O livro é um compilado de artigos com vasta pesquisa bibliográfica e autores das áreas da psicologia, psicanálise, filosofia e ciências humanas, em geral. É sempre difícil entender tudo o que nos trouxe até essa sociedade em que vivemos hoje, mas a obra esmiuça muito bem os pontos teóricos, factuais, políticos e sociais que caracterizam o neoliberalismo e sua relação com o sofrimento psíquico. Ainda assim, no meu caso, alguns artigos foram mais fáceis de ler, enquanto tive dificuldade em outros aos quais precisei reler para finalmente compreender, sendo próprio do livro a linguagem acadêmica e as muitas citações, referências e conceitos. É claro que, pra quem tiver uma bagagem maior de conhecimento, a leitura vai ser muito mais fluida, mas isso não me impediu de ter uma experiência muitíssimo esclarecedora e de ampliar minhas perspectivas sobre o tema. Dito isso, os autores demonstram como que o neoliberalismo é mais que um sistema econômico do qual já ouvimos falar tantas vezes, mas como, tal qual outras formas de organização econômica, ele possui profundo impacto sobre o modo como nos vemos, como sofremos e como nos relacionamos com os outros. E, como titulado na capa, ele funciona justamente como produtor e também gestor do nosso sofrimento. A análise inicial de vários apoiadores dessa teoria econômica permite esboçar um sujeito neoliberal: aquele que se identifica como uma empresa que busca alta performance, alta produtividade e vê tudo como um "cálculo de utilidade"; um sujeito estritamente racional e desvinculado dos outros. Essa individualização excessiva, que nos faz crer que toda responsabilidade está unicamente sob nós mesmos, nos separando do coletivo e dos problemas advindos dele, produz o sofrimento na medida em que o indivíduo que não se encaixa na lógica do livre mercado, da concorrência naturalizada e da racionalidade total, sente o fracasso e a exclusão não como frutos de um conflito político, mas como consequências da sua "falta de esforço". Nos é vendido, seja pelos coachings, pela indústria farmacêutica, pelas diferentes abordagens psicológicas ou por pessoas de significativa influência, que podemos e devemos ser sempre uma versão melhor de nós mesmos. Com isso, é a lucratividade que aumenta mesmo que seja às custas de nosso sofrimento, com o crescimento cada vez maior do consumo de medicamentos e de programas de gestão emocional falaciosos. Tudo isso sob a égide de que o sistema capitalista liberal é natural, legítimo e que não há alternativa fora dele. Nesse sentido, há trechos e capítulos dedicados a abordar as mudanças de diagnóstico psíquico, a tendência a se pensar distúrbios ou doenças como fruto exclusivo de fatores biológicos e não ligados (também) à problemas sociais, uma ótima reflexão com paralelos entre neopentecostalismo e neoliberalismo, entre outros pontos interessantes. Enfim, vale a pena por nos fazer pensar o quanto estamos submersos nessa lógica excludente, individualista, onde falta empatia pelo outro e sobra uma competitividade adoecedora.