Quero começar dizendo que sou fã, devoto da prosa fenomenal, da inteligência assombrosa e do humor sofisticadérrimo e safado do grande Nelson Rodrigues; ou seja, essa não é uma resenha é mais uma constantação de que ASFALTO SELVAGEM É DOOOIDIMAIS VÉÉÉÉÉÉIO!
Eu colocaria esse livro como leitura obrigatória no colégio, ensina mais sobre alguns dos aspectos mais sórdidos da alma brasileira do que trocentos livros de história. Além de ser uma delícia de leitura, o estilo folhetim serial torna a leitura obsessiva, bem “vira-página” mesmo. E um folhetim escrito por um gigante da literatura.
Nelson é um daqueles escritores que parecem escrever sem força, e sai tudo brilhante. Em poucas páginas já tinha me esquecido que estava lendo, o texto some e ficam os personagens e suas falas, dramas, sonhos, aflições, inseguranças, etc.
E o cara manda bem de caracterização, que é medonha, ao nível do Machadão na minha opinião. A protagonista Engraçadinha, por exemplo, só falta sair das páginas e andar por ai, de tão viva!
Recomendo ler depois da leitura de Cabra Vadia, uma coleção de crônicas do Nelson que resenhei aqui. É que em Asfalto Selvagem (que é uma coletânea dos dois volumes de Engraçadinha, o que o torna um tijolão de 600 páginas) aparecer MUITAS referências à pessoas reais citadas e comentadas em Cabra Vadia, e eu acho que aumenta muito o prazer da leitura de Asfalto Selvagem.
A prosa é maravilhosa, e a trama mistura muito humor ácido, dramas amorosos e sexuais, violência, sangue, paixão.
E os diálogos, véio, QUE DIÁLOGOS FANTÁSTICOS! Teve hora que ri em voz alta, sem parar!
Adorei ver o próprio Nelson no livro, na figura do juiz Odorico, tarado por Engraçadinha.
E as constantes citações do amigo do Nelson, o Oto Lara Resende (nota mental: preciso ler o Oto véio, é mineirinho qui nem ieu!) são engraçadíssimas!
Bem fica, a recomendação, Nelson é um dos poucos escritores que mergulhou fundo na sexualidade maluca e reprimida da classe média brasileira da primeira metade do século vinte, e uma aula de prosa, narrativa, construção de trama, construção de situações emocionais, exploração de personagem, etc!
E salve o Oto Lara Resende! :)