O aviso do doido não adiantou: a cidade logo seria inundada pelas águas da hidrelétrica e sua evacuação era inevitável. A construção de outra cidade, espelho da primeira – incompleto ainda que fiel –, obriga os cidadãos a se mudarem, inconsoláveis. Somente o velho decide ficar. A partir daí, José Rezende Jr. desenrola a narrativa de A cidade inexistente, história que surpreende pelas direções que toma, pela maneira singular de explorar lugares-comuns da existência humana. É com assombrosa habilidade que o autor costura as pontas do enredo num jogo de espelhos entre real e surreal, original e cópia, memória e invenção, individual e coletivo, construindo uma obra sólida e tocante.
Um conto que não é um conto, sobre uma cidade que não existe existindo. O brilho do calor solar como um personagem que reforça a seca estridente ao mesmo tempo que a água está engolindo e regurgitando tudo. O livro possui capítulos inebriantes banhadas pelo sol e pela água, e pela miséria e dor, e pelo abandono e liberdade. O livro de contos existe não existindo, a ideia de um livro de contos é quebrada pela continuidade do romance em contos, uma corda destrançada levada para diferentes direções que vão se encontrando no caminho, desaguando nas mesmas águas do fio trançado no incidente. A cidade inexistente aborda problemas sociais trazendo reflexões existências dentro de uma linguagem fantástica que pouco se importa em se explicar, o que torna a leitura tão fluida ainda mais mágica.