Único texto autobiográfico deixado por Patrícia Galvão, Autobiografia precoce é um relato emocionante sobre a vida de uma mulher forte, revolucionária e única.
Escrito em 1940, após uma das 23 vezes que Pagu sai da prisão, Autobiografia precoce fala sobre a militância política, os filhos, os relacionamentos e várias outras camadas da vida de uma das mulheres mais emblemáticas do Brasil.
O texto mostra Pagu sem subterfúgios, de forma sincera e corajosa. Do lado pessoal, ela relata sua iniciação sexual precoce e o conturbado casamento com Oswald de Andrade; da vida pública, ela conta sobre a militância no Partido Comunista e o desencanto com o regime soviético.
Patrícia Galvão quase sempre foi vista pela lente masculina: seja por seus relacionamentos ou por como sua arte se comparava à de homens da época. Em Autobiografia precoce, não existem intermediários: temos acesso a uma Pagu que escreve sobre si. Um livro essencial para se compreender uma das personagens mais intrigantes da história brasileira.
Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 — Santos, 12 de dezembro de 1962) foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante política brasileira. Teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana de Arte Moderna, tendo na época apenas doze anos de idade. Militante comunista, foi presa por motivações políticas.
A Autobiografia Precoce da Patrícia Galvão é um livro curtinho que poderia ser lido num domingo, mas levei semanas para lê-lo porque me impelia a fugir dele o máximo possível. Explico: quanto mais o lia, mais ficava indignada com toda a misoginia das pessoas ao redor de Pagu e por todo autoritarismo do Partido Comunista que teve que enfrentar. É MUITO desagradável ler esse livro, você passa as 150 páginas com um sentimento corrente de indignação e impotência que não te deixa. Mas fica como lembrete para a gente não tolerar misoginia intelectual e política de qualquer forma.
Plus: Tive uma gata chamada Pagu, morreu há 12 anos, Vesguinho e Nenezinha são netos dela.
Como conhecia pouco sobre Pagu e como foi incrível acompanhar sua trajetória, através de suas próprias palavras, sobretudo na luta pela revolução ao lado do Partido Comunista do Brasil. Que mulher única, eterna, cheia de coragem e força! Leitura indispensável, Pagu é pura inspiração!
Patrícia Galvão, a PAGU, nasceu em 1910. Ela foi uma das personagens mais famosas do século xx. Ativista política, intelectual, escritora, poetisa, diretora, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista, em 1933, publicou seu primeiro romance proletário brasileiro, PARQUE INDÚSTRIA. Além de sua vasta produção jornalística, é também autora de A FAMOSA REVISTA e dos contos policiais SAFRA MACABRA.
Pagu teve grande destaque no movimento modernista, iniciado em 1922, com a Semana de Arte Moderna, da qual Pagu não participou, uma vez que tinha apenas 12 anos de idade. Esse evento, com apoio do governo da cidade de São Paulo, trouxe diversas personalidades artísticas famosas, e em cada dia, foi trabalhado um aspecto cultural, como pintura, escultura, poesia, literatura e música.
De certa forma, as relações pessoais de Pagu, rodearam pessoas ligadas, direta ou indiretamente, à Semana de Arte Moderna. Seu apelido, Pagu, foi dado pelo poeta Raul Bopp, que participou do evento, e que era amigo de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Tarsila foi uma das principais pintoras do modernismo da América Latina e foi casada com Oswald de 1926 até 1929, quando este se separa de Tarsila e se casa com Pagu.
Pagu sempre foi uma mulher à frente de seu tempo. Seu comportamento era considerado extravagante e era defensora do feminismo. Fumava e bebia em público, usava roupas colantes e transparentes, cabelos curtos, manteve diversos relacionamentos amorosos e costumava falar palavrões. Seu comportamento rebelde e à frente do seu tempo não era compatível com sua origem familiar, conservadora e tradicional.
Em 1928, Pagu, com 18 anos, começa seu relacionamento, inicialmente secreto, com Oswald de Andrade, de 38 anos. Oswald foi um dos patrocinadores da Semana de Arte Moderna e era um dos maiores nomes do modernismo brasileiro. Seu lado pessoal era boêmio, mulherengo, dado a relacionamentos curtos e poligâmicos. Ele foi a maior paixão de Pagu. O casamento dos dois, aconteceu em 1930, com Pagu grávida de 6 meses, e foi um escândalo social.
Pagu era militante do Partido Comunista Brasileiro e junto com Oswald, fundaram o jornal O Homem do Povo, que durou até 1945. O relacionamento de Pagu com Oswald sempre foi conturbado, principalmente devido às constantes traições dele, que ele não se preocupava em esconder. Inclusive, por diversas vezes, até avisava com quem ia se encontrar. Em 1934, Pagu se separa, sai de casa com o filho e passa a morar sozinha.
Em 1931, aconteceu a primeira prisão política de Pagu, quando esta participava de uma greve de estivadores em Santos, estado de São Paulo, quando o Brasil estava sob a presidência de Getúlio Vargas. Após essa, vieram outras 22 prisões ao longo de sua vida. Já em 1940, Pagu rompe com o Partido Comunista e passa a defender o socialismo. É nesse mesmo ano que se casa com Geraldo Ferraz, com quem tem um filho e permanece até o fim de sua vida.
Em 1960, aos 50 anos de idade, Pagu é acometida por um câncer de pulmão. Tenta um cirurgia em Paris, mas sem qualquer resultado positivo. Sem poder trabalhar e manter sua vida ativa, desenvolve uma profunda depressão e tenta o suicídio, mas é impedida por Geraldo.
"Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas… Agora, saio de um túnel. Tenho várias cicatrizes, mas ESTOU VIVA… Apesar dos dez anos que abalaram meus nervos e minhas inquietações, transformando-me nesta rocha vincada de golpes e de amarguras, destroçada e machucada, mas irredutível."
PAGU – AUTOBIOGRAFIA PRECOCE é um texto escrito pela própria Pagu, em 1940, ou melhor, uma carta extensa que endereça a seu marido, Geraldo. A narrativa é em prosa, com frases quase poéticas, melancólicas, impregnadas de profundos sentimentos, hipnotizante, impossível não se envolver. É fácil perceber o tom de decepção e tristeza em diversas passagens, muitas delas quando Pagu se refere à vida que levou com Oswald, de quem não esconde seu amor, nunca correspondido. Já Geraldo, ela trata como sua salvação, o retorno do que não conseguiu com Oswald.
Pagu comenta, brevemente, várias passagens de sua vida, sua iniciação sexual, seus enlaces românticos, o envolvimento político, a solidão e brutalidade de suas prisões, a paixão pela escrita, pela arte, pela cultura em geral, seus dois filhos, suas viagens, sua repulsa pelo masculino e sua luta pelos direitos femininos. São relatos intimistas, cheios de significado, que exigem uma leitura apurada, para tentar compreender a totalidade do que Pagu queria transmitir a Geraldo.
Pagu, aos 15 anos, já colaborava com um jornal; aos 18 anos, se formou como professora; viajou como jornalista para os EUA, Argentina, França, União Soviética, China, Japão…; Fez cursos na Universidade Sorbonne, em Paris, a mesma de Simone de Beauvoir; foi amiga do imperador Pu-Yi e andou de bicicleta pelos corredores do palácio; Entrevistou Freud em um navio; casou-se com Oswald em um cemitério; foi a primeira mulher a ser presa no Brasil por motivos políticos; teve um filme produzido, em 1988, e uma peça de teatro, em 2019; Seu nome é letra de músicas de Rita Lee e Zélia Duncan.
"Nem toda feiticeira é corcunda Nem toda brasileira é bunda Meu peito não é de silicone Sou mais macho que muito homem Sou rainha do meu tanque Sou Pagu indignada no palanque…"
Pagu faleceu em 1962, em Santos, ao lado de seu marido, Geraldo, e seus dois filhos.
"À noite, Oswald chegava. E era muito bom coversar com ele até tarde. Comecei a ler. Nunca tinha podido ler e esse prazer novo era ainda um outro motivo de vida. E a criancinha que ia nascer." p.61
Patricia Galvão, antes do nascimento de Rudá em 1930.
Há não muito tempo, li Parque Industrial e gostei sinceramente. Apesar de um pouco caótico e desarticulado, tem algo muito orgânico e verdadeiro. Não foi o suficiente para dar conta da minha curiosidade por Pagu, a tal Pagu que eu cresci escutando pela voz da Rita Lee e que só depois de grande descobri que se tratava propriamente de uma pessoa — e não de qualquer uma.
Autobiografia Precoce foi escrita em 1940, o que me parece quase inacreditável. Primeiro, pela intensidade dos acontecimentos. Tanto do ponto de vista pessoal, quanto artístico e militante, é assombroso o quanto Pagu viu e viveu com tão pouco tempo de vida (no auge dos relatos ela tem 30 e poucos anos). A autora tem ainda uma voz que parece emanar de um tempo mais contemporâneo, o que talvez só prove como ela era fora da curva.
Me comoveu, de partida, sua forma de se expressar: suas memórias mais antigas, desde a perda da virgindade aos 12 anos, até seus fracassos sentimentais na casa dos 30, passando por tantas desventuras como revolucionária. Senti que ela consegue dar vazão, pelas palavras, da sua densidade emocional, e isso não é fácil de encontrar.
É possível entrar em contato com várias facetas de Pagu em tão poucas páginas: o ser sexual, a mãe, a militante, a musa, a mulher (apaixonada ou desiludida). E todas vão se mesclando. Quase na metade do livro acaba focando na sua biografia comunista. Por um lado, é até bonito ver como ela vai até praticamente às últimas consequências pela sua causa, por outro, parece um pouco que a política serviu como uma válvula de escape, que supria algo que era muito frágil e que não sustentava a Pagu em sua vida pessoal, cotidiana e ordinária. Muitas vezes ela soava ingênua, mas eu não gostaria de soar condescendente (mesmo provavelmente sendo), porque talvez uma dose de ingenuidade fosse necessário para dar conta do que ela escolheu viver.
E nesse ponto, a obra é ainda um retrato do movimento comunista do Brasil (e internacional) dos anos 1930. É interessante ver a hierarquia, os procedimentos, as relações miúdas e o machismo escancarado que não escapava à autora.
Acabei o livro admirando muito a mulher que Pagu foi e sinceramente desejando que ela fosse minha bisavó.
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Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, é uma figura icônica da literatura e do ativismo político brasileiro. Sua autobiografia precoce, "Paixão Pagu: A Autobiografia Precoce de Patrícia Galvão", revela uma vida marcada pela intensidade, tanto nas artes quanto na política. Este livro é uma obra essencial para quem deseja compreender as complexidades e os desafios enfrentados por uma mulher que ousou romper com as convenções de sua época.
A edição da autobiografia é particularmente louvável por sua cuidadosa curadoria, que inclui não apenas os textos da própria Pagu, mas também um contexto histórico que ilumina a relevância de sua obra e de sua vida. A qualidade editorial reflete um profundo respeito pela importância cultural e histórica de Pagu, oferecendo ao leitor uma experiência enriquecedora e informativa.
Pagu se destaca como uma figura multifacetada: poeta, escritora, jornalista, tradutora e militante política. Ela foi uma pioneira do movimento modernista brasileiro e uma das primeiras mulheres a se envolver ativamente no comunismo no Brasil, enfrentando perseguições e encarceramento por suas convicções. Sua vida, repleta de lutas e paixões, é narrada com uma franqueza e uma sensibilidade que tornam sua autobiografia um documento único, de valor inestimável.
A edição do livro é um tributo a Pagu, destacando sua relevância contínua e sua influência no cenário cultural brasileiro. É uma leitura obrigatória para aqueles interessados na história do Brasil, nos direitos das mulheres e na literatura de resistência. Pagu, com sua força e sua voz inconfundível, continua a inspirar gerações, e esta obra é uma celebração de seu legado.
Na escola, há muito tempo (hehe), eu lembro de ter estudado sobre a Pagu, como um dos nomes do movimento modernista no Brasil ao lado de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e outros. Mas não fazia a menor ideia de quem era Pagu de fato até ler a sua Autobiografia precoce. Como é uma autobiografia, temos acesso à própria voz dela, às suas angústias, aos desejos e caminhos percorridos. O que mais me chamou atenção foi o quanto ela construiu uma caminhada múltipla, em uma época onde a dupla "esposa/mãe" era o destino da maioria das mulheres da classe média. Lendo suas palavras percebemos que ela transborda qualquer tipo de classificação e vai em busca do desconhecido, daquilo que a mantém desperta na vida, na sua existência. O livro traz um recorte social e cultural do Brasil nos anos 30 e com isso nos abre a possibilidade de pensar o hoje. A questão inclusive do lugar da mulher na política é retratada da forma que foi sentida e nos traz reflexões importantes para pensar os avanços e retrocessos vistos atualmente. E entender o quanto ainda é um lugar frágil. Ao final da leitura, lembrei muito de uma frase de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Patrícia Galvão, Pagu, era essa mulher que sabia que estava fundando suas bases em outros territórios para ser de fato quem ela era. Para nós fica a inspiração de ter acesso à sua existência.
Avaliar autobiografia é um afazer complexo, para não dizer injusto. Quem sou eu para criticar o que alguém escreveu sobre si e sobre sua própria trajetória? Entendo que a ideia é enxergar a leitura como uma bela oportunidade para conhecer mais a fundo a figura que narra sua história. No caso, é mergulhar na vida de Pagu a partir da sua própria versão. Conhecê-la por ela mesma. E a de Patrícia Galvão não é qualquer autobiografia: trata-se das memórias (precoces, como se pode inferir do título) de uma mulher presa política do Brasil. Lembranças de sua vida sexual entrelaçadas com as lembranças de seu interesse pela política e de seu trabalho a frente do Partido Comunista. Narra suas dificuldades em permanecer no Partido, em lidar com a família e o trabalho pelo qual é apaixonada. É uma parte da história do nosso país.
"Sim, estou novamente nesse país, vivendo sem significação, passeando pelos acidentes esse meu corpo, que acho sinceramente desprezível, mas que tenho em grande conta, visto fazer dele o centro de tudo, mesmo do universo. Não vou falar do que vi nem do que fiz. Falo ainda deste corpo e da inquietação que ele carregava. Da insatisfação que ele gozava e alimentava. Apenas procurava, não sei o quê. Aliás, mesmo que eu quisesse relembrar os pormenores, não conseguiria. Tudo se mistura no barulho das guetas numa calçada, uma infinidade de luz e cor indefinível. Insensibilidade pelas pequenas coisas. Quase morte animal. Já não existia sensualidade. A ideia do sexo me repugnava. Queria locomoção e movimento. Queria chegar à meta das confirmações almejadas."
Patricia Galvão, Pagu, foi mãe, escritora, poeta, jornalista, militante e muito mais! Ela foi o que ela quis ser - e esse ano será a autora homenageada na Flip.
Esse livro é uma coletânea de cartas escritas por Pagu para Geraldo, seu segundo marido e pai de seu segundo filho. Nessas cartas ela relata momentos da sua vida pessoal - como o relacionamento com Oswald de Andrade - e também as alegrias e as dores que a atingiram durante a militância no Partido Comunista.
O livro tem um pouco mais de 150 páginas (ebook), mas é uma obra de importância histórica, já que é possível conhecer um pouco mais de Pagu, por Pagu.
Vale muito a leitura e, principalmente, vale muito conhecer Pagu. 😉
Uma viagem pela mente e sentimentos de Pagu. Nesse texto, ela mostra-se nua e crua, revela-se, expõe-se sem pudor, e com simplicidade. Sem hipocrisias, até mesmo rigorosa demais consigo mesma. O relato começa confuso, mas depois ancora-se na militância política e nas angústias da maternidade e do sexo. Essencial e complementar às informações da vida pública desta mulher que entrou para a história.
Eu li uma edição mais nova, uma meio pocket toda vermelha em capa dura. Fizeram um trabalho editorial muito bom que fica a altura da obra. Muito gostoso visitar os lugares e as histórias que a Pagu nos conta. Depois disso me deu é muita vontade de pegar os romances dela e ler logo. Muito bom, pena que sendo uma autobiografia precoce a gente não consegue saber os momentos depois de quando ela termina de escrever
Foi bom descobrir um pouco mais sobre Pagu, num relato a seu marido sobre seu passado bastante conturbado no cenário político brasileiro no século XX. É certo que eu esperava mais, queria mais, pensava que seria mais, mas valeu a leitura por trazer nas palavras alguns questionamentos.
De modo geral, uma leitura fluida. Contudo, o texto, em tom íntimo e confessional, dirigido a um terceiro interlocutor (Geraldo, marido da autora) não me empolgou, com a exceção de momentos em que aparecem figuras conhecidas como Oswald de Andrade, Luis Carlos Prestes e outros.
A vida de Patrícia Galvão narrada por ela mesma. Entre esperança e frustrações, uma descrição autobiográfica da vida de uma mulher intelectual e ativista política no Brasil dos anos 1930/40.
Não tem como não se apaixonar por esta mulher inovadora, ousada e original em presença e nas letras. Vale a pena ler esse livro e conhecer um pouco da alma desta mulher que foi única em seu tempo e que define padrões até os dias de hoje.