Nem sempre é possível ter acesso à construção de uma obra de arte. Poucas formas artísticas se prestam tão bem a essa análise retrospectiva quanto um filme e seu roteiro, principalmente se roteirista e diretor forem a mesma pessoa. Ao ler os roteiros finalizados de Kleber Mendonça Filho é possível identificar as decisões tomadas por ele como diretor, com as filmagens já em movimento, e compreender de forma muito mais elaborada o processo criativo de um dos principais cineastas da atualidade.
Se em O som ao redor vemos a diferença entre os começos do roteiro e do longa-metragem, no texto de Aquarius temos um final bastante diferente do que foi filmado, mostrando a vivacidade de uma arte que se molda à medida que se desenvolve. Já em Bacurau, as cenas de violência extrema ganham um novo contorno depois da leitura deste livro.
Formando uma trilogia ímpar para entender o Brasil, que se mostra cada vez mais simétrica com os acontecimentos reais, os três roteiros de Kleber Mendonça Filho são uma forma de encarar o país de frente, tanto na tela quanto nas páginas.
Os roteiros de KMF ajudam a entender o pensamento por trás das imagens do nosso mais importante cineasta dos anos 2010. Escrito por ele, o texto introdutório esclarece o seu ponto de vista sobre os filmes. Ao indicar o modo com as influências reverberam em seu trabalho, KMF aponta o caminho escolhido para a resolução de um problema colocado por ele próprio no início da carreira: como mediar o cinema autoral e fantástico (especialmente, americano) com a sua identidade brasileira. Além disso, fica evidente como o contexto histórico-político nacional durante as realizações contribuiu para a natureza das suas obras, sendo cada filme um retrato do estágio da crise onde o país se enfiava conforme a década avançava (2012-2016-2019).
Os textos, agora publicados em conjunto pela Companhia das Letras, em bela edição, também indicam as mudanças radicais durante as etapas do processo de produção fílmica. Há evoluções importante nos três casos. Fica claro como as circunstâncias de gravação energizaram a potência criativa do roteiro, dando-lhe identidade e espontaneidade. Ao participarem ativamente da criação, com a impressão de sotaque, personalidade, diálogo etc., os atores animaram os já vividos personagens do papel. Mais do que um escritor hábil, KMF se provou um diretor brilhante. Embora as histórias já estejam no texto, os leitores vão encontrar detalhes rústicos, com vestígios sobre a grandeza das obras finalizadas.
KMF quebra regras de manuais de escrita de roteiro, ao incluir indicações de direção de câmera, referências e elementos subjetivos às ações e descrições. Há, com isso, uma clara intenção de gerar no leitor uma expectativa climática. Esse é o fator criativo determinante do autor que já se prepara para dirigir o seu texto. A meu ver, também é uma provocação ao modo como muitos demandam certa neutralidade do roteiro, sem a presença tecnoestética da câmera e da montagem, ou seja, de sua energia cinematográfica. Ao contrário de produções que carecem de marcas autorais, os filmes de KMF não são histórias genéricas contadas por meio de “imagem e movimento”, são na verdade filmes-filmes, pensados única e exclusivamente para a ambiência audiovisual da sala de cinema. Isso já está claro desde o primeiro roteiro.
Kleber Mendonça Filho, diretor pernambucano cada vez mais renomado nacional e internacionalmente, resolveu fazer os sonhos dos cinéfilos leitores realidade e disponibilizar em formato físico os roteiros de seus três longas, sendo o último co-escrito e co-dirigido com Juliano Dornelles, que atuou como diretor de arte nos outros dois filmes.⠀ ⠀ Notar as mudanças na tradução página-tela foi uma das partes mais interessantes da leitura. Apesar de extremamente esclarecedoras do contexto da história, a exclusão de algumas cenas deram aos filmes a personalidade que hoje considero uma marca do diretor.⠀ ⠀ No caso de Aquarius, filme que vergonhosamente só assisti esse ano, pude ter a experiência de ler o roteiro antes de ter visto a obra final, o que foi tão proveitoso quanto ler o livro antes do filme. ⠀ ⠀ Essa foi uma leitura gostosa e bem rapidinha. Recomendo pra qualquer curioso ou estudioso de cinema e roteiro, e pra qualquer fã dos filmes de Kleber Mendonça Filho.
O Kléber é o nosso cinema atual, e mostra sua genialidade não só na direção, mas também no roteiro, que, sinceramente, nem precisa da gravação pra se mostrar extremamente impactante Eu fiquei lendo esses roteiros e pensando em que honra e que delícia você receber um desses como proposta de trabalho
Três roteiros. Três histórias. Uma obra de arte completa. Acompanhar a construção da narrativa de três filmes fenomenais é algo lindo de se experienciar. As fotografias dos bastidores, pôsteres dos filmes e introdução belíssima pelo próprio Kleber Mendonça Filho fazem esse livro ser uma preciosidade de se ter.
[insira aqui o tweet "25/08/2019 @Renatuxavozo: KLÉBER MENDONÇA FILHO ENTRE NA MINHA CASA E COMA O CU DE TODA A MINHA FAMÍLIA"]
Você já leu algum roteiro de um filme ou série? É bem comum as editoras lançarem as vezes roteiros de grandes filmes como objeto de análise. Além de ser um presentão para os fãs, eles sempre trazem bastante material extra. No livro TRÊS ROTEIROS, teremos o texto integral que deu vida a três grandes filmes nacionais: O SOM AO REDOR, AQUARIUS e BACURAU. Todos dirigidos por um dos melhores diretores brasileiros de todos os tempos, Kleber Mendonça Filho. Chega mais que a leitura ta imperdível!
Como dito acima, o livro traz o texto original, sem edições ou revisões. Eles não são idênticos aos filmes, já que durante as filmagens, é comum o improviso falar mais alto. Para quem é fã dos filmes e do diretor, esse livro caiu dos céus, pois aqui temos acesso a uma imersão sensacional sobre as origens de cada roteiro presente no livro, além é claro de informações de bastidores extremamente interessantes. No início ainda temos uma introdução riquíssima sobre a estrutura simples de um roteiro e como ele se comporta durante as filmagens de um longa.
O primeiro roteiro abordado é do filme O SOM AO REDOR, drama lançado em 2012, premiado tanto no Brasil como internacionalmente. Ele segue um pequeno bairro de classe média no Recife, onde a frágil paz começa a ser quebrada com a crescente onda de crimes. A chegada de uma equipe de vigilância particular promete resolver todos os problemas, mas eles acabam não recebendo apoio de toda a vizinhança. O roteiro segue a estrutura de pequenas esquetes e personagens isolados, já que estamos tratando de um condomínio não muito grande, temos diversos personagens e vidas distintas. Cada uma delas tem uma particularidade e recebemos um interessante aprofundamento de diversos tipos de vidas. Extremamente bem feito e com um comentário social importante, o roteiro foi quase que seguido à risca, palavra por palavra e na leitura é possível sentir toda a essência do filme. Cheio de atuações excelentes, além é claro de ser um primor visual. O filme está disponível na Netflix, merece uma conferida.
O segundo roteiro é de um filme mais conhecido, AQUARIUS é estrelado por Sônia Braga, uma das maiores atrizes do Brasil. Foi lançado em 2016 e aborda a batalha de uma mulher que outrora morava num condomínio residencial comum, que agora está totalmente vazio. Todos os apartamentos foram vendidos para uma imobiliária. Clara é a única que se recusa a vender seu lar. Esse impasse trava todos os planos dos empresários ricos que querem demolir o condomínio para construir um gigante prédio. Logo Clara começa a ser assediada e precisará se impor se quiser ter o respeito que merece, até porque ela está em casa, os outros é que são os intrusos. Mais um filme com um comentário social fortíssimo que conversa demais com a situação do Brasil que estamos vivendo.
Comandado por Sônia Braga num desempenho surreal, o filme também foi muito premiado nacional e internacionalmente. Ler o roteiro é como ver o filme sem ligar a tv, os diálogos são idênticos e tudo é tão bem pensado que chega a dar um forte orgulho de saber que esse texto é nosso, tem a nossa identidade e fala dos nossos problemas. Mais uma fortíssima prova contra o argumento burro de que o nosso cinema está morto. O roteiro ainda traz um final um pouco diferente como curiosidade. Um roteiro que passa voando, uma leitura absolutamente deliciosa, outro filmaço que também está disponível na Netflix.
E encerrando o livro temos o roteiro do já lendário BACURAU. A joia nacional que saiu em 2019 marcou para sempre a história do cinema nacional. É até difícil encaixar BACURAU em apenas uma caixinha de gênero, mas basicamente o filme acompanha um humilde vilarejo do nordeste brasileiro que do nada saiu do mapa, literalmente, o local ficou do nada sem sinal de rede e sem presença em mapas. Além disso tudo, começam a acontecer estranhos ataques externos que visam levar o desespero para os moradores daquela área, mas é exatamente o contrário que acontece, todos se unem para resolver esse problema e lutar pela sua sobrevivência.
BACURAU é o tipo de filme que quando menos se sabe, melhor. Descobrir essa história é a melhor parte da jornada. Perfeito em absolutamente todos os aspectos, o filme imagina um futuro com os mesmos problemas que vivemos hoje em dia, só que aumentados. Com o sentimento de resistência também no seu auge. Um roteiro soberbo de tão bom, em que cada linha de diálogo e descrições é uma preciosidade. Para quem for fã doido do filme, como eu, a leitura se torna ainda mais incrível quando percebemos que aquela cena que no texto já era incrível, teve uma linha belíssima de improviso que só melhorou tudo. Isso acontece diversas veze e é uma melhor que a outra. Um filme sem igual, mistura de faroeste, com drama, com aventura e carnificina. Esse aqui está disponível no Telecine Play.
No final nós temos uma sensacional seleção de roteiros poderosíssimos. Que além disso tudo, ainda possui um riquíssimo arquivo de imagens de bastidores. É uma leitura tão viciante que é possível ler tudo de uma vez só, falo por experiência própria. Fãs do diretor, amantes do cinema ou interessados em saber como é a estrutura de um roteiro, nada melhor do que ter esse livro sensacional em mãos.