Faltava muita coisa no apartamento 402. Mas sobravam muitas outras: caixas de papelão, bandejas de isopor, cacarecos, baratas, cupins, muriçocas, poeira, copos sujos. Abigail, Berta e Lúcio formam um trio nada convencional. Duas adolescentes dividem o apartamento com o pai, um homem amoroso, idiossincrático, acumulador, pouco afeito à vida prática, que torce para que a morte venha logo lhe buscar e dá conselhos incomuns às filhas: "É muito bom sentir fome". Os tais caquinhos é um romance de formação trágico e comovente, capaz de arrancar risos nervosos. Ao descrever o dia a dia de uma família simbiótica em meio à cordilheira de lixo que só faz crescer, Natércia Pontes desenha um fascinante retrato de três pessoas que buscam conviver com seus sonhos e suas fantasias, suas manias e seus anseios, seus medos e suas revelações.
Lúcio chegava ao pé da cama repleta de livros e pastas grossas e folhas plásticas e caixas vazias e palmilhas e cartões-postais e contas e cadarços sem par e agendas e convites e retratos e rolos de papel-jornal e calçadeiras de sapato e calendários e lembrancinhas de festa de aniversário. Tudo arrumado de uma maneira tortuosa, à deriva, embora seguisse uma linha quase harmônica, um caminho de formiga. Sobrava um pequeno espaço para Lúcio dormir.
O ponto de partida, uma adolescente que vive com a irmã e o pai numa casa cheia de tralha, era promissor, mas “Os Tais Caquinhos” anda em círculos, sendo mais um romance de formação, que parece ser o tema das minhas leituras ultimamente. Lúcio é um acumulador que, depois de ter sido abandonado pela mulher que levou os filhos mais novos, ficou a viver com duas filhas adolescentes. Não é apenas uma história de insalubridade, mas também de fome e de negligência. Sem controlo parental nem o mínimo de orientação, a protagonista fala de encontros sexuais que revelam a sua carência afectiva e vulnerabilidade à violência. Parece-me que as novas autoras contemporâneas brasileiras estão a abusar das histórias de crianças e adolescentes contadas na primeira pessoa, o que às vezes dá jeito para disfarçar a falta de estrutura e de esmero na escrita.
Uma vez, depois de não termos almoçado por mais um dia e de termos telefonado para Lúcio e recebido a sábia lição de que, sim, era muito importante sentir fome, Berta bufou porque não conseguia achar uma saia jeans. (..)Foi aí que ela abriu as gavetas quebradas da cômoda e tirou enfurecida todas as minhas peças de roupa, incluindo calcinhas encardidas e fitilhos avulsos e meias sem par e biquínis frouxos, então pegou toda a montanha de roupas e, como um estivador enérgico, lançou cada uma delas pela janela, quatro andares abaixo.
A entropia muito me interessa, cada vez mais. Digo o tema em si. O caos emocional, o da sociedade, do universo. A entropia aqui representada num drama de uma adolescente com a chegada da vida adulta e a chamada à responsabilidade surgindo. É um caos crescer e sobreviver nesse mundo. Onde conseguir o controle? O livro faz essa metáfora do caos de uma sociedade 'pós moderna' e materializa esse caos numa casa de um sujeito acumulador. Acumula na busca de um um sentido e significado, tenta se prender e não descartar nada que possa ser sólido. Juntar os cacos nesse mundo muitas vezes é dolorido, mas é na dor que costumamos nos orientar. Mas não se enganem, no caos o mar sempre vai voltar a ter ressacas.
A sujeira é a grande protagonista no começo do livro, o que me lembrou muito o filme alemão Zonas Úmidas, de 2013. A partir do meio a sujeira vai cedendo espaço pra uma tristeza disfarçada. No fim achei um livro muito bonito (e triste e nojento e poético).
Que livro peculiar. Não há ordem no caos, não há ordem na narrativa/história e ainda assim, de alguma forma, a leitura se faz agradável.
Contando um pouquinho da vida (ou sobrevivência) de Abigail, a autora imerge o leitor na obscuridade de um cotidiano decadente, triste e angustiante. Não falta ar somente no apartamento de Abigail, falta também em suas palavras, no sentimento que a assola, no que ela não consegue exprimir, na dor da perda e de tudo aquilo que é sua vida e seus relacionamentos, fazendo com que se assemelhe a obra O Rei de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez, que é uma amostra palpável do caos.
Não sei se entendi tudo o que a autora propõe, mas o que entendi gostei. Fica a recomendação, mas é bom ir com cuidado, não agradará a todos.
não é só uma capa bonita, que livraço! em um cenário caótico, insalubre(!), nós somos levados para o mundinho de Lúcio, Berta e Abigail (nossa narradora em grande parte dos “caquinhos”). Natércia Pontes foi muito habilidosa na construção de imagens, aparentemente banais, em linguagem poética
Um romance fragmentado, com um título apropriado. Lúcio, o pai (?) e duas filhas vivendo em um apartamento caótico, entulhado, sujo.
Adorei as descrições, até mesmo as escatológicas (as baratas! o cheiro das baratas!!!), causam repulsa mas atração de entender todo esse caos. Adoro como experiências cotidianas e banais são universais, gostei de encontrar isso na leitura.
Tenho amado ler livros narrados por pré adolescentes, essa coisa de estar na intersecção da infância/vida adulta, cheia de descobertas, dos escapes dos sofrimentos, dos sonhos.
Gostei bastante do estilo da Natércia, que consegue imprimir uma marca bem distinta. A prosa exala odores e acomete os sentidos do leitor (acho que essa descrição vai virar um clichê nos reviews desse livro) - e me deixou curioso para ler outras obras da autora (passadas e futuras quem sabe).
Os fatos de eu ter passado infância e adolescência na Fortaleza da época, ter compartilhado o gosto musical dos personagens (e usado camisetas de banda), ter horror a barata e louça suja, e ainda ter morado em um apartamento 402, geraram em mim um estranho afeto com o livro.
Finalmente, não lembro de já ter visto em nossa literatura nacional uma cena de mela-mela de carnaval registrada de maneira tão lírica:
"Enquanto virávamos as bebidas quentes em copinhos descartáveis, uma nuvem de maisena pairava sobre nossos corpos elétricos"
Uma leitura incrível – ao mesmo tempo em que não conseguia parar de ler, eu queria saborear lentamente cada passagem. Achei muito nojento ler algumas descrições, em especial a menção constante do "cheiro doce de baratas" mas tudo é incrivelmente bonito e bem escrito. Muito bem escrito.
Cada passagem curta é um avanço na narrativa e eu fiquei muito curiosa pra entender onde a Abigail ia me levar. A história fala dela, uma menina de idade escolar que narra suas aventuras pra gente.
Uma leitura rápida, enfeitiçadora, repugnante e maravilhosa – além de ser feita no brasil por uma mulher. Muitos vivas!
Toda a questão da sujeira, desordem, caos e abandono não incomodou mais do que a sensação de não haver um desfecho ou uma explicação sobre a origem de toda a bagunça. Eu gostei do livro, mas senti falta dessa costura final. No mais, senti toda a nostalgia da adolescência dos anos 90, que, por si só, já foi bem nonsense. Vale a pena ler para prestigiar autores nacionais contemporâneos que verbalizam a vida de forma tão familiar.
Que baita surpresa esse livro! Um retrato de uma família onde falta muita coisa e ao mesmo tempo não falta nada. Um retrato de adolescentes rockeiros nos anos 90 em Fortaleza. Muitos temas pesados e difíceis escrito de um jeito direto e por-que-não fácil. Amei amei amei
Não sei bem o que eu esperava desse livro. Foi difícil de digerir. A história se passa em uma Fortaleza dos anos 90, narra a vida de uma família disfuncional que vive em um apartamento caótico, pra dizer o mínimo. Acho que faltou um fecho, informações, enfim. Eventualmente a leitura me tocou, mas não emocionou.
Que estranho que existam tantas pessoas que já foram dentro das pessoas que já são e que essa composição do passado + presente + futuro na possibilidade do vir a ser seja um mistério irresoluto. O que nos trouxe ao apartamento 402? O que as coisas guardam de memória e por que esquecer é um medo tão latente? E por fim, “quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo?” (Antonio Cícero).
agora eu entendi que os tais caquinhos são do meu coração despedaçado depois de ler esse livro aqui disparado uma das minhas leituras favoritas do ano, é dolorido e divertido e muito bem escrito, fica aqui como lembrete pra mim de ler mais literatura brasileira contemporânea ano que vem a deterioração e acúmulo do pai (que é mais lúcio que pai) é uma representação perfeita do abandono e negligência e de despedaçar ver os desejos tão simples e honestos daquelas duas meninas, da abigail que até o meio do livro não é nomeada
que livro bem feito!!! a descrição das doçuras das baratas, da sujeira das roupas, do fedor e do abafado, da vergonha de não ter um sofá e dos sentimentos da personagem são cortantes o que mais dói é sempre simples e direto, sem firula nenhuma quando se tenta escrever uma literatura menor e baixa, muitas tentativas são falhas, mas uma adolescente que lava a orelha sangrando que entrou um bicho nojento dentro e sofre uma perda pensando que ao menos as baratas sobrevivem é o peso sujo que falta na literatura. livrão!!!!!! prendia o ar lendo algumas páginas, a falta de virgula, os erros de linguagem, as conversas sem travessão engalfinhadas no fluxo do mar morno
a cena em que ela elenca tudo o que é perfeitamente plausível que uma jovem não tenha me doeu.
Para quem cresceu no Nordeste (no meu caso, em parte), esse livro descreve cenários e sensações de maneira muito fiel. As metáforas e adjetivos usados pela autora constroem ambientes muito acessíveis a mim. É admirável conseguir fazer isso.
Achei o livro triste, triste, triste. Preciso de um filé à Oswaldo Aranha.
A epígrafe do poeta Antonio Cicero soa como um desafio (“Pra começar/ Quem vai colar/ Os tais caquinhos/ Do velho mundo?”), mas talvez sirva mais como um norte, tanto que é repetida ao final — num procedimento incomum —, como uma forma de relembrar ao leitor o que tem nas mãos. Porque o romance Os tais caquinhos, de Natércia Pontes, de fato se compõe em torno da tentativa por parte da narradora-protagonista de reconstituir, a partir de fragmentos, um mundo que deixou de existir. O mundo em questão é um microcosmo, mas nem por isso simples de mapear — um apartamento habitado por um pai e duas filhas, infestado de baratas, umidade e mofo, atulhado de tranqueiras, mas com pouquíssimas das coisas necessárias para sustentar uma existência de classe média.
Mas, se por um lado o território se mostra instável e movediço demais para ser reconstituído com exatidão, por outro sua instabilidade se revela um trunfo narrativo — a desordem do ambiente físico se reflete no universo mental dos três personagens: o pai acumulador (ora atento, ora omisso) que, sempre que se aproxima do possível trauma que desorganizou sua existência, se esconde atrás do escudo de um desejo de morte expresso aos berros; a irmã mais nova, que se refugia dos destroços da vida doméstica na convivência com as amigas, procurando manter o maior distanciamento possível; e a narradora-protagonista, que ora cai na imobilidade sugestiva de um estado depressivo, ora se refugia na sexualidade exacerbada talvez indicativa de um estado maníaco.
O que se encontra na leitura, porém, não é essa tentativa de traçar perfis psicológicos fáceis dos personagens, e sim uma espécie de arqueologia do caos — tanto em termos estilísticos (com a narradora usando frases de seus breves capítulos para nomear os outros e torná-los ainda mais entranhados uns aos outros), como em termos narrativos, com uma trama que chega a parecer inexistente até o momento em que um acontecimento-chave eleva o nível de tensão até gerar a explosão que vai deixar apenas os fragmentos a ser juntados em um romance-mosaico que se vale do sensorial para transmitir tudo aquilo que o racional e cartesiano jamais seriam capazes de comunicar.
A temática do livro é interessante, o desenrolar da história, quando se desenrola, envolve. Porém a história anda em círculos. A escrita é feita pra incomodar e gera os sentimentos que se propõe, mas não me pegou pelo formato.
A miséria, a fome e a pobreza são assuntos do romance, mas não através de um retrato social realista. Aqui essa situação de penúria material se traduz em uma linguagem forrada de descrições de cômodos de uma casa que parece um aterro sanitário, insetos, animais gosmentos, secreções, corpos sujos, objetos danificados e muita podridão. Os personagens são poucos. Lúcio, o pai, Berta, a irmã, e Abigail, a jovem narradora. Além deles, alguns amigos ocasionais e namorados. O resto é incerteza. O romance prefere abandonar a exatidão e nos colocar em um lugar irreal, em uma posição em que por vezes não sabemos o que é fato concreto ou apenas imaginado. Uma narrativa desse tipo, aparentemente, faria questão de tornar a representação de seus “tipos” muito clara, demarcaria bem a classe social a qual pertenciam, a posição simbólica que ocupam. Mas a escassez do mundo das personagens se expressa em uma linguagem que nos reduz ao mínimo. O pai possui um emprego estranho. As meninas estão na escola. O grande drama do livro envolve uma gravidez na adolescência? Sim e não, visto que o que realmente importa são as descrições que nunca deixam de ser também narrativa, a edificação de um mundo cuja geografia não se preocupa em empalmar com referências ao Brasil real.
As jovens da narrativa são fãs de bandas de Heavy Metal. Poderíamos encarar os capítulos curtos como canções rápidas do Napalm Death. São episódios sujos, agressivos, desnorteantes, viscerais. Mas a narrativa reúne esses blocos ágeis em um painel maior, que desenvolve imagens que vêm e vão. Dessa perspectiva, o romance como um todo parece uma longa faixa de um disco de drone ou doom metal, com acordes que continuam ressoando muito além das páginas em que são executados.
Abigail se alimenta de colheradas de nesquik ou de sal para aplacar a fome, chupa gelo como se fosse uma iguaria cara, recebe de presente das vizinhas ovos para comer, mas também conhece Ozu — o que gera uma série de provocações e nos leva a atentar para a disjunção temporal do capitalismo, onde signos da alta cultura podem conviver normalmente com a fome e a ausência de recursos; mas ao mesmo tempo perturba o leitor a respeito de que mundo é aquele que lhe está sendo oferecido. O fato é que tudo parece degradado, mesmo a casa de praia que poderia ser uma saída e uma escapada momentânea torna-se apenas um lugar em que o lixo, a violência e a putrefação continuam. Eventualmente o pai, Lúcio, leva as filhas para um restaurante de classe média, mas logo percebemos as dívidas, a situação econômica difícil. As explicações não são definitivas: Lúcio é um louco, acumulador? É tudo um delírio ou uma visão distorcida da realidade, da parte de Abigail? Que mundo é esse? No final o romance parece oferecer a resposta de que a disfuncionalidade é fruto muito mais da loucura e da inaptidão de Lúcio do que especificamente de uma situação econômica, trechos da obra constroem a sugestão de que provavelmente Lúcio quedou-se imobilizado e incapaz de dar atenção às filhas após sua esposa ter desertado da família. Ainda assim, a desorientação ao longo da leitura é forte, por vezes deixando o leitor em um vórtice, sem saber exatamente que casa é essa que lhe foi oferecida, que terreno é esse que está pisando. A graça da narrativa é que é por meio desses silêncios e indefinições que a poética da obra vai se tornando mais agressiva e contundente, sem se preocupar em delimitar as fronteiras entre o que seria real e ilusório. É tudo ilusão, linguagem, e só assim portanto é que podem realmente tocar no real. A linguagem de Os tais caquinhos apresenta uma forma de tocar na miséria e na vertigem que é viver na base da pirâmide social, ou no meio do caos que é pertencer aos estratos mais baixos dessa ficção política que no Brasil chamamos de classe média, onde a insegurança convive com um senso de não pertencimento temporal, onde os marcadores e signos estão embaralhados. Por meio desses recursos narrativos se constrói uma poética para o presente, para o capitalismo tardio, para a barbárie.
Em várias entrevistas que deu sobre o livro Natércia Pontes fez questão de frisar o quão acumuladora é Abigail, sua personagem narradora. Aglutinando cartas, listas, mensagens, anotações, folhas de diários e registros diversos para compor seu mundo de cacos e detritos. É interessante porque esse gesto “colecionador” dá à narradora/personagem uma posição demiúrgica, fazendo com que todo registro esteja sempre filtrado por sua voz narrativa (quando lemos a carta ridícula do ex-namorado agressor neozelandês, estamos em um registro ambíguo, no qual podemos estar muito bem lendo uma Abigail que troça de seu antigo relacionamento). Natércia também propõe a leitura de seu livro como um romance de formação, no qual Abigail afirma a si mesma como escritora ao mesmo tempo em que atravessa essa estranha adolescência. Pode ser muito sugestivo comparar os Tais caquinhos com outros romances de formação de personagens urbanas de nossa história, como Perto do Coração Selvagem ou Ciranda de Pedra. Penso que nessa comparação o que se ressalta na obra de Natércia é o caráter escatológico e agressivo da linguagem e a desorientação narrativa geral. É um romance de formação sujo, podre, em contraste com a limpeza e claridade dessas outras obras de Clarice e Lygia, além do foco em um espaço narrativo subjetiva e objetivamente novo, demarcando um outro tempo e um outro espaço dentro do Brasil e uma outra forma de narrar e representar o espaço doméstico, cruzando temporalidades e entrelaçando tempos e posições simbólicas rumo a desintegração, em uma narrativa que é apaixonada pela entropia.
Quando você tá passando de carro pela cidade à noite, e imagina o que se passa nos quadradinhos de luzes amareladas dos prédios. Que cotidianos, pequenos, dolorosos ou incríveis se passam por lá? Pessoas colando seus próprios caquinhos. É como se a Natércia me desse uma escada pra observar o quadradinho da protagonista, ora assustadoramente próximo, ora assustadoramente distante do meu.
Nem todo livro fácil de ler é bom. “Os tais caquinhos” não é uma coisa nem outra. Se fosse possível eu gostaria de recuperar as horas de vida que perdi lendo esse livro.
Quantos livros sobre adolescência já foram escritos da perspectiva de um jovem excluído e que sente todas as suas emoções de forma muito intensa e, muitas vezes, até exagerada? Pois é, Natércia Pontes aqui deixa o "livro sobre adolescência" de lado e faz o seu "livro com adolescente", onde ser adolescente não é exatamente a questão. Aliás, qual seria a questão de Os Tais Caquinhos?
Acompanhar a vida suja, caótica, preocupante e comum de Abigail, sua irmã mais nova, Berta, e o pai delas, Lúcio, é incômodo a ponto de o leitor não saber onde está se metendo mesmo tendo lido a sinopse e se interessado pelo romance. Classificação também que pode parecer inadequada ao livro de Natércia, porque, na verdade, as 144 páginas mais parecem um compilado de contos expostos de maneira aleatória sobre a vida dos mesmos personagens.
Não há foco na narrativa. Um capítulo sobre a violência sofrida por Abigail antecede em muitos capítulos o momento em que a relação com um gringo mais velho começou. E o problema não é a narrativa não ser linear - até porque diversas outras obras utilizam-se deste recurso de forma primorosa -, mas sim a falta de explicação do tempo, do espaço e das figuras importantes da história.
Entende-se que os três protagonistas vivem em situação precária e caótica, em um apartamento lotado de entulhos guardados através dos anos e com a companhia de incontáveis insetos - e, meu Deus, as baratas são tantas que são quase personagens à parte. Contudo, nada é explicado. O que aconteceu para chegaram àquele ponto - principalmente o papel de Lúcio -, por que as garotas são tão deixadas à própria sorte, onde está a mãe e as outras irmãs... São apenas algumas perguntas não respondidas durante a curta experiência de leitura.
Natércia, por outro lado, consegue laçar o leitor com sua escrita. O texto é bonito de ser lido, mas principalmente de ser falado. Muitas passagens são fortes e carregam um peso emocional que pode assustar e afastar leitores que não estão preparados para encarar as dificuldades banais de um cotidiano triste e comum. Recomendo, inclusive, que leiam trechos do livro em voz alta, tarde da noite e sozinhos no quarto. A experiência é fenomenal! Contudo, palavras bonitas e sentimentos expressos de forma crua não são o suficiente para Os Tais Caquinhos se manter como um romance de formação.
Ansioso para ler mais da autora, mas espera um pouco mais deste livro em questão...
“Como trazer um bebê para dentro de uma lixeira? Como dar a um bebê uma mãe que pedia ovos às vizinhas, fiscalizava a respiração do pai e bebia para anestesiar a sensação permanente de declínio, desamparo e morte? Como dar a um bebê uma casa sem sofá? Sem lava-roupas, sem talheres limpos, sem gavetas forradas, sem lâmpadas acesas, sem bandejas de iogurte na geladeira, sem aconchego, sem amaciante líquido? Minha maior preocupação era essa: como aninhar nos braços o meu filho, se o que eu tinha no lugar dos braços eram dois gravetos pálidos que mal sustentavam minha cabeça?”
um belíssimo (e angustiante) retrato do caos - da adolescência, do abandono e da solidão. a narrativa conduzida por uma adolescente que usa palavras rebuscadas me pareceu acertada, considerando os anos noventa e todos os elementos sujos, imundos e, ao mesmo tempo, dignos de um olhar mais profundo. achei a cronologia um tanto confusa, mas entendi como um recurso utilizado pela autora para dar veemência à narrativa. e pra completar, bom, tem Marina Lima. os tais caquinhos são aqueles do velho mundo, que ela canta em “pra começar”.
Este livro pode conter alguns gatilhos como: abandono, álcool, acúmulo material, aborto, negligencia, dependência emocional e insetos.
Abigail é um caco, no meio dos cacos, em um caco de vida. A princípio é uma narrativa estranha, pegajosa e até um tanto grotesca. Não há parágrafos. Em meio a baratas e móveis antigos, a um pai que não é pai mas também é filho, uma irmã que pode ser uma inimiga, acompanhamos a adolescência da jovem Abigail. Tudo nesse livro incomoda, as descrições cruas e sem medo, o claro abandono de duas crianças ao léu, os insetos que são uma personagem quase que principal na trama. Abigail cresce sozinha num apartamento cheio. Os Tais Caquinhos, pelo menos para mim, foi uma leitura conturbada, maçante e até mesmo tedioso em alguns momento, porém acho que o ponto aqui é esse, causar o estranhamento, perturbar o leitor.
em uma estética do acúmulo, os tais caquinhos mostra uma obsessiva preservação dos elementos que constroem a vida.
a narrativa é formada por uma família excêntrica, formada por Abigail (narradora), Berta (irmã de Abigail, Lúcio (pai) e o apartamento 402 extremamente caótico. repleto de objetos, tralhas e sujeira, o apartamento compõe as metódicas manias do pai: "não jogue as coisas fora, porque nelas eu guardo a minha vida inteira. mas além dos hábitos de Lúcio, o livro discorre sobre Abigail e suas fantasias acerca do amor, enxergando-o como uma espécie de "resgate" da vida bagunçada que leva.