Vou começar pelos aspectos positivos: a escrita é fluída e simples, jovial e, apesar dessas características, não mantém uma coloquialidade excessiva, ainda assim mantendo um interesse do público alvo, que é juvenil. O livro é fácil de se ler, mesmo tendo mais de 300 páginas - que são o suficiente para o desenvolvimento - é bem rápido. O plot twist é interessante, não posso dizer que não esperava o que aconteceu, mas, por estar quase no final do livro, achei que ia ser desenvolvido de forma corrida, porém estava errada. Entretanto, a autora pecou em algumas características e isso me incomodou demais, sendo elas:
1. A representatividade: foi confirmado pela autora que Dimitria é uma personagem inspirada nos povos Inuítes, mas isso não é mostrado em hora NENHUMA na trama. Não é desenvolvido, ela não é lida como uma personagem originária, a pele dela é descrita apenas como negra, e é dito que ela tem o cabelo raspado nas laterais. Isso é o MÁXIMO de descrição que temos acerca da aparência de Demi e de Igor. Aurora, por sua vez, tem parágrafos e parágrafos reforçando o quanto sua pele é branca, repleta de sardas, o quanto seus olhos são verdes, o quanto seu cabelo é loiro e ondulado e etc. Entendo que, apesar de ser uma narrativa em terceira pessoa, a visão de mundo é de Dimitria, mas a autora descreve muito mais vezes a aparência de personagens brancos, fossem esses Tristão, Astra, Aurora ou Jocasta. Os Coromadel foram deixados de lado nesse quesito mesmo que fizessem parte do protagonismo e antagonismo, e faltou BASTANTE tato da autora acerca dessa questão, já que eles (e um médico que aparece em menos de duas páginas) eram os únicos não brancos na narrativa inteira. As pessoas que têm contato com o livro, mas não com as redes sociais, jamais imaginarão que a protagonista e o irmão são indígenas. Os imaginarão como pessoas negras. Ademais, Giulianna confirmou que Aurora é uma personagem gorda (também é a única gorda na trama) e isso não é descrito em momento nenhum. Ela é dita como uma pessoa com curvas, e nada além, o que também abre margens para interpretações dúbias. Esse é, sem dúvidas, o ponto mais fraco na história e o motivo pelo qual diminuí as duas estrelas.
2. Subtramas mal desenvolvidas: a maioria das subtramas foi apenas pilar para o desenvolvimento dos personagens principais. A ameaça velada de Tristão à Jocasta não teve motivação explicitada, foi apenas um bilhete jogado ao vento. Igor ter pegado o bilhete também não teve motivos aparentes. Além disso, na página 125, após o primeiro ataque do monstro, é dito que a garotinha tinha tufos de pelos brancos na mão e que continha mordidas de bicho em sua pele, o que nunca foi confirmado se havia sido feito por Aurora ou não, mesmo após descobrirem que quem matava as crianças era Igor. Essa falta de confirmação me faz pensar que foi um furo de roteiro colocado apenas para que as suspeitas fossem todas para Aurora de maneira forçada. Além disso, sinto que o ambiente não foi muito bem desenvolvido, me faltou um pouco de imersão, tive pouca empatia pela cidade e seus moradores.
3. Estereótipos: a protagonista é descrita e confirmada como bissexual, e carrega alguns estereótipos chatos acerca disso - é descrita como mulherenga, vulgar e com pouca responsabilidade emocional; enquanto a princesa delicada e devota, símbolo de feminilidade, é lésbica. Sinto que essa parte da sexualidade de Dimitria, além de ter sido mal desenvolvida, sustentou estereótipos negativos sobre bissexualidade. Não que personagens bissexuais não possam ter falhas de caráter - longe disso, mas, quando a descrição fica mais em "palavras" do que "atitudes", pode acabar caindo no ostracismo. Ademais, caímos no clichê de personagem vulnerável branca e personagem ríspida não branca, onde Dimitria é rude com Aurora sem motivos incontáveis vezes - fazendo com que, mesmo sem ser uma personagem negra, carregue o estereótipo de angry black woman.
4. A cena final, entre os Brandenburgo, van Vintermer e Dimitria não fez sentido. Não consigo imaginar nenhum cenário onde, após uma perda traumática de seu irmão, a protagonista fosse fazer parte de um diálogo como aquele. Foi uma maneira bem rasa de se concluir a história.
Em conclusão, se eu recomendaria? Sim, mas com essas ressalvas e alertando o possível leitor que essa é uma leitura rápida, apenas para entretenimento, e que não carrega nenhum tipo de representatividade além do romance sáfico. Definitivamente não é um livro que se propõe a representar pessoas não brancas e carregar algum tipo de bandeira, por mais que seja divulgado dessa forma. Entretanto, gostei de ler e foi divertido em certo ponto.