A fábula de Giges, presente no segundo livro da República de Platão, na qual um camponês encontra um anel capaz de lhe conceder o poder da invisibilidade, é o tema do mais novo livro de Eduardo Giannetti.
Em uma análise do experimento mental de se viver sem impedimentos ou censura social, O anel de Giges nos convida a pensar a natureza de nosso comportamento para além de leis e amarras morais. Para tal, Giannetti examina os ideais de plenitude e felicidade das tradições filosóficas ocidentais e como as diferentes escolas de pensamento ético -- de Platão ao cristianismo, de Kant ao utilitarismo -- reagiriam diante do desafio do anel.
Neste livro, o autor de Autoengano volta a encorajar o leitor a desconfiar de si mesmo e se questionar sobre suas atitudes enquanto espectador de sua própria vida em circunstâncias inusuais: o que você faria se o anel chegasse às suas mãos?
Nasceu em Belo Horizonte, em 1957. Formou-se em economia e ciências sociais na USP e obteve o PhD na Universidade de Cambridge. Já recebeu dois prêmios Jabuti, por Vícios privados, benefícios públicos? e As partes e o todo.
Gianetti transformou a fábula de Giges (camponês, no melhor estilo Frodo Baggins, encontra um anel que lhe concede o poder da invisibilidade) num compêndio de 300 páginas, onde discorre sobre os dilemas morais de se viver sem impedimentos ou censuras sociais.
Dito isso, aqui vemos um Gianetti mais erudito, mais preocupado em desfilar seu vasto repertório filosófico, caindo até mesmo em estudos / experimentos recentes de economistas comportamentais sobre honestidade. Por isso, o livro alterna momentos menos palatáveis que exigem um alto nível de esforço mental, com momentos mais, podemos dizer, pop.
A grande surpresa do livro está no chamado Postscriptum, onde o autor transcreve um suposto diálogo com uma amiga que faz uma revisão inicial do livro e o desafia a se colocar no lugar do Giges; o que você faria em posse do anel? Conforme suas palavras, o autor ameaça, toda, roda, vai pra lá e pra cá, mas na hora H se recusa a assumir o ônus de dizer com coragem o que ele mesmo pensaria, sentiria e acreditaria.
Aí, na sequência, o autor faz quase tudo isso de novo, mas usando o subterfúgio de falar o que faria em diferentes fases da vida em posse do anel. No fim, um bom incentivo à reflexão...
O livro é bem mais acadêmico do que imaginava, o final surpreende, mas a constante repetição da tese faz o livro muito mais uma revisão bibliográfica de fontes notáveis do que uma "fantasia" como o título pretende. Isso dito, a ideia da união entre o "bem e o bom" como o centro das doutrinas cristã e platônica me parece nova e bastante relevante inclusive quando se sai do livro para a realidade—como leitor-arquiteto me ví em alguns momentos parando o livro e calculando as várias definições do Bem e do Bom em meu campo.
O anel de Gige é um livro de leitura não muito fácil, com vários conceitos filosóficos, mas que nos leva a pensar sobre a ética, sobre o certo e errado. A bem da verdade é, se você pudesse usar um anel que o tornasse invisível, o que faria? E durante todo o livro seremos levados a pensar nisso, a correlacionar com o que vemos no dia a dia, na mídia, etc. Gostei da proposta, apesar de enteder que a escrita poderia ser menos teórica, sem muitos rodeios.
Analisando a fábula de Giges ao longo de diferentes visões filosóficas ao longo da história, Giannetti nos oferece interessantes insights sobre a moralidade humana. A maior surpresa do livro, no entanto, é a descrição íntima das decisões e consequências pessoais caso o autor fosse o portador do anel.
O livro parte do pressuposto platônico da existência de um anel da invisibilidade e a partir daí analisa como reagiriam nessa situação os grupos religiosos, políticos e filosóficos, bem como o grupo das pessoas "comuns", fazendo vários apontamentos sobre isso. Especialmente no final, o autor é muito honesto, foge da hipocrisia e dá vontade de ser amiga dele.
É um ótimo livro com várias reflexões interessantes. O problema é que é um pouco denso e escrito de uma forma rebuscada demais em alguns momentos. Porém a análise sobre o anel de giges e o senso moral torna uma boa leitura.
Análise da Fábula de Giges por diferentes visões filosóficas, a ética e a moralidade humana. Como seria nosso comportamento se estivemos acima das leis e amarras morais?