Neste livro, Vladimir Safatle mostra como o pensamento e a clínica de Jacques Lacan importam para aqueles que querem pensar a política para além do jogo de forças entre instituições e domínios de representação. Examinando os quatro conceitos fundamentais da política para a psicanálise – a identificação, gozo, transferência e ato -, Safatle emprega a psicanálise como dispositivo crítico e prática transformativa contra a dominação conformista que a psicologia de cada época mobiliza como ideologia. Como a família conta em nosso processo de subjetivação, determinando horizontes de produção de autoridade? Como as formas religiosas se entranham em nossos processos de trabalho e produção de valor? Como nossas identidades tornam-se políticas no interior de sistemas de gestão de saber? Como pensar uma noção alternativa de liberdade considerando a experiência concreta de Lacan na organização de sua Escola de Psicanálise, de modo a sincronizar ato psicanalítico e processo revolucionário? Estas são perguntas crucias postas em circulação por este livro. Trabalho necessário tanto para entender como transformar a realidade de opressão, que enfrentamos hoje, quanto para fazê-lo em consideração ao desejo, no horizonte da subjetividade de nossa época.
Christian Dunker Psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP
como o próprio safatle coloca na conclusão do livro, em momentos, o texto dá a ver o esforço de escrever um livro introdutório sobre lacan, política e emancipação. evidentemente, dado o tamanho do desafio, não há de ser nada simples.
em que pesem as diversas imbricações, contradições dialéticas e complexidades próprias do assunto, o livro é uma excelente maneira de se aproximar dessas discussões. safatle também é muito generoso nas notas de rodapé, para quem desejar aprofundar em aspectos específicos da discussão de diversos dos leitores críticos de lacan.
de minha parte, é impossível que seja um livro de uma única leitura – mas, antes, um livro de consulta. há vários momentos brilhantes ao longo da leitura, em que safatle elucida todas as torções necessárias para pensar uma emancipação a partir de lacan. em particular, as discussões do último capítulo acerca da emancipação contra os estudantes de 68, foram exemplares.
ao final, minhas inquietações para aproximar rancière e lacan só aumentaram. me parece surpreendente que, até hoje, nenhum dos comentadores de rancière que li tenha mencionado esse estreito vínculo.