Não espere um passeio elucidativo ou didático pelo conceito lacaniano
Eis um livro que tentei deslanchar a leitura umas três vezes. Em um cenário prosaico, isto já teria sido um sinal para abandonar completamente a obra; mas tratando-se de psicanálise lacaniana, espera-se que mesmo os comentários possam se mostrar difíceis a uma primeira vista. No caso de Leader, suas perlaborações iniciais, prolixas e num ziguezague vertiginoso entre passagens de Freud, Lacan e outros psicanalistas pode ser a um leitor despreocupado, no mínimo, intimidatiório. Mas eu consegui vencer a obra afinal e posso dizer de maneira confortável: não se trata de uma leitura agradável nem recomendada a quem busca clareza e didatismo no entendimento desse conceito hermético.
Mais ou menos na metade do livro, Leader parece abandonar a centralidade de suas indagações sobre o gozo para perseguir questionamentos e pesquisas pessoais: sobre libido, narcisismo, supereu, comparações científicas datadas sobre o desenvolvimento psicológico e pedagógico das crianças com o estádio do espelho e as repercussões do conceito de pulsão no recém nascido - acrescidos de outros comentários tangenciais sobre o uso das mãos durante a satisfação oral. Bom, para começar, nada disso ajuda o leitor a seguir interessado no "Gozo": ele aparenta tergiversar tanto o tema que passamos a nos perguntar se a explicação ou elucidação dessa palavra no Lacanês é realmente tão complexa como imaginávamos para que o autor precise empreender um giro tão obsceno no seu passeio. Somado a isso, percebe-se a quantidade de referências extremamente antigas - não psicanalíticas, no caso - a textos científicos que o autor tenta se fazer valer para sustentar seu ponto de vista - ponto preocupante. Já que está tocando temas científicos, o que custa fazer uma breve pesquisa em portais de periódicos recentes? PubMed, Elsevier, Science? Nessa aspecto, é a mesma estrutura curiosa de "Alguma vez é sobre sexo?".
É exatamente na porção final do livro que podemos dizer que o autor oferece vestígios de sua capacidade de domínio do prumo da narrativa, nos deixando sem saber ao certo por que ele fez todo esse desvio. Leader se volta a uma pormenorizada leitura de fragmentos dos Seminários examinando de que forma o conceito de Gozo foi se alterando e comparando com algumas outras passagens ou comentários que ele fizera antes. Ele já havia se perguntado se o Gozo, tal como a libido, pode ser representado ou esquematizado na ordem da quantidade, da carga elétrica, de localização espacial, algo que se possui como na escola das relações objetais ou até uma espécie de substância gelatinosa que surge de dentro do sujeito e irrompe em certos momentos. Aqui, ele vai apontando o uso sofismático e nada rigoroso que muitos psicanalistas lacanianos -e o próprio Lacan! - empregam a expressão gozo, desmontando tais construções explicativas. Essa é a parte que gosto.
Quantas vezes escutei colegas (e mesmo eu!) e supervisores que usam cheios de pompa a palavra Gozo aludindo a uma espécie de conceito intransponível e só realizavel aos inciados na obra? Tendo uma "meia certeza" da coordenada precisa de sua funcionalidade? Mas será mesmo que essas pessoas tem dimensão da vagueza e da amplitude que o termo tomou ao longo dos Seminários? E assim mesmo, colocando a real importância ou aplicabilidade além de um encadeamento descritivo datado na obra? Aqui eu tiro o chapéu a Leader por ele escancarar a forma como um conceito pode ser tão esvaziado a ponto de se tornar só uma palavra-valise, onde cabe qualquer coisa, e mais um adereço retórico que psicanalistas vestem, exibidos.
Um último destaque positivo para Leader é quando ele fala sobre o Gozo no campo dos registros, especialmente o Gozo feminino, ou Gozo Outro, do Seminário "Mais, ainda". Leader critica lindamente a atitude machista e obscurantista de Lacan, que repercute Freud em seu "continente negro", escolhendo vendar-se à multidão de pesquisas científicas modernas que apontam a forma que o erotismo feminino se manifesta e como ele se constitui. Ele expõe as aporias e incoerências da época que talvez digam muito de uma certa primazia do "gozo fálico" sobre outros tipos dentro dos círculos lacanianos.
☆☆½/5