Paladino da liberdade de pensamento, da discussão crítica e do estudo fundamentado dos problemas, tendo sempre pugnado pela regeneração política e moral, e recu-sando-se a aceitar a resignação fatalista e a subserviência medrosa, Ramalho Ortigão, com As (suas) Farpas, legou-nos páginas que denotam uma espantosa ─ e deveras preocupante ─ actualidade. Com este volume publica-se pela primeira vez uma antologia d’As Farpas que inte-gra exclusivamente textos de índole política ─ ou que incidem sobre a política, nas suas múltiplas facetas, e os políticos, com os seus tremendos vícios e as suas perenes misérias… // Inclui crónicas que Ramalho publicou no jornal O António Maria e que não constam da primeira edição d’As Farpas, tal como textos que escreveu após a implantação da República e que seriam publicados em livro postumamente, num volume intitulado Últimas Farpas.
“Na riqueza de ângulos de observação e na elegância da escrita, que oscila entre a ironia frontal e a refle-xão ensaística, o leitor fica com uma aproximação à diversidade de temas e de interesses que se espelham na obra de Ramalho (…).Mas aquilo que distingue esta edição, de outras anteriores, é o critério que orientou a selecção dos textos, que aqui formam uma espécie de arquipélago, erguendo-se a partir do vasto oceano do conjunto completo d’As Farpas. O leitor é convi-dado a viajar directamente ao núcleo do pensamento político de Ramalho…” Excertos do Prefácio
José Duarte Ramalho Ortigão nasceu no Porto, na Casa de Germalde, freguesia de Santo Ildefonso. Era o mais velho de nove irmãos, filhos do primeiro-tenente de artilharia Joaquim da Costa Ramalho Ortigão e de D. Antónia Alves Duarte Silva Ramalho Ortigão.
Viveu a sua infância numa quinta do Porto com a avó materna, com a educação a cargo de um tio-avô e padrinho Frei José do Sacramento. Em Coimbra, frequentou brevemente o curso de Direito, começando a trabalhar como professor de francês no colégio da Lapa, no Porto, de que seu pai era director, e onde ensinou, entre outros, Eça de Queirós e Ricardo Jorge. Por essa altura, iniciou-se no jornalismo colaborando no Jornal do Porto . Foi colaborador em diversas publicações periódicas, nomeadamente: Acção realista (1924-1926); O António Maria (1879-1899); Branco e Negro: semanario illustrado (1896-1898); Brasil-Portugal: revista quinzenal illustrada(1899-1914); Contemporânea (1915-1926); Galeria republicana (1882-1883); A imprensa: revista científica, literária e artística (1885-1891); O occidente: revista illustrada de Portugal e do estrangeiro (1877-1915); A semana de Lisboa: supplemento do Jornal do Commercio (1893-1895); Serões: revista semanal ilustrada (1901-1911); O Thalassa: semanario humoristico e de caricaturas (1913-1915).
Em 24 de outubro de 1859 casou com D. Emília Isaura Vilaça de Araújo Vieira, de quem veio a ter três filhos: Vasco, Berta e Maria Feliciana.
Ainda no Porto, envolveu-se na Questão Coimbrã com o folheto "Literatura de hoje", acabando por enfrentar Antero de Quental num duelo de espadas, a quem apodou de cobarde por ter insultado o cego e velhinho António Feliciano de Castilho. Ramalho ficou fisicamente ferido no duelo travado, em 6 de fevereiro de 1866, no Jardim de Arca d'Água.
No ano seguinte, em 1867, visita a Exposição Universal em Paris, de que resulta o livro Em Paris, primeiro de uma série de livros de viagens. Insatisfeito com a sua situação no Porto, muda-se para Lisboa com a família, obtendo uma vaga para oficial da Academia das Ciências de Lisboa.
Reencontra em Lisboa o seu ex-aluno Eça de Queirós e com ele escreve um "romance execrável" (classificação dos autores no prefácio de 1884): O Mistério da Estrada de Sintra (1870), que marca o aparecimento do romance policial em Portugal. No mesmo ano, Ramalho Ortigão publica ainda Histórias cor-de-rosa e inicia a publicação de Correio de Hoje (1870-71). Em parceria com Eça de Queirós, surgem em 1871 os primeiros folhetos de As Farpas, de que vem a resultar a compilação em dois volumes sob o título Uma Campanha Alegre. Em finais de 1872, o seu amigo Eça de Queirós parte para Havana exercer o seu primeiro cargo consular no estrangeiro, continuando Ramalho Ortigão a redigir sozinho As Farpas.
Entretanto, Ramalho Ortigão tornara-se uma das principais figuras da chamada Geração de 70. Vai acontecer com ele o que aconteceu com quase todos os membros dessa geração. Numa primeira fase, pretendiam aproximar Portugal das sociedades modernas europeias, cosmopolitas e anticlericais. Desiludidos com as luzes europeias do progresso material, porém, numa segunda fase voltaram-se para as raízes de Portugal e para o programa de um "reaportuguesamento de Portugal". É dessa segunda fase a constituição do grupo "Os Vencidos da Vida", do qual fizeram parte, além de Ramalho Ortigão, o Conde de Sabugosa, o Conde de Ficalho, o Marquês de Soveral, o Conde de Arnoso, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Carlos Lobo de Ávila, Carlos de Lima Mayer e António Cândido. À intelectualidade proeminente da época juntava-se agora a nobreza, num último esforço para restaurar o prestígio da Monarquia, tendo o Rei D. Carlos I sido, significativamente, eleito por unanimidade "confrade suplente do grupo".
Na sequência do assassínio do Rei, em 1908, escreve D. Carlos o Martirizado. Com a implantação da República, em 1910, pede imediatamente a Teófilo Braga a demissão do cargo de bibliotecário da Real Bi
Não estranhem qualquer coincidência com a realidade actual, ou pelo menos, estranhem e depois entranhem. N'As Farpas, existe quase assustadora semelhança com a actualidade que acontece de página para página. É um livro essencial para compreendermos este nosso país e para nos apercebermos da falta de originalidade que nos persegue desde o séc. XIX, uma vez que as críticas ferozes que Eça e Ortigão fazem nesta obra, mantêm-se, agravam-se, perpetuam-se. Embora a obra nos faça rir das nossas desgraças, é com esse ridículo que despertamos - um pouco como o efeito balde de água fria.
"É dia de Natal. A cidade amanheceu alegre no céu fresco e azul. Os carrilhões das igrejas repicam festivamente. As salsicharias, os restaurantes, as pastelarias, ostentam em exposição os seus produtos mais apetitosos: (...) os bolos do Natal: os fartes, os sonhos, os morgados, as filhós, as queijadas, os christmas-kacks, os puddings, os bombons glacés. E a profusão destas exposições dá às ruas o aspecto culinário da abundância, da plenitude."
[2/5]: Funny book overall, more of a social satire. I did not understand all of the references and jokes as they are deeply rooted in portuguese politics and social clues. Just not for me, as I coudln't grasp the essence of it.
Apesar da linguagem um pouco intrincada e arcaica e de alguns temas serem obsoletos, outros tantos mantêm-se bastante atuais e o sarcasmo e humor com que Ramalho Ortigão e Eça de Queirós espicaçam o leitor valem por si só a leitura, que já de si é bastante curta.
Uma pérola.
Spoiler Alert: Eles não gostam nada do Alexandre Herculano