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O Crime de Aldeia Velha

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Em 1934, no Marco de Canavezes, Portugal, uma jovem de uma pequena aldeia é queimada viva para lhe exorcizarem o diabo do corpo. Essa história é verídica e macabra.
Bernardo Santareno, o maior dramaturgo português da modernidade, construiu em torno dessa história um texto violento e intrigante sobre os preconceitos, medos e paixões dos homens e sobre a maneira como estes o guiam e cegam.

A história de Joana, a mais bela rapariga da região, desejada por todos os rapazes em idade casadoira e mesmo por aqueles que já não deviam pensar nessas coisas, é a história da inveja e suspeita das mulheres das aldeias. A crença num poder de sedução de inspiração diabólico, os desequilíbrios sociais, a crendice num livro de São Cipriano… Tudo isto é posto a nu pelo autor que, em poucas páginas, cria um texto único a que obriga o leitor/espectador a reflectir sobre o lado mais obscuro da alma humana e os efeitos que deixar-mo-nos por ele dominar podem acarretar em termos de consequências nefastas.

175 pages, Hardcover

First published January 1, 1959

99 people want to read

About the author

Bernardo Santareno

30 books21 followers
Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário, cujo exercício da medicina (em Psiquiatria) conciliou, durante anos, com a escrita para teatro, alcançando, desde a sua estreia nos anos sessenta, um papel de primeiro plano no teatro português.

Entre registos realistas, de tonalidade mais naturalista ou com traços épicos, a sua escrita foi essencialmente de denúncia, atenta à realidade do país e visando uma consciência social, o que lhe valeu a proibição de algumas das suas peças e a perseguição pelo regime salazarista.

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Displaying 1 - 11 of 11 reviews
Profile Image for João Barradas.
275 reviews31 followers
December 23, 2021
Uma aldeia é uma casca de noz: todos se conhecem e falam uns sobre os outros, sem falinhas mansas. Nesse sistema fechado, acumulam-se miasmas e o ar putrefacto faz mirrar as réstias de humanidade que podem subsistir. (Sobre)Vive-se, então, ante um clima de incerteza, cobiça, raiva e malvadez - o caldo perfeito para acompanhar o pitéu do egoísmo humano. Que melhor argumento se poderia pedir?

Quiçá pela sua velhice, a aldeia apresentada condensa todos os podres que lhe são devidos. Há o culto fervoroso a uma entidade divina, movido por um grupo de beatas, cegas pelo brilho dos mitos pagãos. Há a misoginia extrema, que arreda as mulheres para uma vida de recato e reclusão. Há os arrufos e os desentendimentos, resolvidos à lei da força. Todos os ingredientes, bem cozinhados, para um banquete regado com crítica social, chafurdando na ferida que não há meio de sarar.

Inspirando-se na veracidade de um Portugal profundo (que teima em permanecer num abismo imenso), Santareno apresenta cenas familiares por vivências próprias ou de intermédia pessoa. O texto dramático facilita (e até exige) o uso de um linguajar característico, ao qual se alia uma ironia necessária e requerida. Sabem qual é o verdadeiro crime? Que mais pessoas não leiam as obras deste autor. Por isso, façam um favor a vocês mesmos e entrem neste lugarejo - por vossa conta e risco!
Profile Image for Rui Alves de Sousa.
315 reviews50 followers
June 8, 2017
Por mais que a história possa ser resumida a um "caso verídico" de meia dúzia de linhas, a construção dramática de Bernardo Santareno é de difícil sistematização. Mesmo que saibamos como tudo se irá desencadear (é logo anunciado na contracapa e na notícia real que inicia o livro), o desenvolvimento das personagens e das situações é inesquecível. Um clássico absoluto.
Profile Image for Artur Coelho.
2,606 reviews74 followers
May 18, 2025
Inspirado num crime que ocorreu no Portugal profundo das primeiras décadas do século XX, Bernardo Santareno lega-nos um texto fortíssimo, que explora de forma magistral as tensões sociais e pessoais no quadro de um país sentido com cultural, economica e socialmente atrasado. A história é bem conhecida, especialmente para os fãs de cinema de terror, graças ao filme homónimo que Manuel Guimarães realizou nos anos 60, uma adpatação fiel do texto de Santareno.

Mergulhamos numa aldeia do interior, isolada, pobre, conservadora nos seus costumes. Uma aldeia onde uma jovem rapariga sofre a maldição de ser bonita, atraindo a atenção dos homens, e mal vista na terra, apontada como descendente de bruxas. Joana é uma personagem complexa, um excecional retrato de alguém que mentalmente não está bem, rejeitando de forma instintiva os avanços amorosos dos aldeões, gerindo as sempre intensas más linguas. Há traços de trauma, não ficou claro da minha leitura se este personagem sofreu abusos, o que ajudaria a explicar a atitude de por um lado, mostrar alguma solicitação, mas sempre rejeitar quaisquer atenções. Não é difícil cair nas bocas de um mundo pobre de ideias, arreigado de superstições, como tendo o diabo no corpo.

A competição pelas atenções da jovem leva a uma rixa entre dois jovens aldeãos, que termina na morte de ambos. As mulheres da aldeia tomam isto como sinal de possessão, falam de estranhos acontecimentos, dizem à boca cheia que a jovem está possuída pelo demónio. E esta, transtornada e com os seus traumas pessoais, acredita piamente que a sua incapacidade em ser normal é símbolo de ter um espírito malévolo dentro de si. O conflito interior, as tensões sociais e sexuais são palpáveis neste texto. Temos a sociedade supersticiosa, no fundo, ignorante e pobre, encarnada nas personagens das mulheres velhas que empurram Joana para a loucura. A tensão sexual vem do conflito entre os costumes conservadores, onde a mulher serve para casar, tem de ser submissa, mas é também objeto de desejo entre os homens que se gabam nas tascas de conquistas amorosas que na verdade não aconteceram.

O desfecho é inevitável. Acicatadas por uma velhota que conhece os antigos ritos e costumes contra o sobrenatural, com a população a reclamar sangue e uma jovem incapaz de distinguir o real do imaginário, executam um antigo ritual de purificação pelo fogo. A lógica é medieva, o fogo purificará a alma da condenada, que graças à força da fé irá sobreviver ao ritual. Como é de esperar, tal não acontece, e a jovem morrerá queimada. Aqui, Santareno é magistral. Perante as evidências, as culpadas ganham consciência do seu ato, e optam por uma negação consciente. Sabem que cometeram um crime, uma injustiça, mas fecham-se num segredo social, assumindo uma morte por fraqueza cardíaca. Todos sabemos ser mentira, e sentimos a cumplicidade da turba de aldeões neste segredo que passará a ser sussurrado, para que a vida continue.

Há lampejos de alguma modernidade nesta terra esquecida. Nos dias em que a ação decorre, um dos seus filhos regressa à aldeia como prior. O jovem padre quer ajudar os seus, oferece-se para servir a sua terra, e é claramente a força esclarecida da terra. Um conhecimento e abertura social dentro dos limites da igreja como instituição tradicional, mas já a deixar entrar alguma modernidade no isolamento dos aldeãos. Mas o jovem padre falhará nesta sua primeira missão. O poder das superstições obscurantistas, das tradições faladas entre os aldeões, é mais forte do que os seus apelos à bonomia cristã e aos óbvios sinais de saúde mental. Por mais que tente, falhará na sua missão de proteger a jovem aldeã.

E nisto, será também testado nos limites do seu sacerdócio. Homem jovem, não é indiferente aos encantos da rapariga. Mergulha num intenso conflito interior entre sentimentos de paixão que encara como pecaminosos, enquanto tenta lidar com a pressão de uma população supersticiosa que demoniza a jovem. No final, que novamente refiro como magistral, a sua impotência pessoal e institucional é colocada a nu pela forma como cede, assustado, perante a pressão da turba. Horrorizado pelos acontecimentos, frustrado pela sua incapacidade em travar o crime, revoltado contra o barbarismo dos seus conterrâneos, quer fugir, afastar-se. Mas a sua mãe, uma das envolvidas no ritual mortíferio, manda-o ir descansar, dizendo-lhe que no dia seguinte é dia de missa matinal.

A peça termina aqui, mas nós não duvidamos que no dia seguinte este padre dê a missa aos aldeões, e que o continuará a fazer por muitos e longos anos, vivendo com peso deste crime, o segredo violento que a aldeia sempre negará, mas pesará no espírito dos seus habitantes.

Na vida real, a história acabou com a condenação de alguns dos homicidas. Na ficção, Santareno aflora a violência oculta sob a aparência de paz bucólica campestre.
Profile Image for diario_de_um_leitor_pjv .
788 reviews146 followers
April 20, 2022
É verdade que gosto muito de ler teatro. Nos últimos meses tenho me “obrigado” a ler pelo menos um livro de teatro por mês. Em Setembro e Outubro passados estas leituras recaíram em dois livros do escritor e dramaturgo português Bernardo Santareno: “O Duelo” e “O crime da aldeia velha”.
Coincidente nestas duas obras é a marca da ruralidade portuguesa e dos crimes de sangue e do tradicionalismo presente no território português.

Em ambos os casos Bernardo Santareno é magistral nesse retrato do território e na construção dramática intensa. No mesmo sentido estas duas obra teatrais são expressões desse tradicionalismo mas igualmente da sua critica.

Assim "Duelo" parte do território taurino ribatejano para questionar e problematizar a masculinidade e as suas performances num território onde as desigualdade sociais e de género são presentes nesse quotidiano de meados do século XX.

"O crime da Aldeia Velha" parte de um facto real passado nos anos 30 do século XX no noroeste português onde uma "caça as bruxas" leva ao assassinato de uma jovem mulher. Mais uma vez Santareno problematiza a codificação de género, de masculinidades e feminilidades rurais e tradicionalistas.

Estas leituras que aconselho vivamente fizeram parte da iniciativa #medicosescritores organizada pelo @2bejay.
Profile Image for Helena Rodrigues.
183 reviews14 followers
December 10, 2023
Bernardo Santareno triunfa, mais uma vez, na representação microscópica da vida em povoações pequenas no início do século passado. A expressividade dos diálogos, numa linguagem que em tudo se assemelha ao registo oral aldeão, deixa transparecer a moldura mental das personagens que povoam a peça – uma moldura mental de desconfiança, intriguismo e profunda religiosidade.

Contrariamente ao que acontece com a maioria das peças de teatro que já tive oportunidade de ler, não senti que “O Crime da Aldeia Velha” precisasse de ser visto em palco para ser plenamente apreciado. As didascálias são muito claras e expressivas, de modo que este texto dramático pode ler-se quase como se se tratasse de um texto narrativo.

Em suma, esta é uma peça de leitura fácil e cativante, uma adaptação bem conseguida de acontecimentos reais e uma representação perturbadora das consequências mais radicais da ignorância e da superstição.
Profile Image for Alexandra Almeida.
3 reviews
August 28, 2025
Baseado em um acontecimento real esta peça mergulha muito bem na falta de sororidade e o quão uma mulher bonita, livre e independente incomoda muita gente!!

Senti muita conexão com a protagonista, Joana, que apesar de ser uma mulher do século XX trás muito a tona questões que ainda são pautadas nos dias de hoje !

A angústia, a raiva e a revolta que dá ao lermos esta peça faz nos pensar bastante que 100 anos se passarem e as coisas continuam parecidas! Só que em vez de chamarem as mulheres de bruxas hoje em dia chamam de P#tas

- em uma época que a religião é as crenças eram mais importantes do que os direitos humanos MUITOS assistiram a apoiaram a morte de uma mulher indefesa !!! E NUNCA NINGUÉM foi condenado pelo crime !!

This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Prapti  Panda.
290 reviews3 followers
January 5, 2023
Que obra potente! Há muito tempo que não lia teatro e tinha-me esquecido do quanto gostava do formato. No mês passado vi a nova adaptação cinematográfica d'A Traição de Padre Martinho (peça também da autoria de Santareno) e lembrei-me de voltar para este dramaturgo excecional.

O Crime de Aldeia Velha é uma peça dolorosa que fala de crenças supersticiosas e de um catolicismo roto. Vale muito a pena ler. Acho que a Joana é uma personagem que não vou esquecer facilmente nos próximos tempos, tocaram-me me de tal forma as falas dela.
Profile Image for Neca.
18 reviews
June 5, 2025
apesar de ser um texto denso, tem uma crítica social poderosa e uma atmosfera tensa que prende mesmo quem não está habituado a teatro.
2 reviews
January 17, 2026
Uma história real que nos leva a perceber o preconceito e a ignorância que as pessoas têm, em relação a outras, influenciado-as a auto manipular-se.
Displaying 1 - 11 of 11 reviews

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