Ler Espinosa através de Negri me fez perceber o quanto que ainda faltava ler Espinosa, inclusive no que já li dele.
É importante se preparar antes desse livro de duas maneiras e por dois motivos. A primeira maneira é lendo Tratado da Emenda do Intelecto, Ética, Tratado teológico-político e Tratado político. A segunda é tendo anotações dessas obras. Os dois motivos são o quão denso e profundo é o exercício de Negri; e que você vai perceber que é impossível encerrar Espinosa, seja lá como for. Seja através das obras (inclusive as incompletas), correspondências, críticos... seja através de Marilena Chauí, Deleuze (indispensável ler suas duas obras sobre Espinosa em paralelo) e do próprio Negri.
Negri apresenta a tese dos dois Espinosa, ambos presentes durante a redação de Ética. Um, encerra e enterra o cartesianismo e o platonismo através de uma metafísica materialista, uma metafísica imanente, anti-transcendental, palpável e fenomenológica, do real. O segundo é antagonizando Hobbes, Rousseau, a ideologia burguesa, fundando o materialismo moderno e cravando: a crise não é o futuro, ela está no núcleo do cruzamento entre história e ética. Ambos povoam a desutopia (não uma distopia), aniquilando o transcendentalismo que Nietzsche chamaria de ressentimento, e dizendo com todas as palavras: o ser humano soma suas potências individuais quando está organizado em multidão, dando origem à grandiosidade imparável que P R E C I S A ser livre.
Não há infinito a não ser na imanência de que fazemos parte. Somos finitos, singulares dos modos dos atributos da substância divina (Natureza que pode, sim, se chamar Deus, mas Deus é tanto carne quanto metafísica essencial, jamais identidade removida), e a tensão da matéria e do pensamento flui através de nossa existência, a única capaz de se reestruturar através da razão (não ao sermos mais ou menos ou diferentes de humanos, mas finalmente sendo plenamente humanos).
Espinosa está mais presente em Marx e Engels que normalmente se imagina - e decididamente precisa retornar às nossas discussões. Algumas correntes anarquistas sabem disso, ainda que não deem nome a todos os bois (Öcalan faz isso!).
Sei que é um livro denso, mas é um livro profundamente necessário.