Já tinha lido A Manopla De Karasthan na minha adolescência; na altura, andava na Escola Alemã, onde andou também o autor, Filipe Faria, e alguns professores que se lembravam dele recomendaram os livros. Uma conhecida minha emprestou-mos, e lembro-me de ter gostado imenso. Como eram emprestados, acabei por nunca ler a série até ao fim, e sempre tive curiosidade para ver se ao reler o livro agora que sou mais velha e bastante mais literada, essa boa opinião se mantinha, e se valeria a pena ler então a série até ao fim. Não estou tão entusiasmada como estava na altura, tenho de admitir, mas acho que vou continuar! Diria que lhe dava três estrelas e meia.
A crítica mais comum a este livro é a acusação de falta de originalidade quando comparado com outras obras de fantasia. A verdade é que não senti isso, pessoalmente; pelo contrário, achei que as personagens até tinham traços bastante originais. Gostei principalmente do facto de nos serem apresentadas raças distintas, umas boas e outras más, como é típico na fantasia, mas ao conhecermos melhor certos elementos das ditas raças más, virmos a descobrir que afinal são personagens bem mais complexas do que seria de esperar. O grande problema é que o autor leva quase metade do livro para deixar isso transparecer... As primeiras 200 páginas fizeram-me lembrar um video-jogo: não havia desenvolvimento de personagens absolutamente nenhum, os novos elementos do grupo eram apresentados e depois a cada passo que davam aparecia um ou outro obstáculo (fosse na forma de um inimigo, ou de alguma criatura) que os "companheiros" tinham de derrotar. Felizmente isso vai melhorando à medida que o livro se aproxima do fim, mas caramba... Tantas descrições de lutas e escaramuças! Bem escritas, sem dúvida, mas quando não há mais nada para quebrar esse ritmo, torna-se repetitivo e mesmo desinteressante. Eu que normalmente devoro este género de livros em três tempos levei bem mais que o normal para o acabar, em grande parte por causa desse início. Como disse, é um aspecto que melhora a olhos vistos.
Outra coisa que me distraiu imenso foram os erros gramaticais que iam aparecendo aqui e ali. Erros em que até eu reparei, o que os torna imperdoáveis, porque estou longe de ser uma perita na língua portuguesa. Como disse, andei na Escola Alemã, tal como o autor, e sei muito bem o que vários anos de falar uma misturada de línguas faz à cabeça e à gramática de uma pessoa, por isso não o censuro, de todo. Agora, o livro passou por um editor, ou não? Qualquer escritor se pode enganar, acredito que aconteça aos melhores, mas já não há revisão? "Planejar" em vez de "planear"? "Sobre o olhar" em vez de "sob o olhar"? "À bocado" em vez de "há bocado"? E que raio de verbo é "abaixar"?? Já não é a primeira vez que dou com erros crassos num livro, e o que me faz mais confusão até nem é o erro dos escritores, mas juro que gostava de saber o que raio fazem os editores deste país, para além de roubarem uns 90% da receita dos nossos autores.
No entanto, o livro continua a valer a pena, e tenho a sensação que as coisas ainda vão melhorar com o próximo. Mas que tem os seus problemas, tem, não há como negá-lo.