Hélia Correia nasceu em Lisboa. Licenciada em Filologia Românica, foi professora do ensino secundário. Poetisa e dramaturga, foi enquanto ficcionista que Hélia Correia se revelou como um dos nomes mais importantes e originais surgidos durante a década de 80, ao publicar, em 1981, O Separar das Águas. Seguiram-se romances como Montedemo, Insânia, A Casa Eterna (Prémio Máxima de Literatura, 2000), Lillias Fraser (Prémio de Ficção do PEN Clube, 2001, e Prémio D. Dinis, 2002), Bastardia (Prémio Máxima de Literatura, 2006), e Adoecer (Prémio da Fundação Inês de Castro, 2010). Na poesia, tem uma vasta colaboração em antologias e jornais e publicou obras como A Pequena Morte/Esse Eterno Canto (em díptico com Jaime Rocha) e Apodera-te de Mim. A sua escrita para teatro tem privilegiado os clássicos gregos. Destaca-se Perdição — Exercício sobre Antígona, O Rancor — Exercício sobre Helena, e Desmesura — Exercício com Medeia. Para a infância, salienta-se os livros da colecção Mopsos, o Pequeno Grego: O Ouro de Delfos e A Coroa de Olímpia. Destaque também para as suas versões das obras de Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão — Versão Infantil e A Ilha Encantada — Versão para Jovens de A Tempestade.
HÉLIA CORREIA nasceu em Fevereiro de 1949, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético. Na sua ficção, conflui o reatar de uma herança literária que impõe certa linearidade à escrita romanesca com a assimilação de traços da narrativa contemporânea que vão de um García Márquez ou Carpentier até à novelística de Agustina Bessa-Luís, numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional. Estreou-se na poesia, em 1981, com O Separar das Águas e O Número dos Vivos em 1982. A novela Montedemo, encenada pelo grupo O Bando, deu à autora uma certa notoriedade. Aliás, Hélia Correia revelou, desde cedo, o gosto pelo teatro e pela Grécia clássica, o que a levou a representar em Édipo Rei e a escrever Perdição, levadas à cena, em 1993, pela Comuna. Escreveu também Florbela, em 1991, que viria a ser encenada pelo grupo Maizum. Destacam-se ainda na sua produção os romances Casa Eterna e Soma, e, na poesia, A Pequena Morte/Esse Eterno Conto. Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra Lillias Fraser, e em 2006 o Prémio Máxima de Literatura, pela obra Bastardia.
(...) E ela quer saber exactamente onde está o poema, quer tocar no nervo do poema, sem que exista frieza ou impiedade, sem que exista golpe de bisturi. Porque é um toque de delicadeza, a materna leveza que há nos dedos de quem levanta uma raiz, tremendo com tudo o que ali há de irreparável, de precioso, de finito, como o verso, com tudo o que ali há de desumano, enquanto algo de fino, de espantoso na sua vibração, atinge o peito e deixa as criaturas que nós somos sob o encantamento do que ignoram."
"Eu certamente acabaria por arder se ficasse mais tempo enovelada no banco da janela, certamente os meus limites individuais acabariam por esbater-se, como é justo acontecer no amor e em nada mais do vulgarmente humano.
Como no amor, de facto, algo de bruto e de invasivo, algo que está longe de dar as boas-vindas.
Parece mas não é uma cidade. Parecemos mas não somos os seus hóspedes. Pode ouvir-se o trabalho das aranhas como não se ouve em mais lugar algum, e, no entanto, não nos prevenimos, viciados como estamos, embalados pelo desfile da noite, pelas máscaras da noite, tudo o que dança com os turistas rua acima, fingindo explicar tudo, simulando o gosto da catástrofe ali mesmo onde a velha catástrofe perdura.
É realmente necessário um esforço que rebente as cadeias que nos traga para a superfície da respiração, é necessário que juntemos todos os pedaços do corpo e, como no amor, nos arranquemos, a muito custo, dos lugares do perigo, a minutos de ardermos, a minutos de o turno da manhã levar as cinzas."
Quarto em Edimburgo Hélia Correia
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O poema que destaco não é exemplo disso, mas as inúmeras referências à Antiguidade Clássica deram-me a impressão de estar a ler poesia grega, poesia que poderia ter sido encontrada (como se fossem vestígios arqueológicos) no livro "A Grécia de que falas..." (a antologia de poetas gregos modernos, com versões de Manuel Resende, editado pela Língua Morta). Belíssimo.
Sublime! O meu primeiro mergulho na autora e, sem dúvida, memorável. Um murro no estômago carregado de beleza e um arrepio na cervical cheio de amor pelo que se faz. Uma das poesias mais bonitas que li.
O estilo de escrita livre juntamente pela meiguice com que Hélia trata as palavras, a meu ver, destacam-na entre os demais.
“Oh, que estranho é pensar que elas tiveram, Até, reis como servos, as palavras, Pensar que elas passavam pelos séculos com o seu corpo musical, tão frágil É tão convocador de tempestades. Essas pequenas criaturas transparentes, sem peso, com alguma vocação para a malignidade, pois não têm nem sombra nem reflexo, e dos seus dedos desce a grande beleza do terrível e a grande redenção que há no poema”
Os primeiros poemas constituem reflexões sobre temas atuais, não “acidentais”, mas, antes, consequências de decisões humanas, como a guerra e a supremacia. Os últimos oito poemas são o testamento de Hélia Correia, que dedica cada poema a uma pessoa diferente.
“como crianças, vemos os detalhes sem suspeitarmos do que neles se oculta, e assim voamos pelas altas galerias de uma história fantasiosa, de uma história de justiça, tão desejável que a tomamos por real”.
Mas entregai uma qualquer palavra, dessas que tanto desprezais, ao meu cuidado. Uma palavra, por exemplo, sobre a qual ninguém se incline já porque a confunde com uma pedra do caminho ou um excremento, tão insignificante se tornou. Oh, que estranho é pensar que elas tiveram, até, reis como servos, as palavras. Pensar que elas passavam pelos séculos com o seu corpo musical, tão frágil e tão convocador de tempestades. Essas pequenas criaturas transparentes, sem peso, com alguma vocação para a malignidade, pois não têm nem sombra nem reflexo, e dos seus dedos desce a grande beleza do terrível e a grande redenção que há no poema.
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"Um longo trato com a poesia tornou-nos viciados em metáforas. É tentador pensar em lobos: não são lobos." O estilo da Hélia Correia é cativante e fácil de ler. Tem vários conjuntos de poemas belíssimos e que nos deixam a pensar nas coisas boas da vida, e nas menos boas, como o papel e impacto dos humanos no mundo em "Mestres". Só não sou dos poemas no imaginário da Grécia Antiga - no geral, não só neste livro.
Quem diria que seria num livro de poesia que ia encontrar a reflexão política mais inquietante e provável: uma época termina porque não soube equilibrar as forças da palavra, da lei, da razão com as forças silenciosas que atravessam a carne, reflectidas em milhões de indivíduos emboscados, cercados pelas primeiras, forças essas ironicamente representadas por este vírus. Uma espécie de Id colectivo que foi excessivamente ignorado, digo eu. Uma ilusão de pureza e maestria quebra-se.
《Eu certamente acabaria por arder Se ficasse mais tempo enovelada No banco da janela, Os meus limites individuais Acabariam por esbater-se, Como é justo acontecer no amor E em nada mais Do vulgarmente humano》
Poesia com um estilo próprio embora não muito marcado ou saliente, sóbrio, sem rimas nem as formalidades da poesia moderna ou antiga, mas no conteúdo notam-se os vestígios (já conhecidos) de um gosto pelo teatro, pela poesia clássica, pela Grécia antiga, as mitologias e as religiosidades.
Em "Acidentes", um título que talvez espelhe a diversidade do conjunto de poemas que compõe o livro, a autora fala também sobre as relações humanas e os problemas atuais. Como no poema 'Mestres':
"Domesticámos tudo, isto é, trouxemos tudo para casa e a todos aplicámos as nossas leis..."
Os Mestres somos nós, seres humanos que desvendaram os "enigmas da célula e do sol", a quem "só nos intriga não sermos imortais".
"Como não hão-de vergar-se... as criaturas e as não criaturas, como não haviam de tomar-nos por seus Mestres?"
E, por fim, surge por várias vezes a metafísica da poética, o pensar na poesia através da poesia, neste conjunto de poemas:
"Ela quer saber exatamente onde está o poema quer tocar no nervo do poema, sem que exista"
Ou,
"um longo trato com a poesia tornou-nos viciados em metáforas."
A autora fala em todos estes temas sem ser de forma exagerada, com uma enorme subtiliza, tão grande que nos escapam algumas palavras e sentidos tão subtis — consegue falar dos temas difíceis de tratar abrindo espaços e de uma maneira não demasiado óbvia ou bruta.