Em Hoje Estarás Comigo no Paraíso, Bruno Vieira Amaral desenha uma investigação do assassínio do primo João Jorge – morto no bairro em que ambos viviam no início dos anos 80 – e usa essa investigação como estratégia de recuperação e construção da sua própria memória: a infância, a família, o bairro e as suas personagens, Angola antes da Independência e nos anos que se lhe seguiram, e a figura (ausente) do pai.
Na reconstituição da personalidade e do percurso da vítima, da noite em que tudo aconteceu, na apropriação que o narrador faz de uma ligação com João Jorge (mais ou menos forjada pelos mecanismo da memória) – e de que faz parte essa busca mais ampla das dobras do tempo e do esquecimento – são utilizados os mais diversos materiais: arquivos da imprensa da época, arquivos judiciais, testemunhos de amigos e familiares, e a literatura, propriamente dita – como uma possibilidade de verdade, sempre.
BRUNO VIEIRA AMARAL nasceu em 1978 e licenciou-se em História Moderna e Contemporânea, pelo ISCTE. Em 2002, uma temerária incursão pela poesia valeu-lhe ser seleccionado para a Mostra Nacional de Jovens Criadores. Colaborou no DN Jovem, na revista Atlântico e no jornal i. É crítico literário, tradutor e autor do Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa e do blogue Circo da Lama. O seu primeiro romance, As Primeiras Coisas, foi distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora e com o Prémio Narrativa do PEN Clube. É editor-adjunto da revista LER e assessor de comunicação das editoras do Grupo Bertrand Círculo.
Bruno Vieira Amaral (n. 1978) decide investigar um acontecimento trágico – o assassinato do seu primo João Jorge Rego em Fevereiro de 1985 numa azinhaga entre dois cemitérios, a caminho da Vila Chã, Baixa da Banheira. Nessa invocação Bruno Vieira Amaral pretende reconstituir ou mesmo restaurar as memórias da sua infância e da sua juventude num contexto familiar, discorrendo sobre as vivências do seu dia-a-dia, mas, igualmente, das reminiscências e das recordações que as suas personagens - familiares e amigos – lhe vão confidenciando, entre um tempo passado e um tempo presente.
”Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir. Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância, da nossa loucura e é nesse eco que julgamos ouvir a voz dos nossos mortos. Não são os mortos que clamam por justiça ou vingança.” (Pág. 359)
As reflexões que Bruno Vieira Amaral vai fazendo quase sempre numa vertente dicotómica: relações entre pai e filho, entre a verdade e a mentira, entre a culpa e o arrependimento, entre a justiça e as injustiças, entre a vítima e o assassino; são relevantes e profundas. Provavelmente, será a primordial questão da culpa e do culpado que faz todo o encadeamento da narrativa originando as inúmeras dúvidas que Bruno Vieira Amaral enfrentou e que vão motivando nos leitores a inevitabilidade de uma acentuada ponderação e avaliação sobre todos os acontecimentos relatados. Nem sempre o rumo que ”hoje estarás comigo no paraíso” aponta permite que a sua leitura seja fluída – a excessiva vertente histórica dos acontecimentos ocorridos em Angola antes da Independência, são um desses exemplos –, distanciando-nos irremediavelmente do que deveria ser a essência da sua obra literária. No dia 25 de Janeiro de 2018 Bruno Vieira Amaral fez a apresentação do seu romance "hoje estarás comigo no paraíso" na Biblioteca António Botto em Abrantes. Bruno Vieira Amaral refere que a investigação sobre a morte do seu primo João Jorge despoletou a "motivação" para escrever uma obra literária. Toda a documentação que pesquisou - artigos em jornais da época, testemunhos de familiares e amigos, arquivos policiais e judiciais, as sentenças judiciais, etc.; apontava para um registo de não-ficção. Na procura dessa verdade surge a questão do "destino", do "se", do que poderia ter acontecido "se" determinados acontecimentos e factos não tivessem desenrolado ou sucedido na forma e no tempo em que ocorreram. Há igualmente uma questão fundamental. Como é que o meio ambiente em que nascemos e em que vivemos nos influencia na nossa formação com seres vivos e, obviamente, como pessoas? Nessa construção de factos e memórias a obra literária deriva inegavelmente para a ficção. Uma história não é um conjunto de factos, o que é relevante é a forma ou o método com que se vão associando. Entendi melhor essa associação e essa diferenciação que acaba por se agregar numa escrita exemplar e louvável. A explicação que Bruno Vieira Amaral dá para a integração de uma minuciosa investigação história é incontestável. O que é real e o que é fictício é uma diferenciação que cada um dos leitores deverá fazer - ou pelo menos, tentar fazer.
NOTA: acabei por alterar a classificação das três para as quatro estrelas.
Van a regényeknek egy típusa, ami mintha az Ariadné-mítosz inverze lenne: fog az ember egy fonalat, de az nem kivezeti a labirintusból, hanem be, annak a kellős közepébe. Amaral könyvében ez a fonal egy harmincéves gyilkosság, ami valamiért felbukkan a szerző fejében, aki - ha már így alakult -, meg is énekli azt. (Hisz amúgy is dúl a témaszegénység íróéknál, mint az közismert.) Az áldozat az unokatestvér, João Jorge, aki átvágott torokkal vérzett el egy régi éjszakán, a disznóólak árnyékában. De mi történt? Drámai összeesküvés vétlen áldozata lett, vagy egyszerűen egy balul sikerült rablás dicstelen eredménye az egész? Miközben zajlik a nyomozás, Amaral újabb és újabb zsákutcákat alkot magának, némelyik impozáns - mint amilyen az angolai függetlenségi harcok története -, némelyik személyes. Látszólag elveszti időnként szeme elől a célt, de valójában tudja, mit csinál: ahhoz ugyanis, hogy megírhassa João Jorge szomorú pusztulásának igaz krónikáját, nem pusztán João Jorge-ot kell megismernie, hanem az egész korszakot, benne gyermek önmagával. És bizonyos szempontból ez a kutatás legveszélyesebb része: amikor önmagával találkozik.
Szövegvilágát illetően különös próza, egyesíti magában a múlt aprólékos újrateremtésének vágyát (ami a fülszövegíróból - némi joggal - előhívta Sebald nevét) valami tropikus, buja mediterrán mesélőkedvvel. Ez helyenként nehézkes, fullasztó textust eredményez, amiben el lehet fáradni, de azt mondom, ezzel együtt ez a sűrű mondatbozót megéri, hogy az ember elcsellengjen benne. Nagy erejű, de mégis jól megkonstruált, okos könyv, aminek kesernyés mellékízét az adja, hogy szembenéz az irodalom egyik kegyes hazugságával. Ismert klisé ugyanis, hogy az író, ha megírja valakinek a történetét, halhatatlanná teszi őt, legalábbis a regény zárványában. De hogy akit megalkotott, valóban az-e, aki egykor élt, vagy egy másik, hamis alakmás, abban már egyáltalán nem lehet biztos.
Terminei ontem a leitura deste livro, mas só hoje à noite é que vou tentar fazer uma resenha do mesmo, porque não é fácil para mim escrever sobre ele, já que durante a sua leitura fiquei muitas vezes confusa e sem a certeza de compreender o que estava a ler.
Penso que tal se deveu às inúmeras personagens do livro, o ter sido escrito em discurso directo por um narrador participante, que falava sobre si próprio e sobre a sua família, sobre os seus sentimentos e pensamentos e também sobre os do seu pai, de um jornalista amigo e de outras pessoas, sempre na primeira pessoa, e de forma sucessiva e também intercalada que, muitas vezes, já não conseguia distinguir quem é que na realidade estava a falar e a descrever os acontecimentos.
Também não consegui perceber se todas as histórias das diversas personagens são reais ou se algumas foram criadas pelo autor.
Trata-se de uma biografia do escritor e da sua família ou parte da obra é real e outra parte é ficção? Não cheguei a nenhuma conclusão. Paira sobre mim uma certa neblina e fico com uma sensação de incómoda ignorância quando não consigo compreender factos essenciais de um livro. Talvez seja porque sou demasiado racional, quero sempre entender tudo e fico angustiada quando não o consigo. Um defeito, pois nem tudo tem que fazer sentido e ser perceptível pela razão.
Quanto à história narrada no livro, não se trata de uma só, mas de muitas. Todavia, a mais importante não é aquela que leva o escritor a escrever o livro, a saber, a descoberta do autor e dos motivos que o levaram a cometer o homicídio do seu primo em terceiro grau e primo direito do seu pai, numa noite de segunda-feira de Carnaval de 1985, João Jorge, um jovem com pouco mais de vinte anos, numa zona degradada da Baixa da Banheira, concelho do Barreiro, quando o escritor ainda era uma criança de sete anos de idade.
De facto, o narrador parte deste acontecimento que procura investigar, entrevistando familiares e amigos, consultando os jornais da época e os arquivos do processo-crime existentes no Tribunal do Barreiro, para se recordar da sua infância e da sua adolescência vividas nos anos oitenta do século XX, descrevendo-nos o bairro pobre onde viveu com a sua mãe e os seus avós maternos, o que sentia por ter sido abandonado pelo seu pai, o seu reencontro com o mesmo uns anos mais tarde e a relação que foram mantendo, o carinho que sentia pelo seu avô paterno, que veio a descobrir em adulto ter colaborado com a PIDE em Angola, e os seus amigos e conhecidos, alguns com fins trágicos como o suicídio ou a destruição pelo consumo de drogas.
E uma das partes que eu mais gostei desta narrativa foi a descrição da vida nos anos oitenta em Portugal, pois, apesar de ter vivido numa aldeia nos arredores de uma cidade de média dimensão no centro do país, e não num bairro problemático de uma zona já por si periférica de grandes cidades como Lisboa e Setúbal, o Barreiro, onde foram acolhidos os que retornaram das nossas antigas colónias, portugueses de todas as etnias e origens, fossem europeus, cabo-verdianos ou angolanos, que tudo tinham perdido no seu regresso a Portugal e que viviam na vizinhança uns dos outros, apesar das rivalidades e ódios que sentiam entre si, recordei-me do nosso país na época, pobre, sujo, triste, sem esperança, com muito desemprego, conflitos sociais, muito analfabetismo e poucas qualificações profissionais e académicas, muitos jovens sem futuro a ficarem agarrados às drogas que os destruíram e os mais velhos a afogarem as suas mágoas no alcoolismo.
É um livro triste, mas que retrata muito bem a vida na altura em que ocorreu o crime e também os períodos que lhe antecederam: em primeiro lugar, os anos sessenta em Angola quando surgiram os primeiros levantamentos contra o colonialismo português e o massacre dos colonos portugueses pelos angolanos, a reacção dos primeiros, o início e o desenrolar da guerra colonial; e, em segundo lugar, os anos setenta, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, que deu origem à independência de Angola e à subsequente guerra civil, de uma crueldade atroz e de uma insanidade total, como o são todas as guerras civis, em que os perseguidores se tornam perseguidos, com facções opostas de origem comunista.
No que diz respeito ao final do livro, fica uma questão por responder, quanto a mim de muita relevância, e que durante a leitura do mesmo sempre esperei que fosse revelada no final, mas que não o foi, com muita pena minha: o que levou o autor do crime e os seus cúmplices a planearem e a executarem o homicídio de João Jorge, o primo do escritor Bruno Vieira Amaral?
Não farei uma opinião ao mesmo nível do meu fascínio por este livro. Primeiro, este livro escolheu-me. Escolheu o momento certo e tornou-se um dos meus livros preferidos deste ano. São estes os livros que ficam comigo por longos anos. As histórias transformam-se em memórias boas e recomendações constantes. Por ser uma experiência pessoal (às vezes transmissível) tenho a certeza que não será tão marcante, nem terá a mesma intensidade em futuros leitores.
Bruno Vieira Amaral parte de um acontecimento trágico - o assassínio do primo João Jorge - para tecer considerações sobre a nossa relação com a morte, com a família e com vida, em particular com os acontecimentos que não conseguimos controlar. Pelo meio algum debate histórico sobre a violência e a independência de Angola, que a meu ver não enriqueceram o livro e quebravam bastante o ritmo da leitura. Comparando com "As primeiras coisas" (que adorei), este trabalho mais recente do autor não está, de todo, ao mesmo nível, o que é pena. Creio que o livro teria ganho mais se a narrativa se centrasse na inevitabilidade do nosso rumo na vida, e até que ponto as escolhas que fazemos determinam o nosso futuro. Afinal, quantos João Jorges têm de morrer?
"Um dia, a meio da investigação, comprei o jornal da manhã e, sentado no café, li a notícia de um homicídio no Barreiro. A vítima era um rapaz de vinte e sete anos, residente no bairro. Estava num café perto de um descampado onde particulares e donos de stands exibem carros para venda. Alguém o chamou. Ouviram-se dois tiros e um carro a acelerar para a estrada nacional. O amigo que o acompanhava ainda o tentou socorrer, mas quando chegou perto do rapaz ele já estava morto. O jornal mostrava uma fotografia tipo passe da vítima. Reconheci o rosto. Lembrei-me dele em miúdo, gorro na cabeça, o mesmo sorriso. Foi morto por causa de uma dívida, um negócio que correu mal. Os amigos que aceitaram falar com a jornalista disseram que vivia de biscates e de esquemas, mas que era «bom rapaz». Garantiram que «não merecia um fim assim». E alguém merecerá? Esquemas e biscates, ocupações incertas, o mesmo desfecho. Em certa medida, continua tudo na mesma, as mesmas vidas, as mesmas mortes."
Estão reunidas as condições para termos um bom livro em mãos: escrita cuidada e fluída, uma boa história para ser contada e o sentimento de proximidade com o autor. Fui logo agarrada pela sua mão experiente e deixei-me conduzir sem pensar muito, reflectindo apenas quando o autor me chamava a contas - com citações, letras de músicas, finais de capítulos ou vozes de outros personagens.
Ao início a narrativa parece desenvolver-se rapidamente deixando no ar a promessa de uma viagem atribulada. De facto, a viagem é bastante atribulada e pelo meio dela contamos ainda com a ligação emocional do autor com a história que é parcialmente verdadeira (que parte dela o é, ficaremos sem saber). Esta é uma das minhas partes preferidas - esta ligação do autor com a história que nos é revelada aos poucos e do seu percurso como escritor. Gostaria que me tivesse contado mais acerca disto. (Fica aqui o pedido).
Achei também muito interessante (e uma sábia escolha) o facto de o autor ter colocado várias citações de outros autores ao longo da narrativa, à medida que os fios invisíveis iam sendo descobertos. Outra das coisas que gostei foi a aura de "mistério" que paira (e continuará a pairar) ao longo de toda a história, mas principalmente à medida que caminhamos para o final. Tive uma supresa nas páginas finais que me fez arrepiar e foi aí que tive a certeza que o João Jorge tinha mexido comigo. Continuarei a pensar nele como alguém que sinto próximo de mim.
As descrições da vida na margem sul nos anos 80 são impressionantes e é possível visualizar tudo o que é descrito. Fiquei com uma noção que não tinha acerca da pobreza e discriminação que ali se vivia (será que ainda se vive?). Não tendo nunca (ou quase nunca) convido de perto com estas situações foi algo que me revoltou e que me fez querer mudar aquele passado daquelas pessoas tão distantes de mim e que de alguma forma estavam sentadas ao meu lado enquanto lia a sua história.
Parabéns ao autor por tudo isto. Pelas relações entre todos os personagens tão bem descritas, por me ter ilucidado acerca de como se vivia, por revelar todo o seu percurso, por se ter arriscado a contar a história de um primo do qual pouco se lembrava e, sobretudo, por o ter libertado.
O que é que não me faz dar 5 estrelas a este livro? Neste caso tenho uma resposta muito objectiva, o que nem sempre é o caso. As descrições de Angola - por vezes feitas em forma de diálogo - são, na minha opinião, demasiado extensas, confesso que me aborreceram. Entendo que eram necessárias para contextualizar as personagens mas achei-as excessivas. As paragens que fiz na leitura foram apenas nestes momentos. Não há a menor dúvida de que estamos perante um grande escritor.
Em baixo transcrevo uma passagem fantástica em que o autor se refere à sua ligação com o pai.
"E a quem é que ele poderia dizer isto se não ao seu único filho homem, aquele que o poderia ter rejeitado, o único que, depois de tudo, ainda estava lá para o ouvir? Quem lhe aceitaria palavras tão secas se não precisasse tanto de as ouvir, de lhe beber a voz, a dureza, a secura e todo esse enorme amor errante, em trânsito, fustigado, corrido, escorraçado e tão, mas tão vivo e feio e árido e fecundo e podre e belo?"
Um acontecimento familiar no passado marca toda a narrativa que Bruno Vieira Amaral criou em Hoje Estarás Comigo no Paraíso. Com uma narrativa de excelência e com uma ótima qualidade a autobiografia une-se com a perceção dos factos sobre um crime que aconteceu há alguns anos atrás sobre um familiar, o primo João Jorge, que outrora lhe tinha sido próximo. Recorrendo a uma demonstração real e verdadeira dos factos, sem omissões, e com um poder de criação e descrição espacial muito boas, o realismo que é impresso nas palavras conquista o leitor que desde logo fica interessado em cada pormenor sobre a verdade dos acontecimentos, os locais e as pessoas que estão por detrás de um passado violento entre vidas que se foram cruzando num bairro onde as diferentes culturas conviviam para sobreviver. Tudo começa com a investigação pessoal em torno do assassínio de João Jorge, o primo. A partir do momento em que o passado começa a ser remexido, as memórias de infância e adolescência surgem provando que no presente convivemos com o que fomos anteriormente, onde os primeiros anos de vida contam e marcam de certa forma o futuro. Com uma mãe lutadora, um pai ausente que se julgou morto e num bairro pobre onde cresceu e foi aprendendo pelas ruas como é sobreviver em sociedade, Bruno Vieira Amaral não ousa sequer esconder o que foi sentindo enquanto percorre ruas, casas e estabelecimentos em busca de pessoas, documentos e causas sobre o que se terá passando na verdade sobre a morte de João Jorge. Fazendo uma descrição exemplar sobre os anos em que conviveu com a realidade onde João Jorge foi morto, tudo é recordado na primeira pessoa, desde a piscina improvisada pela Junta de Freguesia, aos atributos físicos de certas mulheres do bairro, às conversas de café, os almoços de Domingo, as alcunhas e o dia-a-dia que era vivido entre a comunidade. Fazendo um bom enquadramento histórico e temporal com a realidade de Portugal e de Angola a ser debatida, explicando assim a personalidade de algumas das personagens, recorrendo também à literatura e imprensa da época para relatar o crime do primo, Bruno Vieira Amaral não deixa nenhum recurso de lado, fazendo uso da cultura e dos acontecimentos reais para dar uma maior verosimilhança à sua obra. Hoje Estarás Comigo no Paraíso é um bom livro, de escrita limpa, sincera e elaborada de forma a tocar nos assuntos necessários sem cansar. Já havia lido comentários acerca da primeira obra de Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas, e também alguns artigos de opinião próprios pela imprensa nacional, mas é a primeira vez que tenho contacto com uma narrativa da sua autoria e deixem-me que vos diga que temos autor com um estilo bem próprio e eficaz com a sua noção de transparência, assim não se estrague e invente fugir do que está feito para enveredar por outros caminhos literários.
Em "hoje estarás comigo no paraíso" a morte é o motor da recuperação de toda uma vida de memórias, de existência num bairro que nos revela também um país e as marcas de ligação às colónias. Numa espécie de poder da ressurreição. Numa escrita robusta, não há verdade que se procura encontrar quando o autor incorre na investigação da morte do primo recorrendo aos processos judiciais, a testemunhos, a material jornalístico. Porque os acontecimentos, os factos, levam a muitas verdades, levam ao passado, à infância, à família, às personagens do bairro ou àquilo que foi sendo manipulado pelos contornos do tempo e não totalmente silenciado como a morte do João Jorge.
O autor vagueia e do livro apenas gostei da 3ª parte quase totalmente dedicada à vida do bairro. O restante é enfadonho e, não vislumbrei o que a critica tanto gostou neste livro. O 1º deste autor foi uma revelação, enquanto que neste 2º livro achei qu tentou fazer mais do mesmo mas com escassez de histórias acabou por não aprofundar nenhuma. Bruno Vieira Amaral terá talvez de sair do bairro onde cresceu e, criar personagens tão boas como a do seu romance de estreia, para eu ter a certeza que o lerei de novo. Custou a chegar ao fim e estive para o arrumar várias vezes.
Na contracapa de “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, por Bruno Vieira Amaral (BVA), podemos encontrar a seguinte apreciação por Pedro Mexia: “Bruno Vieira Amaral tem o génio do detalhe”. Concordo, mas vou mais longe. BVA “tem o génio do detalhe” e o génio das coisas maiores, das grandes narrativas coletivas, concretizando-as nas pequenas histórias de personagens comuns. É assim que, no novelo deste livro, com um enorme pendor autobiográfico, se cruzam vários planos, histórias ou narrativas: a de João Jorge, o primo assassinado, cuja investigação levada a cabo pelo autor-narrador, leva este último a reviver a sua própria biografia. Mas surge também a história coletiva dos retornados, o grande Êxodo português que Abril trouxe, esquecido e remetido para os rodapés da História, mas que BVA recorda, de forma cruenta e rija. É com muita arte que BVA reconstrói o drama e as contradições que vive quem, expulso de um lado, não foi colhido no outro, tendo deixado para sempre a sua identidade suspensa, pendurada, algures entre Luanda e os arrabaldes de Lisboa. Aparece também a narração da epopeia de sobrevivência dos subúrbios da Margem Sul, numa sucessão de histórias e personagens que, com a mestria do autor, compõem o cenário de fundo da história que BVA nos conta. Por fim, num plano ainda maior, há dramas tão comuns à natureza humana (para aqueles que acreditem em tal coisa): as vicissitudes da relação entre Pai e Filho, o puzzle estilhaçado em que a nossa identidade se forja e a reflexão sobre o papel que o livre-arbítrio pode desempenhar nas nossas vidas. Um grande livro e um enorme autor!
Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral, foi uma leitura que me conquistou do princípio ao fim.
Com uma escrita de enorme força descritiva, o autor transporta-nos para o Vale da Amoreira, a Baixa da Banheira e Vila Chã, lugares com identidades muito próprias, frequentemente desconhecidos de quem nunca os viveu. Ao mesmo tempo, faz-nos mergulhar na realidade dos anos 80, marcada pelas profundas transformações sociais, pela chegada de milhares de famílias vindas das ex-colónias, pela precariedade, pela construção de novas comunidades e pelos desafios da integração. É um retrato vivo de um tempo e de um país em mudança, onde o multiculturalismo, a pobreza e a esperança coexistem no quotidiano.
Em paralelo, Bruno Vieira Amaral leva-nos até à Luanda do pós-independência, cruzando a História com as suas memórias familiares. Abre-nos a porta da sua intimidade com uma honestidade rara, partilhando recordações tão pessoais que, por momentos, sentimos que estamos a invadir um espaço que não nos pertence.
É precisamente esse equilíbrio entre a memória individual e a memória colectiva, entre a autobiografia e o retrato social, que torna este livro tão especial. Um livro que nos ajuda a compreender melhor Portugal dos anos 80 e a herança deixada pela descolonização, sem perder nunca a dimensão profundamente humana das histórias que conta. Uma leitura intensa, sensível e memorável, que permanecerá comigo por muito tempo.
"... Arranjara um sistema diário de hábitos e rotinas para que qualquer vizinho desse pela sua falta. Um corpo a apodrecer em casa e os vizinhos a queixarem-se do cheiro era toda a baixeza humana, o último grau de humanidade, a solidão absoluta." -pág. 40 "... Há em certos empregados de mesa indícios de crimes antigos ou de homicídios nunca concretizados, uma miopia, um ódio deslocalizado que faz deles, a um tempo, ridículos e temíveis - os homens aparentemente ridículos têm sempre algo de perigoso." - pág. 52 "...o que é belo, a meu ver, é precisamente a inutilidade, esta forma gentil e civilizada de passar uma vida entre livros sem a desvirtuarmos com propósitos mundanos e utilitários." - pág. 88
Este livro está muito bem escrito. Enquanto tenta descobrir quem matou o primo João Jorge, o narrador viaja até à sua infância no bairro operário do Barreiro e revisita-o e aos seus habitantes. A certa altura, tudo se mistura um pouco e tornou-se algo confuso. Na sua investigação, descobre outros aspetos da família, conhecidos trazem-lhe histórias e o regresso quotidiano ao Barreiro parece cimentar a realidade atual e o facto de a morte do primo ser algo que o vai acompanhar. Gostei da escrita. A estrutura cansou-me um pouco.
Trabalho seríssimo de escrita. A narrativa vai-se revelando na medida certa, em crescendo. Nem um floreado a mais, nem receio de expôr feridas, dúvidas, dores nem lampejos de beleza, à espreita e à espera de um olhar atento. Não sei se concordo que toda a ficção procura resgatar alguém do mundo dos mortos porque este livro, em concreto, é muito mais sobre os vivos. Também não sei se é ficção e não importa.
"Talvez a infância seja uma espécie de loucura benigna ou então talvez a loucura seja uma espécie de infância inaceitável" sempre achei que a grande maioria das pessoas da Margem Sul são filhos de lado nenhum. Somos todos uma mescla de proveniências, o meu pai de Viseu, a minha mãe de Entradas - todos resultados de um norte e sul que acabou por se cruzar nessa terra de ninguém. Quando me perguntam de onde sou continuo sempre a dizer que sou uma alentejana desterrada. O Bruno Vieira Amaral tem esta capacidade de me fazer criar raízes: quando o leio sinto que esta que sou não é apenas a filha do nortenho com a alentejana mas alguém que faz parte de uma terra com uma identidade própria. Esta terra é diferente, uma terra em que a mistura étnica é existente mas onde a riqueza cultural pode criar fantásticas pessoas (e muitos dos mais fantásticos que tenho são de lá). Após ler o segundo livro do Bruno continuo a achar que a capacidade de detalhe e de tradução das imagens em palavras dele é poderosa mas mais que tudo, tenho de dizer, ao jeito do que diria o João Jorge "cuidado que eu sou da Baixa da Banheira".
Entre o livro e o leitor há sempre um espaço que é preenchido pela forma como o leitor vive o livro, como este o toca mediante a sua própria experiência de vida, remexendo em memórias e conceitos que cada um contém aquando da leitura. A empatia entre o livro e o leitor cresce quando a voz do escritor se confunde com a do próprio livro, e se essa é a receita mais fácil para se criar um livro cativante desde a primeira página, embalados que somos pela conversa intimista estabelecida connosco, por seu turno expõe o escritor mais rapidamente à prova maior perante o leitor: a sua aceitação. Bruno Vieira Amaral vai longe na envolvência com o leitor neste livro. Tomando como ponto de partida a investigação sobre o homicídio do primo João Jorge, ocorrido na sua infância, o romance vai-se construindo sobre múltiplas memórias, tanto dessa infância e da adolescência, como dos seus familiares e contemporâneos em retalhos marcantes das suas histórias, vagueando entre factos e ficção, construindo uma coerência que se cimenta numa aura de mistério e hipóteses fugidias, certezas aparentes e verdades cobertas de névoa. Somos embalados de tal forma que a partir de determinado ponto já pouco nos importa a maior frequência dos saltos dados nos vários espaços da narrativa à medida que o livro avança, encantados que ficamos na voz que chega ao ponto de partilhar a escrita do próprio livro – afinal, parece que estamos ali mesmo ao lado dele, a participar no livro com ele, a deixarmos que a magia com que o escritor evoca as suas próprias memórias se confunda com o universo das nossas, e assim as reconstruímos, tal como tantas vezes o fazemos involuntariamente. E sentimos assim que os fragmentos remotos daquilo que nos lembramos pautam e influenciam a nossa existência de forma mais rica do que possamos supor. A fragilidade do nosso crescimento é impiedosamente fustigada pela realidade e pelos acontecimentos por que passamos. Percurso que marca cada um de maneira diferente, comum é o lastro nostálgico daí resultante, parte basilar da nossa identidade, e fonte do mistério que somos uns para os outros. A escrita de Bruno Vieira Amaral traz à superfície o vão esforço que cada um de nós faz para criar uma vida com sentido, tantas vezes moldada pelas circunstâncias e pelos acasos tornados hábitos e convicções, desembocando num emaranhado de memórias que tanto nos pode fazer parar no tempo como ser a chama que contribui para o nosso futuro.
Logo nas primeiras páginas de Hoje Estarás Comigo no Paraíso, o escritor português Bruno Vieira Amaral partilha uma admiração que revela uma pista sobre o que o leitor pode esperar de seu livro. O narrador, o próprio Bruno, em primeira pessoa, afirma que, ao ler o clássico Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, lamentou que o livro fosse tão breve. Inspirado no modelo do colombiano, Amaral tenta remontar uma morte em particular de seu passado familiar, a de seu primo João Jorge, um parente distante que foi assassinado aos 21 anos, nos anos 1980, quando Bruno tinha menos de oito anos e ainda era criança demais para guardar o episódio na memória com detalhes.
Os boatos que circularam após a morte de João Jorge, um jovem enérgico, voluntarioso e de uma rebeldia beirando a marginalidade, supostamente apresentavam a versão de que ele fora flagrado em um campo tentando roubar porcos, e fora estripado com a própria faca que usaria para consumar seu crime. O livro é uma longa e tortuosa tentativa do autor Bruno Vieira Amaral em reconstruir não apenas o crime que abreviou a vida de seu jovem primo, mas reconstituir a própria vida desse parente que para ele assume ares míticos.
Entrevistando familiares, amigos, vasculhando arquivos, Bruno, autor e narrador da história, recupera também, em digressões cada vez mais amplas, a atmosfera da vila de sua infância, Barreiro, localizada diante de Lisboa, mas na margem oposta do Tejo. Também revisita histórias e relações de sua família, com laços com a África colonial, país de origem de seu avô e do próprio João Jorge. Acima de tudo, ele vai percebendo a cada novo esforço que, por mais que escave o passado, a narrativa tem lacunas demais para serem preenchidas com a prosa segura e plena de certezas de um García Márquez. Foi mesmo um abigeato o motivo da morte? Ou uma suposta relação amorosa do sedutor João Jorge com a mulher do homem que o matou? Aliás, quem foi esse homem? Seu crime chegou a ser julgado? Cada nova descoberta amplia o leque de perguntas
É difícil catalogar “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, de tal forma se constitui numa imensa parábola bíblica sobre a condição humana. A sua dimensão espiritual não se resume ao título, antes se espalha pelas páginas do livro, recuperando histórias da Bíblia, citando as Escrituras ou transpondo um certo imaginário religioso para as personagens, elevando-as aos céus num sopro de redenção ou, mais frequentemente, fazendo-as perigar à beira do abismo, até se perderem irremediavelmente numa eternidade feita de trevas e ranger de dentes. É um livro que nos leva por caminhos insondáveis, ao encontro de pessoas, lugares, acções que, sendo de outros, são nossos também. Um livro que nos confronta com aquilo que temos de mais obscuro, de mais dificilmente explicável e em relação ao qual as respostas se fundam no domínio da fé.
Partindo dum todo, “Hoje Estarás Comigo no Paraíso” é um livro que se vai fechando sobre si mesmo, até resumir o seu universo ao de uma figura apenas, Bruno Vieira Amaral, ele próprio, autor e narrador do livro. É este o desfecho dum projeto baseado na investigação da morte dum primo, João Jorge Rego, barbaramente assassinado numa noite de Fevereiro de 1985, tinha o escritor 6 anos de idade. Um livro que bascula entre o real e a ficção, fundindo frequentemente ambos os conceitos. E também um livro que é como uma liturgia, ao transpor para o momento presente um ritual de entrega e sacrifício para a salvação da Humanidade. Na qual o autor se inclui. E nós com ele!
“Hoje Estarás Comigo no Paraíso” é uma “via dolorosa”, a qual Bruno Vieira Amaral aceita percorrer, apesar da dúvida (“Estaria preparado para os obstáculos e, acima de tudo, para as revelações que haveriam de surgir com o tempo?”, interroga-se o autor a páginas tantas). Dos primeiros anos num bairro da Margem Sul - Sodoma e Gomorra dum tempo hoje - às hortas a caminho da Vila Chã, onde João Jorge foi morto, é todo um caminho de duras revelações que vai sendo trilhado. Vertendo para o romance o fruto duma memória prodigiosa (ou será esta memória apenas uma “engenhoca”, a parte ficcionada dum trabalho exaustivo de investigação e pesquisa?), o escritor caracteriza, com detalhe de retratista, um universo de personagens bem reais, visitando lugares que acabarão por se estender muito para além das margens do bairro e que irão desembocar numa Angola em permanente convulsão. Em busca da redenção, as revelações serão como açoites, os espinhos cravar-se-ão cada vez mais fundo na carne. Mais forte do que todas as dúvidas, restará, no final, uma certeza. Caberá ao leitor entende-la e acreditar nela!
Empezó muy bien. La primera parte que alterna historias de su infancia en Barreiro y las andanzas de João Jorge (personificando un joven cualquiera del barrio) están muy chéveres pero luego fue quedando sin ritmo y se perdió en muchas, muchísimas divagaciones (tantas que comencé a pasárlas en diagonal) sin llegar a ningún lado. -ay con los escritores que empacan en sus novelas sus verborreas filosóficas mentales-
No da muchas ganas de buscar más libros del mismo autor.
A partir da principal trama, desenvolvem-se outras histórias pessoais, da família, dos amigos ou de Angola. Essa rede, torna o livro cada vez mais complexo e fastidioso de se ler. Nada a apontar à prosa, mas sim ao prazer em ler o livro, que na sua metade torna-se mais político. O que mais gostei foi o epílogo. Existe uma linha muita tênue que separa a realidade da ficção, tornando-o cativante e desafiador. Um livro que agradou apesar dos problemas enumerados. Vencedor do prémio José Saramago.
Neste segundo romance Bruno Vieira Amaral regressa à Baixa da Banheira e às memórias de infância, em busca da história por detrás do assassinato do primo. Preso a um fascínio que não consegue explicar segue o ímpeto de registar o sucedido em livro. Esta escrita redime os atos, eleva-nos, preenche vazios e substitui afetos, reinventa-nos na história particular de cada um. De forma sublime.
A nossa memória e a forma como "vêmos" as coisas passado um tempo está bem patente neste livro. Não sendo dos meus favoritos, nem sequer aborde um tema facil, foi bastante agradável de ler