Após o sucesso de A era do ressentimento, Luiz Felipe Pondé lança A era do niilismo
"A modernidade é um surto psicótico razoavelmente bem-sucedido (até então). Um surto funcional, dito em linguagem mais técnica. Denomino esse surto como a era do niilismo."
Em A era do niilismo: notas de tristeza, ceticismo e ironia, Pondé investiga os sentimentos de angústia e desesperança que incidem sobre os mais diversos âmbitos da vida e da humanidade. Ao se apoiar na vasta produção literária russa do século XIX e nos estudos filosóficos a partir do mesmo século, o autor constrói argumentos para atestar que não se trata apenas de uma sensação, mas sim do espírito de uma época.
Pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".
Dos livros que li do Pondé, este é, sem dúvida, o melhor. Este livro representa uma boa súmula do seu pensamento. Tudo o que ele tem escrito e dito está aqui. Pois bem, niilismo é o lugar em que estamos hoje. É a dura constatação de que não existe uma realidade transcendente (como queriam Platão e seus sucessores). Tampouco funcionou o projeto da modernidade, nascido na ideia de uma razão fundadora do mundo e do futuro (Kant, Hegel, Habermas) Quem tinha razão, segundo ele, eram alguns filósofos do século XIX (Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche) que perceberam – de uma forma ou de outra – a ausência de sentido em tudo isso que chamamos de vida e os romancistas russos – também do século XIX – que viram a destruição muita rápida das certezas do imóvel mundo medieval russo e a sua substituição pela modernidade. Assim, alguns filósofos e romancistas chegaram a conclusão de que não há um sentido além do que há neste mundo. O niilismo, então, é a própria consequência da ruptura da modernidade com a imobilidade social do passado, cuja única vantagem era a ilusão do conforto com as próprias certezas de um mundo socialmente imóvel. O ‘nada’, segundo o Pondé, é, então, algo muito concreto, porque é a constatação de que não existe nada além de uma fina camada de ilusão, que é o que faz manter alguma sanidade. O ‘nada’, então, é essa olhada para o abismo, da constatação de que não há um sentido escondido por trás da ilusão. “A natureza indiferente ao sofrimento humano infecta nosso coração com o ‘cheiro do nada’”. O “niilismo infecta” quem é tocado por ele. Mas, segundo ele, “não há saídas da era do niilismo, pelo menos não se mantidas as condições materiais e de produção da vida concreta em que vivemos”. Assim, a modernidade foi um rolo compressor que esmagou todas as certezas do passado – -que davam uma ilusão de sentido para a loucura social humana. Isso não significa que a modernidade não seja outra forma de expressão da loucura. Ele próprio qualifica a modernidade como surto psicótico. Na verdade, a própria espécie humana é uma espécie ‘louca’. No século XXI, tudo ficou ainda pior. Criam-se outras ilusões para que ao menos haja algo que dê a ilusão de um sentido na vida. Essa ilusão é o que ele chama de “marketing existencial”: “Nunca se mentiu tanto como neste século XXI. Fala-se largamente de poluição do meio ambiente com queimadas e combustíveis fósseis, mas a poluição do mundo noético (mundo do pensamento e dos conceitos) e do mundo do pathos (mundo dos afetos e paixões) não é menor nem menos perigosa. A espécie segue à deriva dos seus delírios infantis na ciência prática conhecida como marketing”. “Quando o supérfluo encontra a fetichização da “nova” vida no marketing, o efeito desse discurso sobre a formação dos mais jovens é óbvio: a permissão para desqualificar tudo à sua frente, tudo que veio antes deles, principalmente se for trabalhoso moralmente e se exigir algum grau de amadurecimento”. Enfim, as esperanças não são muitas. Se “Num universo cego, tudo é permitido”, resta “a esperança, como todo valor ou virtude, existe sem fundamento. Essa é a descoberta devastadora do niilismo. O único fundamento da esperança é a simples prática de si mesma. A batalha é por arrancar o sentido das pedras, sem enlouquecermos”. Enfim, um livro com muita coisa. Mas talvez seja um livro um pouco desaconselhável para quem está enfrentando a sua própria crise existencial.
O autor deixa patente seu acerbo conhecimento sobre o tema, citando autores e obras e transpondo o conceito de forma acessível para os leigos no assunto.
Vale a pena ler e reler para captar todos os nuances do tema.