O texto bastante dinâmico de Asad acompanha a leitora por um caminho de análise do secularismo por meio da(s) questão(ões) da tradução. Ao ler a introdução estava muito engajada no debate sobre tradução entre línguas, dentro de uma mesma língua ou para outras formas de comunicação e, ao ser apresentada ao caminho das discussões do livro estava passivamente curiosa quanto aos temas dos dois primeiros capítulos e ativamente ansiosa para discutir o tema da linguagem matemática e estatística no terceiro – fortemente influenciada por pelo meu interesse na produção de dados estatísticas estatais e paraestatais.
Nos primeiros capítulos, de forma paralela aos insights que tinha sobre a hipótese do discurso secular ter suas raízes em uma tradução das tradições judaico-cristãs, não conseguia deixar de pensar sobre a discussão da intraduzibilidade da poesia e da inspiração. Como antropólogas e pesquisadoras profissionais em um contexto de Sul Global, o tema da tradução é uma constante muito complexa (e a obra de Asad nos dá vocabulário para discutirmos muitas dessas outras formas de tradução também), seja na tradução para nossos pares de categorias que empregadas por nossas interlocutoras – como no caso da ideia de “padrão” como máxima positiva utilizada por policiais –; na tradução de obras estrangeiras para a língua portuguesa – exemplificado no desafio que tenho encarado nas incomensurabilidade entre as expressões “negro” (portugês), “black” (inglês) e “noir” (francês) –; e na tradução de nossas obras em outros idiomas como forma de possibilitar diálogos com um Norte Global que não nos lê em nossas línguas maternas – esforço que envolve não apenas um novo desafio na tradução das categorias acionadas por nossas interlocutoras, mas também na tradução de autorias brasileiras que citamos e podem ser desconhecidas por nossos pares estrangeiros. Sem contar que o traduzir se torna temática obrigatória em nossas carreiras a partir do momento em que o domínio (em teoria) de três idiomas é uma exigência para adentrarmos espaços como uma sala de aula de doutorado.
Destaco ainda do primeiro capítulo as formas como Talal Asad nos proporciona um exemplo bastante elegante de como intelectuais não-brancos e/ou que lidam com temáticas raciais precisam refinar sua retórica de forma a explicitar as lacunas no argumento de uma autoria branca, ao passo que se atentam as fragilidades brancas de seus pares – como aponta Robin DiAngelo –, em um duplo trabalho intelectual – como descrito por Patricia Hill Collins. O conflito é parte incontornável da esfera intelectual, como fica explícito na contra-argumentação que Asad faz da teoria do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas e no breve comentário sobre as interações do autor com o filósofo francês Jacques Derrida. Ainda assim, parte da argumentação de Asad passa por explicitar o caráter orientalista, islamofóbico e racista das ideias de seus colegas sem uma acusação de forma explíticta. Em um esforço didático, Asad descreve a retórica de Derrida que antagoniza o islamismo como um “interesting misunderstanding” (p. 57). Para além de aprender sobre secularismo, religião, história e tradução, Secular translations também me ensinou sobre conflitos intelectuais e políticos dentro da esfera acadêmica.
Ainda no tema da suposta universalidade do discurso secular na esfera política e nas armadilhas do liberalismo que direcionam sociedades a regimes autoritários e (reproduzem desigualdades, penso em como a escrita (para além da fala) se torna parte central em uma uniformização do discurso aceito na esfera política e em como toda essa discussão é orientada por uma lógica não apenas eurocêntrica (orientada na predominância de idiomas documentados através da escrita), como também ouvintista; isto é, baseada em uma pretensa universalidade da traduzibilidade de línguas orais que exclui línguas de sinais, as quais não possuem uma grafia própria institucionalizada. A profissional de letras e professora da UFSC Audrei Gesser discute o ouvintismo como uma série de representações do mundo produzidas por uma maioria (hegemônica) ouvinte. Desta forma, penso como um debate crítico produzido a partir das contribuições das populações surdas também pode fortalecer e ampliar os argumentos de Asad sobre as traduções do secularismo. Uma perspectiva surda também pode expandir os debates sobre a intraduzibilidade das expressões corporais e interações coletivas.
Após esses extensos comentários – de alguém que supostamente fala demais – sobre os primeiros capítulos (mesmo que mais focado no primeiro), peço licença para poder comentar também a respeito do terceiro capítulo e dialogar com os primeiros passos de meu trabalho no doutorado. Ao trabalhar com um encontro entre a construção de uma identidade/imagem de Santa Catarina e o campo da segurança pública, encontrei no terceiro capítulo muitas questões centrais para minha pesquisa: a partir do debate de números sobre uma demographic majority e a quem um Estado-nação pertence, seria possível entender a perpetuação do discurso da branquitude como uma tradição discursiva que aponta para o ser branco como uma essência do estado de Santa Catarina?
A transição feita pelo autor entre os sentimentos de insegurança e incerteza cotidiana – a partir de um paralelo com as narrativas de terror fictício hitchcockianas – e a pretensa certeza trazida pela linguagem dos números é outro ponto alto da obra de Asad. Esse fio condutor entre a teoria das máscaras na antropologia de Marcel Mauss, para o tema da desconfian��a e segurança para indivíduos e para governantes que representam o Estado-nação e, finalmente, para a conceitualização da incerteza em termos matemáticas e suas formas de solucioná-la ou controlá-la no capítulo 3 é dos temas que mais me chama a atenção