O professor titular de Literatura Comparada na UERJ, João Cezar de Castro Rocha, escreve uma obra de alta qualidade para compreender a ascensão do bolsonarismo em nosso país. Com uma narrativa que dialoga com o leitor, a obra, ainda que recorra a extenso material bibliográfico, não se torna cansativa. O recurso utilizado pelo autor é o da etnografia textual; desta forma, Castro Rocha mergulha nas obras escritas e visuais do 'ideólogo' do bolsonarismo, Olavo de Carvalho - e de seus apoiadores, bem como no livro feito pelo Exército (Orvil) para criar uma narrativa em defesa da ditadura militar.
Para o autor, "(...) a guerra cultural bolsonarista, que se beneficia de uma técnica discursiva, a retórica do ódio, ensinada nas últimas décadas por Olavo de Carvalho, conduzirá o país ao caos social, à paralisia da administração pública e ao déficit cognitivo definidor do analfabetismo ideológico, outro conceito novo que apresento, e com o qual descrevo a negação da realidade e o desprezo pela ciência que estruturam o bolsonarismo" (posição 239-242).
Fica patente, desta forma, a boa distinção que o autor faz entre politics (política) e policy (política pública). O bolsonarismo é a busca, enquanto politics, da destruição de toda a policy criada desde a redemocratização; isto ocorre devido à percepção reacionária de que a esquerda, ao se ver derrotada durante a ditadura militar, penetrou em todas as demais camadas da sociedade brasileira. Assim, para o bolsonarismo, governar não é o suficiente; é preciso, como objetivo finalístico, eliminar a influência progressista de todas as esferas sociais nacionais.
A análise da retórica de Olavo de Carvalho é o ponto alto do livro. O autor percebe, na retórica do ódio, algumas características fundamentais: i. idiotia erudita, que "(...) é o resultado do excesso de informações mal processadas e rapidamente mescladas em teorias conspiratórias difundidas nas redes sociais, gerando um número sempre maior de dados, que, por sua vez, favorecerão teorias ainda mais intrincadas, que, por sua vez… e esse círculo vicioso torna o espaço público uma sucessão de ilhas que recusam a ideia de arquipélago" (posição 592-595); ii. o uso da desqualificação nulificadora, da hipérbole descaracterizadora e da redundância. Logo, "O resultado é o caos cognitivo que domina o cenário brasileiro contemporâneo, numa mescla explosiva de analfabetismo ideológico e idiotia erudita." (posição 2846-2847).
Na análise do momento atual, o autor acerta em afirmar que "No caso do bolsonarismo, guerra cultural implica visão bélica do mundo, que converte qualquer adversário em inimigo, cuja eliminação principia simbolicamente pelo recurso à retórica do ódio." (posição 6521-6523). O bolsonarismo, desta forma, busca a eliminação do 'outro' enquanto alteridade. Como típico fenômeno populista de extrema-direita, é antipluralista, não aceitando que a sociedade seja caracterizada pela pluralidade de corpos e mentes.
A saída para o caos nacional reside, segundo o autor, na busca pela ética do diálogo. Ainda que não de maneira explícita, Castro Rocha segue o filósofo alemão Jurgen Habermas na percepção de que somente o diálogo pode nos fazer restabelecer a verdade factual (conforme Hannah Arendt). Um pouco de ingenuidade, podem pensar alguns; porém, vencer o bolsonarismo exigirá bastante imaginação daqueles que ainda sonham em viver em uma sociedade verdadeiramente de todos.