Ótimo. Não só para conhecer um pouco melhor a filosofia indígena, como também para rever nossos conceitos de humanidade, natureza e experiências enquanto viventes dessa terra. Krenak demonstra, com perspicácia e sensibilidade, o quanto nos enganamos ao criar a ideia homogênea de que "somos todos iguais" ou de que "só existe uma humanidade". Como se isso servisse para criar um sentimento poderoso de união e irmandade. A verdade é que somos mesmo diversos, tanto em número quanto em culturas, e nossa beleza reside aí. E nossa irmandade surge a partir dessa aceitação das diferenças. Tentar apagar isso, por meio desse tipo de discurso clichê, só serve para apagar e desvalorizar maneiras singulares, inventivas e criativas de se viver, limitando nossas experiências nesse mundo, principalmente no que diz respeito aos povos que não se encaixam no conceito hegemônico de humanidade e civilização, mas que sofrem há séculos com a pressão, o genocídio e o apagamento de suas ancestralidades, para integrarem uma sociedade que só os aceita na medida em que correspondem as suas noções "corretas" de mundo. As ideias do autor nos levam a questionamentos extremamente importantes: a quem interessa que os povos indígenas sejam integrados à falácia da civilização? Que abandonem suas próprias crenças para assumirem uma ideia de mundo altamente materialista, consumista e destrutiva da natureza? Considerando os interesses que perduram no Brasil desde os primórdios da colonização, bem como a nossa história de sucessivas invasões, é novamente para o saque de terras, exploração de minas e dos ditos recursos naturais que tanto trazem lucros à elite latifundiária brasileira. Aliás, essa própria noção com que, infelizmente, somos induzidos a pensar no que tange à terra, isto é, aquela de que somos uma entidade à parte dela e de todos os outros seres vivos que a habitam (tantas vezes nos considerando superiores), é nociva ao lançá-la diretamente à teia da exploração e coisificação. Ora, é como se a natureza devesse nos servir, não importando nem a demanda altíssima exigida para isso, nem as consequências.
Outrossim, porque será que vez ou outra, quando temos alguma espécie de contato com a forma com que os nativos enxergam o mundo, chegamos a ter, de certa forma, como ridículas suas ideias? Quer dizer, quem é que, dotado de racionalidade, pode considerar como viva uma rocha? Como pode tratá-la como pessoa, como um membro da família, como algo que faz parte de si mesmo? É que essas são maneiras contra-hegemônicas de se encantar com a vida e de se sentir parte dela. De respirar sua importância e de manter profunda conexão com os outros seres que não nos são inferiores. E são precisamente essas crenças, histórias e narrativas ancestrais que dão sentido a tudo o que existe e que essas populações quase "não-humanas" precisam manter, resistindo ao fim de seus próprios mundos, ou, ao menos, tentando adiá-lo. Por outro lado, não é a nossa própria visão sobre as coisas que é estranha? Digo, não teria sido essa forma exploratória de enxergar a natureza, bem como a ideia padrão de humanidade que coloca o homem acima de tudo, as principais culpadas pelas grandes tragédias naturais e pelos grandes genocídios de nossa história? No mínimo, ela é insustentável, e tem mostrado cada vez mais isso.
Todas essas coisas limitam nossa existência. Nos colocam numa posição aonde só há um jeito certo de se viver e uma única história a ser contada pra todo mundo: no consumismo capitalista, no estilo de vida americano e europeu, de modo não-integrado diretamente à natureza, pois a nós nos foi dada a "razão" e o "poder". Os que rejeitam essas ideias não se classificam como "humanidade", de forma que precisam ser "salvos" e trazidos para o meio "civilizatório". Mas não estaria a barbárie entre nós mesmos, dito civilizados? Nem todos querem ou sequer precisam desse tipo de civilidade superficial. Existem modos muito mais interessantes, criativos e livres de ser e de conceber a vida. São os que proporcionam a liberdade ao permitirem interações recíprocas com o que nos cerca, sem nos escravizarem às coisas, como se toda a nossa existência realmente se limitasse a comprar. Antes, somos convidados a simplesmente gozar o que há de bom e a sonhar com o novo, com inventividade, no aqui e no agora, sem que hajam quaisquer interesses lucrativos nisso. Sem que hajam padronizações para as pessoas. Com essa visão integrada e menos excludente, é que poderemos adiar o fim de mundo anunciado pela sociedade do regresso, do individualismo, predativismo e da mercadoria compulsória.
Livro bem pequenininho (com 72 páginas no formato de bolso), mas com conteúdo riquíssimo que merece a leitura e a mente aberta de todo mundo!