A era do niilismo
Dos livros que li do Pondé, este é, sem dúvida, o melhor. Este livro representa uma boa súmula do seu pensamento. Tudo o que ele tem escrito e dito está aqui.
Pois bem, niilismo é o lugar em que estamos hoje. É a dura constatação de que não existe uma realidade transcendente (como queriam Platão e seus sucessores). Tampouco funcionou o projeto da modernidade, nascido na ideia de uma razão fundadora do mundo e do futuro (Kant, Hegel, Habermas)
Quem tinha razão, segundo ele, eram alguns filósofos do século XIX (Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche) que perceberam – de uma forma ou de outra – a ausência de sentido em tudo isso que chamamos de vida e os romancistas russos – também do século XIX – que viram a destruição muita rápida das certezas do imóvel mundo medieval russo e a sua substituição pela modernidade.
Assim, alguns filósofos e romancistas chegaram a conclusão de que não há um sentido além do que há neste mundo.
O niilismo, então, é a própria consequência da ruptura da modernidade com a imobilidade social do passado, cuja única vantagem era a ilusão do conforto com as próprias certezas de um mundo socialmente imóvel.
O ‘nada’, segundo o Pondé, é, então, algo muito concreto, porque é a constatação de que não existe nada além de uma fina camada de ilusão, que é o que faz manter alguma sanidade. O ‘nada’, então, é essa olhada para o abismo, da constatação de que não há um sentido escondido por trás da ilusão. “A natureza indiferente ao sofrimento humano infecta nosso coração com o ‘cheiro do nada’”. O “niilismo infecta” quem é tocado por ele.
Mas, segundo ele, “não há saídas da era do niilismo, pelo menos não se mantidas as condições materiais e de produção da vida concreta em que vivemos”.
Assim, a modernidade foi um rolo compressor que esmagou todas as certezas do passado – -que davam uma ilusão de sentido para a loucura social humana.
Isso não significa que a modernidade não seja outra forma de expressão da loucura. Ele próprio qualifica a modernidade como surto psicótico. Na verdade, a própria espécie humana é uma espécie ‘louca’.
No século XXI, tudo ficou ainda pior. Criam-se outras ilusões para que ao menos haja algo que dê a ilusão de um sentido na vida. Essa ilusão é o que ele chama de “marketing existencial”:
“Nunca se mentiu tanto como neste século XXI. Fala-se largamente de poluição do meio ambiente com queimadas e combustíveis fósseis, mas a poluição do mundo noético (mundo do pensamento e dos conceitos) e do mundo do pathos (mundo dos afetos e paixões) não é menor nem menos perigosa. A espécie segue à deriva dos seus delírios infantis na ciência prática conhecida como marketing”.
“Quando o supérfluo encontra a fetichização da “nova” vida no marketing, o efeito desse discurso sobre a formação dos mais jovens é óbvio: a permissão para desqualificar tudo à sua frente, tudo que veio antes deles, principalmente se for trabalhoso moralmente e se exigir algum grau de amadurecimento”.
Enfim, as esperanças não são muitas.
Se “Num universo cego, tudo é permitido”, resta “a esperança, como todo valor ou virtude, existe sem fundamento. Essa é a descoberta devastadora do niilismo. O único fundamento da esperança é a simples prática de si mesma. A batalha é por arrancar o sentido das pedras, sem enlouquecermos”.
Enfim, um livro com muita coisa. Mas talvez seja um livro um pouco desaconselhável para quem está enfrentando a sua própria crise existencial.