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456 pages, Paperback
Published October 1, 2020
Mamãe vestida de rendas/ tocava piano no caos. (Murilo Mendes)
Na noite sem lua perdi o chapéu. (Drummond)
Em 1967, Antônio Carlos de Brito lança ‘A palavra cerzida’, um livro ainda muito tímido e dentro dos padrões literários do momento.
[…] ouvi de Cacaso que a poesia não estava dando pé. Ninguém lia, ninguém gostava e, reconhecia, o que se estava escrevendo não era, de fato, de se gostar ou ler.
O livro nunca foi lido, nunca foi comprado por ninguém. […] E eu fiquei depois disso uns sete anos [sic] sem conseguir escrever [poemas], porque foi uma coisa tão inexistente na minha vida, a publicação do livro, que eu tinha a sensação de ser editado e não ser.
A tarde é uma mulher
de queixo incandescente.
Os olhos dos cavaleiros
são gêmeos do absoluto.
O demônio vem na brisa
mas não julgo: só contemplo.
Grandes poderes eólios
acima do bem e do mal.
Quem raptou Constância?
Quem vorazmente comunga
em seu pescoço andrógino?
Meu equilíbrio rompe no cio.
A tarde que vejo é severa
como um crânio golpeado.
Retomo da natureza
esta branca nostalgia.
Viajo pela matéria
de braços com satanás:
Ó anjo anunciador, levai-me ao passado
onde desmancharei a vida futura,
onde serei sinistro como
o coito
dos girassóis.
Tomou muita cachaça
Ficou lúcido
Quis se matar
Unidos
Perderemos
Num tá fácil, malandro,
A natureza tá ficando desarvorada
Já que estava à toa resolvi fazer um poema
Agora faço pra ficar à toa
O poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão deste universo.
Como será o amor das pessoas rudes?
O poeta não se conforma de não conhecer
todas as formas da delicadeza.
Se o porco é espinho
caço e asso
se o corpo é sozinho
traço e passo
De noite sou amante da empregada.
De dia sou patrão da amante.
A cidade acampou na beira do circo.
O circo está de passagem.