Um clássico da literatura brasileira contemporânea, "Feliz ano velho" em edição conjunta com "Ainda estou aqui", novo livro de Marcelo Rubens Paiva"Feliz ano velho" é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce "de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas".Trinta e cinco anos depois de "Feliz ano velho", Marcelo Rubens Paiva volta a escrever sobre a sua história em "Ainda estou aqui". Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar — e tentar entender — o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.
Escritor, dramaturgo e jornalista, estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, freqüentou o mestrado de Teoria Literária da Unicamp e o King Fellow Program da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Publicou cinco romances: Feliz ano velho (1982, Prêmio Jabuti), Blecaute (1986), Uabrari (1990), Bala na agulha (1992) e Não és tu, Brasil (1996). Publicou também o livro de crônicas As Fêmeas (1994). Foi traduzido para o inglês, espanhol, francês, italiano, alemão e tcheco. Como dramaturgo, escreveu: 525 linhas (1989); O predador entra na sala (1997); Da boca pra fora; e aí, comeu? (1999, Prêmo Shell); Mais-que-imperfeito (2000); Closet Show (2001); e No retrovisor (2002).
O autor escreve muito bem e narra a história incrivelmente dolorosa e angustiante com maestria. Um conteúdo muito doloroso para brasileiros e outros países da América Latina.
Feliz Ano Velho: É um livro de fácil leitura e com um estilo de escrita livre, bastante jovial e honesto. Trata-se de um relato autobiográfico do acidente que deixou o autor e jornalista, Marcelo Rubens Paiva, tetraplégico após pular de cabeça em um lago raso quando vivia em São Paulo. Tem tudo para ser um livro triste e miserável, que relata a idiotice de um jovem impetuoso, cheio da exuberância da juventude de classe média da década de 70 e que, repentinamente, descobre-se confinado à uma cama de hospital e, posteriormente, à uma vida inteira como deficiente físico. Gostei bastante dos relatos da juventude daquela época, principalmente a forma com que o autor descreve o jovem-homem que era, sem a vergonha de expor seu machismo e preconceitos, típicos da época. Somos, com certeza, frutos da nossa geração. Interessante notar também o conservadorismo das famílias contrastando com a curiosidade liberal dos jovens que consumiam drogas e não escondiam que queriam mesmo é rock'n roll e sexo, incluindo as jovens mulheres. Falar disso abertamente hoje em dia ainda é um tabu e, por isto mesmo, este livro ainda parece relevante no Brasil de hoje. Por vezes questionei a atitude extremamente positiva do jovem que teve a sua vida arrancada em um acidente estúpido. Porque ele não reclamava mais? Não odiava tudo e à todos? Cadê o ressentimento tão característico nestes casos? Creio que o autor não queria fazer deste jovem, um herói que aguenta tudo. Talvez, tratava-se mais de uma atitude de negação diante da grande tragédia da vida dele. A grande crítica que faço é em relação ao final do livro, que termina de forma muito abrupta, sem deixar absolutamente nada mais ao pobre leitor. É como se alguém tivesse arrancado as últimas páginas, evitando assim, o conhecimento de um possível desfecho. Talvez o próprio jovem escritor não conseguia materializar no papel uma ideia de futuro de vida. A consolação que tenho é que já sabemos que o jovem infortunado e tetraplégico tornou-se um jornalista e escritor reconhecido em nosso país.
Ainda Estou Aqui: Para este livro eu reservo 5 estrelas. Fiquei tensa, chorei, tive raiva e sofri junto à família Paiva, principalmente à sua matriarca, Eunice Paiva. Tudo isso em um só livro que relata apenas uma das tristes histórias de famílias que tiveram seus entes queridos arrancados de suas casas, torturados e mortos. É inacreditável precisarmos educar adultos de hoje sobre aquele tempo histórico de violência e censura extrema do país. Enquanto houver negacionistas que desejam reescrever a História, mais relevância terá relatos como este da família Paiva. Quanto à Eunice Paiva, seria muito fácil e piegas descrevê-la como a heroína-mãe que crious 5 filhos. Mas, ao contrário, seu filho a descreve como uma "anti-heroína", um ser humano com limitações, mas com uma capacidade impressionante de rever, moldar e viver uma nova vida. Muitas mulheres não têm a oportunidade ou a obstinação de Eunice para reescrever a própria história sem a dependência de uma figura masculina, mesmo nos dias de hoje. Então, a nossa anti-heroína traz uma importante mensagem para as mulheres viverem a vida que desejarem, não aquela que a sociedade ou os maridos ditarem. E aqui está o paradoxo da nossa anti-heroína: por vezes presa em ritos e regras sociais, mas por tantas outras vezes livre, para mudar de cidade, retornar aos estudos e criar uma nova existência para si mesma. O desfecho de Eunice não é um merecido "final feliz". A vida é dura, foi dura com Eunice e será dura para todos nós, sujeitos à eventos aleatórios, sem explicação ou razão de existir. O que fica de mais importante para mim neste livro, não é a morte que será sempre indigna quando se envelhece, mas sim a intensidade em que se viveu uma vida, breve ou longa que seja. E Eunice viveu muito!