As histórias narradas neste livro decorrem em Galveias, uma aldeia do Alto Alentejo, perto de Ponte de Sor, nos meses de janeiro e de setembro de 1984, que é também a localidade de onde José Luís Peixoto é natural.
O livro começa com a queda e com a consequente explosão em Galveias de um "corpo celeste" que, após ter atravessado a atmosfera, provoca uma cratera no solo e um forte odor a enxofre que impregna o ar, o sabor dos alimentos e até o cheiro dos próprios habitantes, os quais, só no final da narrativa, se apercebem que possuem este mesmo odor, em consequência do nascimento de uma bebé que não cheirava a enxofre.
No livro são contadas as vidas de várias personagens, pessoas simples, humildes, de todas as idades (crianças, jovens, adultos e idosos), com variadas profissões, desde agricultores, taberneiros, comerciantes, mecânicos, empregadas domésticas, padres, feitores, professora primária, padeiras e simultaneamente prostitutas, carteiro, médico, etc., bem como as relações que estabelecem entre si.
Tocam-se temas como o analfabetismo, o alcoolismo, a solidão, o adultério, a velhice, as incapacidades físicas e mentais, os preconceitos, a pobreza, a amizade, o amor nas suas diversas formas, os fortes laços familiares, os divertimentos (casamentos, bailes, corridas de motos, etc.), os ódios, as vinganças, o namoro, o casamento, a religião, as relações de poder de uma sociedade estratificada (o proprietário e o trabalhador das terras, o feitor, o cabo da polícia, o padre e a professora primária).
Foi agradável para mim recordar a vida numa aldeia no início dos anos 80, pois em 1984 tinha onze anos e vivia também numa aldeia, não do Alentejo, mas a 6 Km da cidade de Coimbra, em que ficava na rua até tarde a brincar com outras crianças, em que poucas pessoas tinham televisão a cores, carro ou telefone, em que o transporte de muitas pessoas eram as motorizadas, os meus avós não sabiam ler nem escrever, os meus pais apenas tinham a antiga quarta classe, eu era por todos conhecida como a neta da "Ti Maria Amaro" e do "Ti Tónio Lucas", onde no mês de agosto havia uma festa religiosa e pagã com procissão, carroceis, bailes, carne assada, arroz doce e onde revíamos os nossos familiares emigrantes em França e na Suiça. Era um mundo tão diferente de hoje; passaram trinta anos, mas parece que passaram mais de cem anos, com as transformações que, para o bem e para o mal, ocorreram durante este período.
É um livro que me trouxe alguma melancolia do passado, que é muito fiel à realidade, mas que não achei brilhante, nem que me vai ficar na memória, pois é uma daquelas obras que, por algum motivo, demorei algum tempo a ler e que não me conseguiu prender à leitura.