A vida é como um mar em que nós somos barquinhos. Subimos e descemos com as ondas, e às vezes há tempestades pavorosas. Tempestades das quais não conseguimos escapar.
Estava a ficar muito difícil perceber o objetivo de Montero com este livro. Não sabia que a autora opta habitualmente pelo policial/mistério e, ao longo da leitura, não percebi logo onde isso me ia levar. Mas a descrição psicológica agarrou-me e acabou por me mostrar o caminho. A princípio, apenas para Pozonegro:
Não há um único vaso naquelas janelas, não há qualquer cor naquelas ruas. Os mil e trezentos moradores devem estar quase todos dentro das suas casas; os poucos com quem se cruza são tão feios, cinzentos e imprecisos como a paisagem que o cerca. Quase todas as lojas ostentam cartazes amarelados de «Trespassa-se». Veem-se casas a cair, solares estreitos cheios de entulho, as ruas parecem bocas desdentadas e as ruínas são tão antigas que sobre o entulho já cresceu erva daninha. Pozonegro está morto e não sabe.
É aqui que Pablo decide aportar para começar uma vida nova, em fuga não se sabe do quê. Mas o que quer que seja não é bom e rapidamente se espelha na sua atitude:
Lança uma olhadela ao relógio; são 10h23. Como é tarde! Mas tarde para quê? Na realidade, não tem nada que fazer. Que mania tão estúpida. Rotinas de uma vida esquecida. Dá um pontapé no lençol para o tirar de cima de si. Apesar de dormir completamente nu, o calor é sufocante mesmo a esta hora. Volta a cabeça. Como tem o colchão no chão, o seu olhar é paralelo e quase encostado aos mosaicos. Dessa perspetiva, e com a claridade da janela, vé-se bem a camada de pó e de sujidade que os reveste, salpicada aqui e ali pelas marcas dos seus pés descalços. Que nojo! Esta permissividade com a porcaria é o indicador mais evidente do seu nível de degradação.
A aura de mistério em torno de Pablo é enorme; a sua vida é um misto de ficção, trauma, memória dolorosa e sucesso, e todos estes juntos criam uma atmosfera sufocante para o leitor deixando-o com as peças de um puzzle, que não sabe qual é, por montar:
A dor consolou-o. Talvez devesse magoar-se mais vezes.
Fizera-o na adolescência.(...)E a dor, de facto, consolava-o. Da fúria, da humilhação, da frustração de não poder matar o pai. Aquele pai que tão depressa lhe dava correadas com o cinto sem nenhum motivo (mas será que pode haver algum motivo para dar cabo das costas de um miúdo com uma fivela?), como se abraçava ao seu pescoço e lhe pedia perdão. Perdoa-me, perdoa, o que estou a fazer contigo, não mereço ter um filho como tu, não mereço ter nenhum filho.
A Boa Sorte não é um livro fácil de digerir por esses e outros motivos: por não ser justo, por não ser inofensivo, por não ser pacífico, por não ser claro. Porque pode ser lido como um livro policial, um livro de mistério, um livro de suspense, um livro existencialista, um romance psicológico, uma história de amor e de novas oportunidades. Todos os anteriores e nenhum deles...
Pablo sofre de malária sentimental. E assim revive, vezes sem conta, sem o conseguir evitar, esses dias finais da doença, quando o moribundo já não sofre, quando toda a gente já se instalou, o agonizante e os seus parentes, na lenta e sossegada casa da Morte, uma anfitriã fria que passeia sem ruído pelos quartos e vai acariciando as nucas com os seus dedos de gelo. É um tempo impreciso que está fora do tempo e da lei dos homens, horas de algodão e de silêncio durante as quais não podemos fazer nada exceto esperar. Exceto navegar com a maior calma possível as águas dessa noite, porque todas as agonias parecem acontecer de noite, mesmo que o nosso morto morra em pleno dia. Cada minuto cai sobre nós como um grão de areia, como a terra que acabará por nos soterrar quando chegar a nossa vez; mas é um peso leve, porque ainda não é a nos que nos calha. De modo que esperamos docilmente e sussurramos para não incomodar a altiva Morte, que anda de um lado outro numa azáfama, ultimando o seu próximo defunto. A parteira de cadáveres não costuma ter pressa.
No seu âmago, leio sobretudo um hino ao instinto humano de autopreservação, de apego e amor à vida, e um conjunto de reflexões (e perguntas) muito pertinentes sobre o transvestismo que assumimos perante os outros e nós...
Como o tempo passa depressa quando não se faz nada. Não ser é um alívio.
...sobre as mascaradas a que recorremos para salvaguardar a nossa imagem...
Os monstros escondem-se no ventre tenebroso do silêncio doméstico.
...sobre a dose de sedação a que nos submetemos para anestesiar a vida e as consequências disso mesmo...
Com os anos(...), a realidade torna-se cada vez mais incompreensível.
... e, acima de tudo, sobre a eterna questão: Será coragem ou covardia querer viver?
Quando a mágoa espreita, Pablo consola-se revendo mentalmente alguns dos seus conhecimentos de sobrevivência extrema. Desde muito pequeno que coleciona truques para se salvar dos perigos mais extraordinários - é verdade que nunca conseguiu escapar da sua infância penosa e solitária, do hálito etílico e das mãos duras do pai; mas se um dia, por acaso, deparasse com um urso esfomeado, com uma cascavel ou estivesse no meio de um tsunami, de uma avalancha ou preso numa câmara frigorifica, ou num rio com um crocodilo, ou se tivesse de saltar de um comboio em andamento, ou de se atirar de um helicóptero, ou de evitar ser trespassado por uma estocada, ou de se aguentar num submarino submerso, por exemplo, seria o único a saber o que fazer, o único que se salvaria. O mais importante, dizia para si esse menino que agora é este homem, é ter sempre o controlo.