Ivone Mendes da Silva (1959) estudou Línguas e Literaturas Clássicas e é mestre em Línguas Literaturas e Culturas. Defendeu tese sobre as (re)citações de Eurípides na Medeia de Mário Cláudio. Gosta de tragédia, portanto, e do quotidiano o que é quase sempre a mesma coisa. Tem colaborado com a revista Ler e com a Egoísta e possui publicação dispersa em antologias de poesia. Publicou em 2011 o livro de poemas Ordem Breve.
«Explico que a minha natureza é ociosa e que por isso rejubila com as férias dando-me fulgores que adormecem durante o ano.»
Ivone Mendes da Silva não usa vírgulas nem são necessárias - a vida é ambígua, arbitrária e não permite pausas -, é rebelde na sintaxe, gosta de anacolutos como nessa quebra da ordem sintáctica encontrasse afinal o fio da meada. É um diário com 518 entradas, sensivelmente dois anos ; duas voltas ao sol em que a autora assinala os seus 60 e 61 anos. Vive onde os outros não vivem e ao arrepio das suas modas e hábitos. Tem sentido de humor, é uma paladina do silêncio e da solidão e defende-os de todas as ameaças.
«Hoje uma pessoa que trabalha comigo e de quem não desgosto disse: tu estás em paz. E eu confirmei. E ela depois sorrindo perguntou: e isso deu muito trabalho? Foram anos: respondi.»
É uma mulher de Invernos longos, mas a mutabilidade previsível dos ciclos da natureza acalma-a. É bisonha, rotineira, mas não dada a melancolias; observa as pessoas com detalhes de censura e fascínio transformando-as em personagens.
«Hoje só vi pessoas feias na esplanada.» «Saí depois para um café mas fui logo travada por uma daquelas pessoas de conversa xaroposa. É uma gentinha de frases feitas e citações apócrifas e tão previsível nos raciocínios que até enjoa.»
Recheado de referências literárias com ou sem indicação do autor, este diário fala-nos da passagem do tempo, do hoje que amanhã será um ontem, como os fulgores breves e instáveis das magnólias que a cada primavera renascem e brilham por breves dias. Assim é a vida.
Professora de Português tem a cabeça cheia de literatura, mas:
«Durante esta semana – nem quero dizer em que dia e que moura e pereça – perfazem-se quarenta anos desde que comecei a trabalhar nesta profissão mofina. Tenho sido profundamente infeliz. Sei que faço o meu trabalho muito bem feito mas tenho-o odiado a cada dia. Tenho-me odiado também a mim própria por me ter enovelado na vida tão fundo e tão cedo sem que conseguisse arrepiar caminho quando ainda era tempo de o fazer. Há cobardias que se pagam com o sangue. E desta insatisfação maior decorreram muitas das decisões erradas que tomei quantas vezes na fruste tentativa de a sublimar. (…) Enfim são quarenta anos. Ter sobrevivido sem dar cabo de mim é que é um milagre.»
São fragmentos de um diário pessoal que registam experiências e pensamentos do quotidiano, oferecendo um vislumbre íntimo e genuíno da vida de alguém. É notável como, no meio das nossas vidas agitadas e repletas de compromissos, é fácil negligenciar a beleza e o significado que podem ser encontrados na simplicidade do dia-a-dia. Esses fragmentos diarísticos convidam-nos a parar e a reflectir sobre momentos que, à primeira vista, podem parecer comuns, mas que, quando observados com atenção, revelam uma riqueza de detalhes e emoções. A banalidade dos dias muitas vezes é composta por actividades comuns, como preparar o pequeno-almoço, enfrentar o trânsito ou realizar tarefas domésticas. No entanto, é importante reconhecer que é nestes momentos que a maioria da nossa vida acontece.
A escrita é maravilhosa, envolve-nos numa teia de palavras que nos cativa desde a primeira página.
[324] (...) estive a conversar com uma daquelas criaturas maçadoras que nada dizem e tudo repetem. (...)Só eu sei as violências que me passam pela cabeça em instantes que tais. Há dias quando fui caminhar dei com uma oliveira podada em redondo como se fosse uma obra de topiaria. Era dar com o podão na cabeça de quem fez aquilo. Lembrei-me da pobre oliveira enquanto ouvia a criatura poética. O mundo está cheio de gente parva. Vêm das quatro fases da lua vêm dos quatro cantos da Rosa. enxameiam tudo. Estou cansada desalmadamente cansada e pensava eu que a semana seria leve.
Novo livro da Ivone, um diário. Uma maravilha. Continua a prescindir das vírgulas na pontuação, tarefa relegada para o leitor.
480. “o sobrado da frente”. Era onde se guardavam velhas arcas cheias de roupas que tinham passado de moda blusas de cintura estreita com uma pequena aba a acompanhar a anca casacos com uma pele puída em torno do pescoço luvas desirmanadas um xaile comprido e bordado um saiote de folhos tesos destinado a armar uma saia. Ali eu tinha por onde imaginar e nada me era melhor do que o tempo que ali passava. Depois alguém assomava às escadas para me chamar e eu sentia aquela interrupção como um corte que me arrancava de um mundo que receava não conseguir retomar. No entanto tive uma infância feliz e cheia de aconchegos mas estar sozinha era a minha alegria. Muda-se muito pouco ao longo da vida: no fundo creio que tirando as interrupções continuo a passar o tempo no sobrado da frente.”
Já se sabe que tenho um fraco por livros em que se escreve bem sobre coisas aparentemente simples, mas que na verdade são bastante profundas. Algumas das minhas passagens preferidas:
"Para designar gente de pouca inteligência um aluno escreve “pessoas que têm alguma forma de simplicidade nas suas mentes" (105) "As manhãs ainda estão grisiscas mas o arrebol já promete outra luz. É março com os seus pássaros e os seus dias brandos. Escrevo sentada na cama e preparada já para o sono. Há ainda algum trânsito na avenida. Ouço um carro após outro e mais outro. Faz-se depois silêncio. Por vezes sinto falta de um relógio que tocasse as horas. Ou apenas um Tic-Tac que me desse audível e clara a dimensão do tempo." (330) "É sábado e olho para o calendário. A vida nunca foi outra coisa senão incerteza e talvez essa seja afinal a medida de todas as coisas e não haja mesmo nada de novo sob a rosa do Sol. Volto a olhar para o calendário e faço alguns planos." (363) "Eu poderia apenas ficar aqui nesta pequena esplanada de província atenta ao curso das estações e ao percurso das pessoas e creio que veria tudo quanto há para ver neste mundo." (427) "A mulher de túnica de organza costuma estar acompanhada do marido que deve ser uma criatura doente pois que vem sempre de olhar parado e andar incerto. Ela custodia-o como a uma criança pequena e hoje parece mais descansada. Um marido - já se sabe - estorva sempre muito e assim como aquele ainda há-de consumir mais tempo e paciência." (448) "Passa muito do meio-dia e parece cair sobre a cidade o curto silêncio que separa o bulício da manhã da modorra da tarde. Na mesa do lado uma mulher olha em frente de olhos semicerrados e quase angustiada mas depois respira fundo e circunda sobre a esplanada um olhar já desprendido. Prefiro pensar que a acomete uma ansiedade para a qual não tem nome e só por isso se salva de ser completamente dominada por ela. Grande coisa é afinal não saber." (469)
Vale muito a pena a leitura deste livro e, a meu ver, esta autora portuguesa merecia mais reconhecimento porque escreve bem e toca nos pontos essenciais.
O quotidiano veste-se como uma segunda pele, que não não prende os movimentos. A serenidade de tudo se encontrar no devido lugar e a placidez dos gestos costumeiros. A vida tal como ela é.
Não são entradas soltas num caderno. Há intenção e personagens e espaços e tempos. Só não há vírgula. Há um mundo imenso visto de dentro para fora. Não há frases anódinas. Eu mergulhei nele e ainda não me apetece emergir.