Não se pode, em rigor, chamar a este ensaio um livro; será antes uma breve reflexão, tal como o título sugere, acerca dos conceitos de arte, moda e modernidade. Um primeiro contacto com Baudelaire que, não obstante a classificação mediana, se traduziu numa experiência agradavelmente positiva.
Motivo da classificação: o texto é interessante e, em certa medida, partilho algumas das visões propostas pelo autor, nomeadamente no que respeita à figura feminina e ao romantismo com que encara a vida; contudo, parece-me incoerente que o pintor da vida moderna (descrito por Baudelaire) seja aquele que se mistura com a multidão e tenta captar a efemeridade do mais pequeno instante, do feixe de luz, que se antepõe ao academismo e ao artificialismo (da pose, do retrato, etc) e que, com efeito, abandona o estúdio e o atelier, mas que, simultaneamente, favoreça o adorno, o efeito, a maquilhagem, enfim, a moda num todo, em detrimento de uma representação não-camuflada da natureza. Compreendo que para este pintor da vida moderna a cidade seja um palco, um palco de dinâmicas temporais e de um constante confronto com o ritmo da vida e com os fenómenos e as mudanças da natureza, mas é precisamente por essa razão que não compreendo o seu quase desprezo pela realidade.
Uma segunda análise, em contexto de aula, fez-me perder também algum encanto pelas figuras de Baudelaire e da sua personagem-fantoche, se estivermos dispostos a aceitar esta interpretação. Ingénuo da minha parte ou não, quis crer que o Monsieur G. descrito ao longo do ensaio existiu de verdade e que a sua hipotética modéstia face à arte se devia, sobretudo, ao modo como encarava a vida, pois sabemos que tais características não são tão despropositadas quanto isso. Porém, e retomando o início do parágrafo, sou agora levado a pôr em causa a sua autenticidade e a colocar a hipótese de se tratar de um objecto criado pelo autor com o intuito de servir o seu propósito de caracterização de uma realidade por si idealizada, como vários têm feito ao longo dos tempos.
Não reconheço a importância deste texto na história da arte nem tão-pouco na literatura (contrariamente ao que alguns defendem), mas assumo-me como ignorante perante tais assuntos e sustento, em minha defesa, que são possíveis várias interpretações.
A quem se interessa pelo tema, não deixe de ler: serão duas horas com certeza bem empregues.