É notório o poder de sedução das sereias: com seu canto, elas atraem marinheiros incautos e os levam à morte ou ao naufrágio. Dificilmente, porém, nos perguntamos pelo que as sereias se sentem atraídas. Sereia é o apelido que Sofía recebeu de uma avó que mal conheceu. Já adulta, ela encontra fragmentos de textos de décadas antes: são trechos de cartas e diários que a avó escreveu antes de ser afastada da família sob acusações de loucura. Sofía atende ao chamado da avó. Ela deixa sua vida para trás e embarca em uma viagem rumo às zonas sombrias da história familiar. Seu destino: um antigo manicômio. Para enfrentar o oceano do tempo, ela não tem mais que uma força interior incendiária. No imaginário das sereias, há fatos inquietantes: elas não envelhecem, nunca são feias e jamais fogem do roteiro esperado. Embora irresistíveis, a ironia é que são as sereias que parecem ter suas existências aprisionadas ao destino dos marinheiros. Este livro quebra as regras. A trajetória de Sofía nos faz confrontar a velhice e a decadência do corpo, enquanto apresenta personagens donas de si, imperadoras da própria ruína. Com maestria, María Elena Morán nos conduz por um universo extremamente original. A trama de Os Continentes de Dentro é intensa: desenha a linha que costuma levar do desespero à covardia e da perdição ao recomeço. É preciso respirar fundo antes de começar a leitura: os momentos mais iluminados deste romance não tardam em se transformar nos mais impiedosos. Sofía é sereia desprovida de mito: tem uma aura mágica, mas se debate sobre o chão lamacento da humanidade. Avança às profundezas para construir seu reino de perigo e fascínio. Por Julia Dantas.
María Elena Morán nasceu em Maracaibo, Venezuela, em 1985. Escritora e roteirista, é formada em Comunicação Social na Universidad del Zulia e em Roteiro na EICTV, Cuba. Fez mestrado e Doutorado em Escrita Criativa na PUCRS. Tem poemas e contos publicados em revistas e antologias. Os Continentes de Dentro é sua estreia como romancista.
A primeira vez que mergulhei com cilindro em alto mar fui invadida por um sentimento avassalador de imensidão. Como um retrato da minha insignificância marcado pelo esforço para manter o oxigênio fluindo pelo meu corpo. Mais tarde, descobri que a maior parte da sensação opressiva que senti era devida ao meu tanque de oxigênio que estava mal regulado. Mas, independentemente dos problemas técnicos, a memória da força do oceano já estava ali me chacoalhando até os ossos.
“Onde estou, não se escutam os sons. Daqui desse portal entre dois mundos só escuto o mar. Eu tenho o mar dentro de mim.” p.154
Os diários de Aída Rojo me transportaram para lembrança do fundo do mar do Caribe. Não consegui pensar em outra alternativa, senão transbordar em ficções, para uma mulher que carrega o mar dentro de si. Os continentes de dentro mais do que narrar a busca de uma neta por sua avó, internada como louca num manicômio, na ilha de Salos, e lá esquecida por dezesseis anos, faz com que encontremos os turbilhões marítimos que existem Dentro – dos segredos familiares, de nós mesmos, do ser humano, das sociedades civilizadas que trancafiam os indesejados e os abandonam à própria sorte.
María Elena Morán constrói com maestria um universo onde as sereias são mulheres atormentadas pela incapacidade de construir pontes entre sua própria concha e a subjetividade exacerbada de quem faz mesmo parte da gente. Sereias destituídas do mito, nadando entre os territórios da sanidade e da loucura; da negligência e do cuidado; da culpa e da saudade. Uma sereia que perdeu o mar na mesma medida que perdeu a avó, não para a doença, mas para os silêncios familiares.
Ao encontrar antigos diários e anotações de Aída, a narradora personagem, Sofía, parte para ilha de Salos em busca de respostas. O que Sofía encontra está nas páginas de Os continentes de Dentro, mas o que nós leitores encontramos é um texto instigante, repleto de tensão e alfinetadas que saem das bocas das personagens que nos conquistam em meio sua resiliência e ruína.
Em seu romance de estreia, Maria Elena Morán recria um mundo matraiarcal, sedutor num primeiro momento. Mas doloroso, ardido de sol, de fome e de incompreensão num segundo olhar. Saio de Dentro meio corajosa, meio arrasada.
Ler "Os continentes dentro de nós" é mergulhar em alto mar sem uma garrafa de oxigénio. Sofía vive a ausência da avó abandonada há dezasseis anos num hospital psiquiátrico na ilha de Salos. A loucura de Aída, a avó idealizada, está diretamente relacionada com Sofía. Aída começa a ver o mundo de modo bipartido e a sentir o chamamento do mar. Com ele, vem uma voz que lhe confidencia que Sofía é uma sereia e deve voltar para o mundo de dentro para cumprir o seu destino, ser feliz no seu habitat. Esta certeza e a de que é uma sentinela do mar, cuja missão é resgatar Sofía, leva Aída a atirar a neta borda fora, para o mar, e a fugir na pequena embarcação em que seguiam, acontecimento que determinou o seu internamento numa instituição de saúde mental na ilha de Salos. Todo este relato é pobre face ao registo polifónico de todo o romance. As vozes de Sofía, Aída, Ino, a voz interior da avó, e a dos habitantes de Salos surgem entretecidas numa tapeçaria tão bem costurada que é com naturalidade que o leitor passeia entre os pensamentos e sentimentos de Sofía, lê os registos de Aída ou presencia as conversas e os desvios de comportamento das loucas de Salos. A perspetiva é sempre a de Sofía, a mergulhar, em si, em Aída, no sofrimento, no reconhecimento, na verdade. Nesse mergulho, de descoberta de si, são muitos os momentos de apneia, de Sofía e do leitor, sensação que permanece até ao fim da leitura do romance.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Opinión impopular, porque al parecer en el club de lectura a todos les gustó. A mí me costó leerlo, me costó terminarlo, no me gustó cómo estaba escrito. Me parece interesante el tema de cómo se trata a las personas con problemas de salud mental, cómo se busca aislarlos, en este caso literalmente, en una isla, pero el libro no terminó de convencerme. Mención aparte la muy mala edición, palabras mal cortadas, falta de conectores y preposiciones, impresionante.
"Puedes pisar la arena, nadar un kilómetro diario, irritarte la nariz cuando inspires agua salada sin querer, puedes tener sal seca en los dobleces de la oreja, pero nunca perdonarás al mar, mamá, hasta que yo lo pacifique para ti".
Lo sentí mega personal y eso me agradó. Me gusta la manera en la que está escrito y cómo utiliza la isla para representar todo lo que Aída o Sofía sienten. Ese abismo que hay entre las abuelas y las nietas, un abismo en el que queda atrapada la hija y la madre ....