Foi incrível ver o talento de escritores que eu não conhecia em contos que remetem a temas vividos durante a pandemia de covid19. São variados olhares que fazem refletir e que emocionam! Destaco, não sem cometer injustiças, mas unicamente para destacar meus preferidos o conto de Aramys que nos faz ouvir frases não escritas, o da Helena Machado que nos emociona pela sensibilidade e delicadeza ao nos apresentar a relação entre as personagens, o do Paulo Palado pela narrativa cotidiana tripla sobre um mesmo momento e de Ednilson Toledo por mostrar o que é, para mim, a maior lição desta pandemia: a solidariedade. Os outros 26 contos também são excelentes ! Recomendo !
“É um exercício sisifista como promessa de fuga à mortalidade, bendita ou maldita condição humana. nunca soube bem quão importante é o autoengano à vida feliz, ou quão precioso à felicidade alheia a promessa que se sabe sem dizer que poderá não ser nunca.”
Em uma passagem de Kaspar Hauser, filme do alemão Werner Herzog, o personagem vê pela primeira vez como era a casa onde passou todos os seus trinta anos de vida como prisioneiro, sem jamais ter saído do quarto onde se encontrava. Kaspar vê a diminuta janela de sua antiga cela e, com sua lógica surpreendente, pergunta: "Por que ela muito maior do lado de dentro do que do lado de fora?" Parapeitos é um livro que reúne 30 contos, feitos por escritoras e escritores, em torno da pandemia do corona vírus no ano de 2020. As muitas vozes dessas breves narrativas da peste do terceiro milênio apresentam um ponto em comum com a obra de Herzog: a cisão do olhar, a fratura entre aquilo que vemos e aquilo que nos olha. Separado do tempo do mundo pelo isolamento social recomendo pelas autoridades sanitárias, nosso olhar se volta para o espaço fechado de nós mesmos. O recorte do mundo que essas autoras e autoras nos oferecem é feito sob a perspectiva real ou figurativa de uma janela, que delimita o mundo num recorte parcial, tal como o quadro renascentista definido por Leon Batista Alberti em seu livro Da pintura. Parcial, no caso em questão, que traz profundidade de campo. Tive a oportunidade de conhecer diversas obras realizadas durante a pandemia. Filmes, fotografias, músicas e outras tantas Parapeitos é, até o momento, a mais coerente e instigante.