by Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009), Diário da queda (2011, with rights sold to the cinema)) and A maçã envenenada (2013). His books have been released in 12 countries and 9 languages. He is one of the members of the edition The best young Brazilian writers, of the English magazine Granta. He received the JQ - Winagte (England, 2015), Transfuge (France, 2014), Jabuti (second place, 2014), Copa de Literatura Brasileira (2013), Bravo Prime (2011), Bienal de Brasília (2012) and Erico Verissimo awards (2001), in addition to being a finalist in the Correntes de Escrita (Portugal, 2014), São Paulo de Literatura (2012 e 2014), Portugal Telecom (2005, 2007 e 2012) e Zaffari&Bourbon (2005 and 2011) awards.
Em seu mais novo romance, um dos principais nomes da literatura contemporânea nacional aborda temáticas muito atuais, sobretudo a polarização que marca as discussões políticas e sociais do nosso tempo.
O enredo da obra tem como base a elaboração por uma cineasta alemã de um documentário sobre a violência em diferentes países, dentre eles o Brasil. Para desenvolver o seu trabalho no país, a cineasta opta por analisar um acontecimento de violência e que teve repercussão mundial: uma agressão pública sofrida por uma artista em uma apresentação em São Paulo.
É característico da produção de Laub escolher formas de escrita criativas e que fujam do comum. Assim, para construir a sua narrativa nesse livro, o autor vai alternando os capítulos entre as versões de Raquel - a vítima da agressão - e Alexandre, seu irmão, sobre o ocorrido. Os dois têm pensamentos muito antagônicos e para tentar encontrar os possíveis motivos para o episódio de agressão, acabam explorando o seus passados, de traumas na infância e perdas familiares, e o contexto político vivido pelos brasileiros no governo de Fernando Collor.
É impressionante perceber como a polarização torna quase impossível a tarefa de conciliar posições tão diferentes. Ao longo da leitura, até tentava entender de que forma os irmãos poderiam tentar reestabelecer seus laços ou, ao menos, um diálogo razoável, mas tive dificuldades de encontrar uma resposta.
Essa prejudicial consequência da polarização é um tema cada vez mais atual. O livro, portanto, desperta reflexões muito interessantes a partir de um caso aparentemente isolado e com características peculiares.
Da mesma forma que nos outros livros que li do autor, a escrita em “Solução de dois Estados” é agradável e também escancarada. Laub não poupa vocabulário na hora de descrever os acontecimentos e os sentimentos vividos pelos personagens. Recomendo muito!
O livro relata a construção de um documentário sobre violência, em que dois irmãos rivais despejam todo seu ódio mútuo, decorrente de visões antagônicas sobre os acontecimentos que seguiram ao plano Collor e à morte do pai deles. Independente de visões políticas pessoais, o livro mostra como os dois tem razão em alguns aspectos e os dois estão totalmente errados em outros. Cada um, olhando apenas o próprio umbigo (ok, a irmã obesa um pouco menos - Gostou Danilo?). Ótimo livro, que reflete perfeitamente o momento politico atual no Brasil e no mundo.
Que pedrada de livro. Uma exploração sobre ódio com dois personagens antagônicos e horríveis cada um a sua maneira (apesar de eu achar que o cristão dono de academia é beeeeeem pior, a irmã dele, uma artista performática que sempre viveu a sombra da gordofobia, também não é muito melhor).
Gostei que o livro se propõe a ser uma entrevista para um documentário, principalmente quando a entrevistadora também passa a ser uma personagem reativa e não apenas que conduz o relato dos protagonistas.
Um grande barraco de família. Se você gosta de uma treta, essa é das boas.
Solução de dois estados é provavelmente o livro com a sinopse mais curiosa que eu já li, já que o livro aborda diversos temas sempre em uma perspectiva multilateral (milícia, gordofobia, violência, drama familiar, relação entre arte e capitalismo, etc).
Em dezembro, quando foi listado como finalista do Prêmio Jabuti, eu vi do que se tratava e fiquei muito empolgado com a leitura, que no fim das contas se provou tão intrigante quanto imaginava. A estrutura do livro faz ele fluir super bem, mesmo tratando de temas predominantemente pesados através de personagens intragáveis, que foram perfeitos para tratar o tema de polarização.
"O ódio ajuda você, mas não é seu amigo. Ele faz você ficar viciada. Ele muda a identidade da pessoa. [...] Uma hora eu decidi lutar contra isso. Aprender a lidar com isso, pelo menos. Você chama isso de perdão? Eu não sei se chamo. Eu não sei o que é perdão de verdade, mas foi isso que eu consegui para a minha vida."
O centrismo é massacrado enquanto dois extremos se digladiam. (Um dos lados é, evidentemente, imperdoável pela violência e covardia. O outro, pode-se desprezar pela irrelevância e autocentrismo, mas, ao menos, vive e deixa viver, é um produto da civilização.) Triste e incômoda alegoria dos tempos em que foi escrito.
Não vou saber explicar o porquê, mas me lembrou o que senti lendo Um Copo de Cólera, uns 8 anos atrás. É um livro pesado, não só por falar sobre ódio, mas por retratar uma fatia enorme da quinta maior população do planeta (eu e você também). Vou lembrar desse livro pra sempre. Não tive como não dar cinco estrelas.
Retrato fiel que desnuda o Brasil contemporâneo. É um livro que incomoda e que provoca sensações completamente divergentes. Leitura curta mas intensa. Impressiona-me a capacidade do Laub de expor, através do embate entre dois irmãos e entre uma documentarista, o dualismo a que estamos fadados se persistirmos em manter o atual cenário político brasileiro. O livro traz à tona a polarização, não só política, que há em nossa sociedade. E não só isso: como estamos perdendo ao reduzirmos um debate minucioso a apenas dois pontos de vista antagônicos. E como é possível você se identificar, ao longo do livro, com cada um dos personagens. Esse livro diz muito sobre o país, mas também sobre nós mesmos.
Laub consegue criar a polarização não só nos personagens, como no próprio distanciamento feito pelos capítulos - cada personagem tem voz a partir da escuta de uma documentarista que faz entrevistas com Raquel e Alexandre, irmãos e rivais. Alexandre é uma mistura de bolsominion com crivella - a caricatura funciona bem no livro e explicita o que vemos hoje. No mais, boas provocações sobre arte (e seu mercado), prostituição, capitalismo, corrupção, luto.
"Sabe qual é o problema da ironia? É que ela serve para ganhar dinheiro, prestígio, o que você quiser, mas nunca vai servir para falar de ódio. O ódio é sempre literal"
“Solução de Dois Estados” é um livro sobre ódio irreconciliável. Dois irmãos estão guerra há 30 anos e a raiva continua fresca por um evento de violência recente - Raquel foi espancada em frente a uma plateia, supostamente a mando do irmão miliciano.
A estrutura do romance é interessante. Os 2 irmãos falam diretamente para o leitor, no que se revela depois ser uma série de entrevistas concedidas para uma documentarista alemã. Quando o livro abre, não sabemos que há essa interlocutora, então os personagens contam a história de seus ódios diretamente ao leitor. É uma posição muito desconfortável e mesmo desagradável. Quando a documentarista entra em cena, o leitor está ancorado à posição dela, ao de receptor da raiva. A documentarista Brenda torna-se ela mesma um alvo de raiva de ambos os irmãos, de forma que todo o romance é conduzido em constante animosidade, sempre em tensão, com os personagens no seu pior enquadramento.
A tendência a extrair o odioso, o repulsivo e o grotesco da realidade me lembrou os livros de Michel Houellebecq. Também há algo de Tropa de Elite em Alexandre, o anti-herói cínico com seu desdém por ongueiros e artistas. Nenhum personagem parece ter sido escrito para ser gostável ou para ser redimido. Mesmo a documentarista Brenda, cujo ponto de vista o leitor adota na maior parte do tempo, não se salva; o leitor sente a superioridade de Brenda, a alemã que se eleva acima daqueles sentimentos odiosos, e acaba condenando-se também pela sua arrogância, pela sua pretensão de bondade e aceitação das diferenças.
Há uma coloquialidade que soa um pouco forçada nas vozes dos irmãos Alexandre e Raquel. Em especial no caso de Alexandre, me parece que o pretenso homem de Jesus, evangélico, salvador de almas pela combinação esdrúxula da musculação com religião, teria o cuidado de não dar um depoimento nos termos usados pelo autor. A voz de Alexandre muitas vezes parece um pastiche do modo que o autor imagina que um miliciano se comunicaria. É uma pena, pois a história de família disfuncional tem muito das verdades que não se conta.
O livro é fácil de ler, pois navega pelas referências do Brasil atual; todo o horror de 2018 está lá. É, porém, bastante difícil de digerir. O projeto parece ter sido falar de ódio sem meias palavras, sem conciliação, sem poesia moderadora. É um livro bastante literal sobre ódio, ódio simples, sem redenção. Como brasileira no início de 2021, espero que em alguns anos o autor possa escrever um livro em que de fato se encontra uma solução de 2 estados para o cenário que ele traça do Brasil contemporâneo. Recomendo para quem gosta da modalidade de literatura “soco no estômago”.
Meu primeiro contato com a obra do Michel Laub, e não sei se já digeri essa leitura o suficiente pra deixar minhas impressões.. mas vamos lá!
O Michel usa a "solução de dois Estados", um projeto político-diplomático que sugere solucionar o conflito entre Israel e Palestina fazendo com que ambos coexistam pacificamente como Estados (criando um Estado palestino), como metáfora para a relação entre esses dois irmãos, marcada por desavenças aparentemente irreconciliáveis, como num plano de paz que nunca chega. Alexandre e Raquel se detestam desde sempre, e os desentendimentos da adolescência evoluem pra visões de mundo opostas e um ódio extremo que faz com que ambos vivam num loop infinito de troca de acusações. Já adultos e inimigos, e em meio a disputa de herança, Raquel sofre uma agressão em público, ganha visibilidade, e então surge a documentarista alemã Brenda, disposta a fazer do conflito entre os irmãos o capítulo brasileiro de seu "decálogo documental sobre intolerância” que já havia passado por outros países. Os capítulos aparecem como uma coletânea de passagens pra esse documentário, narradas pelos irmãos e intercaladas com “material pré-editado”, “material bruto”, intervenções da cineasta, entre outros "extras". É uma maneira interessante de construir a estrutura do livro e aclimatar o leitor.
Sobre o conteúdo, é óbvio e o próprio texto faz alusão a essa obviedade que a nossa conjuntura exige. É repetitivo, pra deixar escancarado o fato de que os personagens são motivados por aquele impasse vazio de mágoa e revanchismo, e precisam da manutenção do círculo vicioso pra viver. É um livro atualíssimo, que fala de violência, polarização, milícia, religião, gordofobia, charlatanismo de discurso motivacional, pornografia, obscurantismo, cultura do ódio, hipocrisia, manipulação de massas..
A gordofobia me deixou toda engatilhada (kkkkkcry) mas é um texto feito pra incomodar mesmo, assim como os personagens de cujas bocas o texto sai (Alexandre que o diga). Gostei bastante da leitura, e pretendo ler mais obras do Michel.
A articulação entre o ‘político’ e o ‘privado’ é o que propõe, de forma magistral, Michel Laub em seu livro ‘Solução de Dois Estados’. O autor explicita o ódio que há na sociedade brasileira a partir dos conflitos entre dois irmãos, trazendo para a esfera familiar discussões sobre os dilemas vivenciados pela sociedade brasileira durante os últimos trinta anos.
Em certa passagem, o autor escreve que “Na confluência entre os filmes e sua recepção no mundo concreto, são explorados os limites do que a sociedade é capaz de ver, de aceitar que está vendo, como num espelho que reflete nossos paradoxos estéticos e morais.” O livro reflete, como um espelho, a construção do discurso do ódio - e que o quanto esse discurso pode ser potente e mobilizar energias que estão latentes na sociedade.
O ódio é o fundamento de construção dos personagens do livro, como segue nessas passagens: “O ódio deles que é o meu ódio. Porque eu odeio a mim mesma como odeio o mundo e o mundo me odeia, uma coisa não tem como se separar da outra, e o que você acha que pode sair de bonito daí?” / “Você pode transformar a sua vida basicamente nisso, ódio de si mesma e prazer de ter ódio de si mesma. E então mais ódio por ter prazer de ter ódio de si mesma, até que com o tempo isso começa a mudar.” / “Existe uma diferença entre jogar alguém no inferno e construir esse inferno. Dedicar a vida a essa construção, fazer disso um patrimônio. Uma identidade. Ou então manter a ilusão, você acha que vai ajudar a pessoa. ” / “(…) com o ódio é diferente. O ódio é uma energia. Você se agarra ao ódio porque é o jeito de sobreviver.”
A reflexão que o livro propõe é: como sair desse ciclo de violência? De uma sociedade que se justifica com base na ‘transformação’ de um sentimento latente de impotância, egoísmo e apatia em raiva, morte e destruição - de corpos e de instituições?
A saída seria principalmente mediante a escuta do outro - ouvir, compreender as frustrações pessoais, as insatisfações do cotidiano. A empatia é o que nos faz humanos: “Por baixo do que elas falam eu sei que existe esse outro espaço. Um espaço que só diz respeito a elas e as pessoas que elas perderam, as coisas que elas perderam, os sentimentos que elas preferem manter para elas mesmas. É nesse espaço que elas sobrevivem como seres humanos, não nas opiniões delas sobre ódio e política. Você não acredita que esse espaço exista. Você nunca deixou que ele existisse em você mesma. Você nunca vai manter o seu sonho intacto, qualquer sonho que seja. O tempo todo você interfere no sonho trazendo o que está fora para dentro dele. Tornando tudo um mero discurso, uma bandeira. Um reflexo.”
O livro termina com uma análise sobre o quanto o discurso da democracia pode soar falso para alguns - e o quanto as pessoas se cansarem desta adaptação a um ‘contexto’ político que, no fim, não transforma a vida delas em algo digno. Como segue nas palavras finais: “Da minha parte, eu olho para essa humanidade e não quero me adaptar. Eu não quero ser uma humanista moderada e razoável. Não vou propor conciliação poética. Não vou perdoar ninguém. Não vou mudar o meu corpo, o jeito como penso, como digo isso e por isso acabo sempre no mesmo lugar. Eu vou continuar dizendo, de novo, e de novo e de novo e de novo, enquanto eu estiver aqui.”
Durante a narrativa, o autor expõe dois lados de uma história, duas visões de mundo contada por dois irmãos. Um deles é Alexandre, de corpo atlético e que acaba se tornando um líder e dono do Império, uma rede de academias com um viés de transformação não somente do corpo, mas também social e da alma, sustentado por um discurso de um pastor conhecido desde o início da formação deste Império. A outra é Raquel, irmã mais velha de Alexandre, que, diferente do irmão, puxou o corpo físico obeso do pai, sendo recriminada e oprimida desde os tempos de escola, quando era chamada de vaca mocha pelos colegas e nunca soube lidar bem com isso.
O autor desenvolve a história por meio de capítulos contados ora por Alexandre e ora por Raquel, e também por trechos de notícias sobre fatos ocorridos, distribuídos em partes como material bruto, material a inserir e material pré-editado. Tudo isso seria então compilado para a possível produção de um filme pela cineasta alemã Brenda Richter, que aparece como a entrevistadora dos irmãos.
Mas o que perturba na história é a forma dos relatos, o ódio enraizado, a impossibilidade de perdão, o orgulho ferido. Michel Laub constrói uma narrativa para desmistificar o óbvio, mostrar uma realidade escondida por um verniz, o lado que não se quer enxergar. Tudo isso derivado de uma reviravolta na vida desses irmãos após a morte do pai e a consequente perda de padrão financeiro tendo como razão principal os planos mirabolantes ocorridos aqui no Brasil que tomaram o dinheiro de muita gente e sua restituição que ficou muito aquém do esperado, como sempre…
Gostei do livro, mas fiquei um pouco incomodado com o excesso de ódio e teimosia que os personagens representam. Nem um nem outro consegue entender o lado oposto, embora ambos achem que compreendem muito bem. Mostra como podemos ficar cegos e surdos, ignorando o ponto de vista do outro e certos de que o nosso é o correto. Uma realidade nos dias de hoje… Então fica a pergunta, qual seria a solução destes dois estados? Existe uma solução para amenizar esses sentimentos humanos tão fortes e marcados por uma vida de revés como a desses dois irmãos?
Michel Laub expõe no livro uma questão fundamental: a impossibilidade de conciliação, que parte do plano relacional para o político, e dá com isso uma visão do futuro que opõe o poder totalitário à resistência (ou ódio) a ele, incapaz (ou incapacitada) de diálogo ou concessão.
Os irmãos Alexandre e Raquel, cada um a sua maneira, têm na manipulação do ódio a mola propulsora de suas carreiras e sua relevância. Alexandre usa esse ódio para propor cinicamente um mundo moldado aos seus interesses disfarçados de valores. Raquel não articula sei ódio em torno de uma proposta, parando na denúncia das mazelas pessoais. Alexandre, certamente, será muito mais efetivo na criação de um “novo mundo”.
No meio dos dois, a cineasta Brenda busca preservar os próprios sentimentos, curá-los mediante a busca pela narrativa de pessoas que sentem ódio, e articulá-las em seu documentário de uma forma timidamente propositiva, mas que passe uma mensagem de necessidade de preservação do ser humano dentro de cada um, para que o ódio não se torne a única dimensão das pessoas.
Após fazer o exercício em vários países divididos pelo ódio, encontra nos irmãos brasileiros um caso verdadeiramente desalentador.
"Quando uma pessoa morre leva junto essas coisas, os hábitos. As piadas. Os apelidos que você usa. As coisas que você aprendeu a sentir de um jeito. Essa pessoa morre e leva junto a sensação que você tinha quando estava com ela. Você está junto com a pessoa e ela é uma testemunha de coisas suas, traços que só existem por causa da pessoa. Traços bons, ruins, não importa. Generosidade, egoísmo. Coragem, medo. Amor, ciúme. Isso eu nunca mais tive depois do Sandro, não do jeito como ele fazia eu ter."
Esse foi o primeiro livro de Michel Laub que eu li. Não conhecia o autor e foi uma contente surpresa. O formato da narrativa, como um documentário, é muito bom, é diferente. Os personagens, Raquel e Alexandre, ao mesmo tempo que são pontos extremos no campo da política são muito parecidos às vezes. É um real retrato da polarização política que nos atinge com maior frequência, que entra nas nossas vidas e também nas nossas famílias, assim como na família do livro. Ao mesmo tempo que podemos gostar dos personagens também não gostamos, é uma dualidade constante presente na narrativa.
O livro é feito em formato de documentário. Conta basicamente a história de três personagens. A documentarista, uma mulher alemã que que carrega seus traumas e ja fez um número de documentários sobre conflitos. É ela que entrevista os personagens e durante a história ela acaba contando muito sobre a própria vida e por vários momento parece também entrar em conflitos com os personagens. Raquel é uma mulher gorda que é irmã do outro personagem, Alexandre. Raquel chama atenção da impressa ao se apresentar em evento em um hotel e durante a sua apresentação uma pessoa no palco se levanta e a espanca. Alexandre é uma pessoa que guarda muita mágoa da irmã por causa de vários motivos que vão aparecendo durante a história. É uma história bem interessante e criativa. É bem fácil de entender o ódio que os dois personagens sentem um do outro e o livro parece realmente fazer a gente entrar dentro dos debates dos três mesmo sendo difícil pra mim o lado do Alexandre que parece um Bolsonarista.
Polarização ou conciliação? Ódio motivador ou pacificação que serve ao status quo? Uma crítica complexa e carregada sobre machismo, gordofobia, homofobia e intolerância em geral na sociedade brasileira. Sobre a classe artística comprada e financiada por bancos, sobre as relações excusas entre grupos conservadores e instituições religiosas, sobre milícia e família, legado dos prejuízos econômicos do governo collor e etc e tal.
O encerramento do livro é um soco no estômago atrás do outro. A maneira como Michel Laub trabalha as personagens construindo-as pouco a pouco, montando o quebra cabeça da história lentamente, até tudo explodir numa discussão final cheia de ataques e contra-ataques, de reflexões ou pura revolta.
É um livro muito curto, mas muito denso, com uma história que a capítulo e depoimento vai se tornando mais difícil de se digerir.
A estrutura de material de documentário e a transição de pontos de vista, sempre com o acréscimo de novas informações, deixa o livro mais palatável, se é que se pode dizer isso. Mas ao mesmo tempo a constante repetição do "material bruto" causa uma leve canseira.
Acho o livro extremamente pertinente, principalmente os capítulos finais quando já sabemos de todo o panorama. Mas mesmo assim, senti que ficou faltando algo. E eu colocaria o "material extra n° 11" para ser o capítulo final do livro. Acho que encerra melhor.
Numa narrativa muito original, Michel Laub costura sua história através do ódio, ressentimento e cinismo de seus personagens. Um livro que aborda com perfeição alguns dos principais afetos que determinam os tempos que vivemos. O que Solução de Dois Estados nos revela é exatamente a complexidade das formas de vidas produzidas por um período tão conturbado. Os limites entre o público e privado nunca foram tão tênues. Difícil mesmo é não se afetar com esse livro.
Nas resenhas, alguém já estabeleceu um paralelo entre a obra e Um Copo de Cólera. Finalmente não me sinto mais órfã de Raduan Nassar, um dos meus autores preferidos. Não há solução. Sequer dois estados. Há uma brutalidade no equilíbrio entre honestidade e mesquinhez nas três vozes da narrativa: Raquel, Alexandre e Brenda. Eles falam, e só. Isso é o suficiente. Uma das melhores leituras do ano.
Um romance em looping. Ele pode ser devorado em 3 dias pois sua narrativa é dinâmica, mas no meu caso particular foi arrastada. Muita realidade amarga para tempos demasiadamente amargos. Não me fez bem.
a última vez que li uma obra em 24 horas, foi machado de assis com brás cubas. mas como qualquer bom documentário, você assiste em uma sentada só - esse não podia ser diferente.
Os extremos e seus discursos vazios, repetitivos, que parecem não abrir possibilidades de diálogo. Genial a forma da escrita. Eu fiquei imaginando as falas raivosas, irônicas, quase como gritadas de forma violenta.
Gênero literário completamente diferente do que estava habituado, porém, a perspectiva da narrativa é interessante e dinâmica. Não sou muito capaz a respeito da reflexão que o autor propõe, creio que ainda não estou preparado para absorver todo o conteúdo do livro.
Muitos comentários falam desse livro como um retrato do momento político brasileiro atual, mas acho que tem algo de mais profundo ou perene, um retrato do ódio e de formas como se manifesta como poucos.