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Hello Brasil!: Notas de um psicanalista europeu viajando ao Brasil (Sexto lobo)

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Ao deixar a França, no fim dos anos 1980, o psicanalista italiano Contardo Calligaris começou uma série de anotações para entender por que tinha sido tão seduzido pelo Brasil a ponto de se estabelecer no país. Esse exercício foi além do propósito inicial e tornou-se também uma análise do Brasil, em que Contardo faz leituras sobre diversos aspectos intrigantes da nossa cultura, desde a persistência da herança escravocrata até a corrupção política. Mescla de “autoanálise do escritor” e “autoanálise coletiva”, na palavras de Lilia Schwarcz, que assina um prefácio à nova edição, "Hello, Brasil!" resultou numa reflexão tão reveladora que é difícil não considerá-la uma das mais vigorosas interpretações já feitas da cultura nacional. Além do prefácio inédito, esta edição traz um caderno de imagens, o texto de 1991 revisto pelo autor em 2017, uma introdução dele e cinco ensaios movidos pela tentativa de apreender a estranha e fascinante psique brasileira.  

    Editora ‏ : ‎ Fósforo Editora; Caderno de imagens de 8 pp. edição (1 setembro 2021)
    Idioma ‏ : ‎ Português
    Capa comum ‏ : ‎ 328 páginas
    ISBN-10 ‏ : ‎ 6589733228
    ISBN-13 ‏ : ‎ 978-6589733225
    Dimensões ‏ : ‎ 20 x 2.4 x 13.5 cm

176 pages, Paperback

First published January 1, 1991

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About the author

Contardo Calligaris

22 books58 followers
Contardo Calligaris é psicanalista e cronista italiano. Doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provence, iniciou seus estudos nas áreas das letras e da filosofia. Em 1975, foi aceito como membro da Escola Freudiana de Paris, onde morou até 1989. Lecionou na Universidade Paris 8 e teve aulas com os filósofos franceses Roland Barthes e Michel Foucault, além de acompanhar os seminários ministrados pelo psicanalista francês Jacques Lacan, uma grande influência em sua formação.

Em 1985, veio ao Brasil para o lançamento de seu primeiro livro de psicanálise, Hipótese sobre o fantasma. Posteriormente, acabou fixando residência no País, onde reside até hoje. Suas reflexões se concentram na condição humana da sociedade marcada pela obrigatoriedade da felicidade, do gozo, da beleza e dos excessos. Estudioso das questões da adolescência, considera esta a etapa da vida que possui uma intensa carga cultural e que se caracteriza como uma das mais potentes fontes de energia da atualidade. A adolescência é um dos seus livros mais lidos e estudados.

Além de atender nos seus consultórios em São Paulo e Nova York, é colunista do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, no qual escreve sobre psicanálise e cultura. Publicou mais de dez livros, incluindo dois romances e uma peça teatral. Criou a série de televisão intitulada Psi, exibida no canal a cabo HBO. Foi professor de estudos culturais na New School de Nova York e professor convidado de antropologia médica na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Também faz parte do corpo docente do Institute for the Study of Violence, em Boston.

Contardo Calligaris, em seu trabalho, conduz as pessoas à reflexão sobre a existência humana, contribuindo para amenizar as angústias provocadas pelos desafios contemporâneos e pelo confronto com o outro, que pode limitar os prazeres e contradizer as certezas e seguranças.

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1 (1%)
Displaying 1 - 8 of 8 reviews
Profile Image for André.
127 reviews16 followers
June 8, 2018
Contardo Calligaris veio ao Brasil pela primeira vez em 1984 e logo passou a visitar o país com frequência, mudando-se de maneira definitiva em 1989. Em seguida, começou a escrever Hello, Brasil!, originalmente lançado em 1991 e que, dado a boa recepção do público, garantiu-lhe uma coluna na Folha que existe até hoje. Fora de catálogo já há muitos anos, o livro que fez a reputação de Calligaris foi finalmente relançado no final de 2017 e conta com nova introdução e cinco textos extras.

A nova introdução e o texto original de Hello, Brasil! ocupam cerca de metade das 295 páginas no livro. Nele, Calligaris discorre sobre temas diversos como crianças, consumismo, a escravidão e sua herança sociocultural, a avaliação negativa que o brasileiro tende a fazer do país, etc. É inegável que o autor tem uma grande capacidade de percepção e consegue tecer criativos argumentos para explicar a "estranha civilização brasileira". Longe de criticar o país de maneira arrogante, Calligaris tem plena empatia pelos problemas do Brasil e, no caminho - e como admite em sua nova introdução -, aprendeu mais sobre sua relação com a Itália e seu métier de psicanalista.

Contudo, às vezes seus argumentos soam um pouco artificiais em razão do autor tentar encaixar todos os temas na ideia de uma país formado pelo colonizador, que vê o Brasil como fonte de enriquecimento fácil e alvo de sua espoliação, e o colono, que não tem um verdadeiro sentimento de pertencimento à terra e sofre com a ausência do pai, a Europa, em uma espécie de Édipo mal resolvido. Isto é, a força do livro de Calligaris é também uma fraqueza, visto que sua psicanálise do Brasil funciona como fonte de sua originalidade, mas também dá um ar algo artificial para parte de suas ideias.

Felizmente, os cinco ensaios seguintes, escritos entre 1992 e 2005, não apresentam a constrição de uma teoria como a do colonizador/colono, deixando a argumentação de Calligaris menos suscetível a certo artificialismo de Hello, Brasil!. Em minha humilde opinião, o verdadeiro valor do livro são esses ensaios, que estão repleto de pérolas, como a melancólica reflexão:

O passado das duas Américas é parecido: séculos de escravatura (...) No caso norte-americano a memória é constante, e o presente é a tentativa de fazer diferente, de romper com o passado. No Brasil, a memória vacila, quando não é denegada, mas a História triunfa: o presente se define e se explica pelo passado, mas é possível construir uma democracia formal em cima da herança preservada de um sistema de castas. Uma cultura considera o futuro como sua verdade, a outra padece da continuidade do passado, que é, aliás, chamado a justificar seu presente.
Profile Image for Andrea Phillips.
117 reviews21 followers
August 18, 2023
Hello Brasil traz muitos conceitos da psicanalise para analisar a sociedade brasileira. Foi uma leitura confusa para mim, pois nao tenho muito conhecimento a respeito de psicanalise. Algumas comparacoes a respeito dos colonos e os escravizados, achei estranhas e discordo respeitosamente.
Profile Image for João Lourenço.
25 reviews2 followers
December 11, 2018
Hello, Brasil! Livro escrito pelo psicanalista e colunista Contardo Calligaris na virada dos anos 80/90, quando estava mudando de sua terra, Itália, depois de ter morado na França e Suiça; publicação reeditada e atualizada agora.

Calligaris diz que hoje não teria condições de escrever esse livro, agora se sente um brasileiro e não consegue ver o país com olhar estrangeiro, como diz Nietzsche: “Para saber qual o prédio mais alto é preciso se afastar da cidade”.

O livro é extremamente esclarecedor e traz visões muito interessantes sobre o Brasil. Vai além das inúmeras teorias que cada cidadão tem, desde não ter frio, não ter passado por guerra.. escreva aqui a sua teoria (………).

Como é de sua profissão ele faz uma “análise”, no sentido psicanalítico, muito interessante, tendo dezenas de conclusões que se somam e pode-se dizer que não mudou nada nessas quase três décadas, só ampliou.

Gosto muito de análise do comportamento humano, mas meus conhecimentos de psicologia não vão além do senso comum, então posso falar muita bobagem aqui, mas vamos lá: Grotescamente falando buscamos reconhecimento e vivemos em eterno conflito com as figuras dos pais, falar da representação da mãe e do pai complica, pois é muito mais complexo que eu, leigo, acho que entendo.

Então o livro é muito baseado nisso, reconhecimento e as figuras assumidas pela Pátria ( A etimologia de pátria nos leva “pater”, “pai”) e desejos reprimidos e busca de prazer. O autor baseia muito da análise em duas figuras; o colonizador e o colono, o primeiro como aquele que busca apenas a exploração dos recursos, ou prazer ao máximo sem se preocupar com os danos causados, pois não pretende plantar raízes no local que explora. Já o colono, como figura que busca o reconhecimento na nova terra que não encontrou na sua Pátria anterior.

“Esse país não presta”, foi o que mais o autor ouviu ao anunciar que trocaria a Europa pelo Brasil. E fala da vergonha e orgulho, ao mesmo tempo, da corrupção, malandragem e do jeitinho brasileiro. Uma espécie de medo da cura como se a doença também fosse uma virtude.

Colocarei muitos fragmentos de anotações que fiz nas páginas: Calligaris fala muito da figura do colono que busca a imagem da terra mãe como uma fantasia, existe o esforço de conseguir o passaporte dela, mas pouquíssimo esforço em aprender a língua a história e a atualidade desse local. Como o órfão que quer a certidão de nascimento completa, mas não o convívio de quem o abandonou.

Muitas vezes se diz, - estou buscando a cidadania sem especificar de qual país, pois no esteriótipo do “colono” existe a carência de reconhecimento como cidadão, não existe o sentimento de pertencer a um lugar.

Outra característica do brasileiro é o “atirar para todos lados”, sem se ater a um único dogma, seja em religião, linha de pensamento, técnica profissional, mas sempre com o objetivo de assimilar as partes mais convenientes. Não que se deva buscar a rigidez de uma técnica, mas todas as técnicas estudadas devem ser feitas de modo completo. Aqui se cria a velha desculpa de ser eclético, flexível, que na verdade se resume a ser disforme, algo flexível tem forma clara, se ajusta as circunstâncias, mas tem uma forma definida no seu estado original.

A corrupção é status, é demonstração de poder, quanto mais corrupto maior a demonstração de poder, então, de alguma forma, no Brasil, alguns admiram e respeitam corruptos. Lembrando que essa é uma análise psicanalítica do autor, onde muitas manifestações são inconscientes e negadas conscientemente.

Educação é meio, a solução é mais em baixo e o conceito de cultura não é conhecimento de indivíduos e sim registros e historias de uma nação, seja literatura, lendas ou receita de culinária, histórias de cidades, lugares. Infelizmente nossa historia é “re”-escrita em curtos espaços de tempo, desde a proclamação da república (ou golpe militar), nossa história é apagada e re-escrita num intervalo médio de 20 anos.

Crianças — O autor ficou espantado em suas primeiras recepções que fez em sua casa, quando inúmeros convidados traziam crianças, coisa incomum na Europa, e quando se faz por lá é mencionado junto com explicações do motivo. Aqui no Brasil existe uma fantasia de que as crianças serão tudo que os pais não conseguiram conquistar, são uma versão fantasiosa de melhoria e esperança dos pais. O autor já comentou, na sua coluna semanal do jornal Folha de SP, inúmeras vezes, a idolatria da infância no Brasil, seja na falta de controle sobre crianças, como no de não se assumir como adulto em muito marmanjo(a)s por ai.

A falta de respeito, ou interesse, às regras, aqui se fala das teorias e técnicas psicanalíticas, onde o autor dava palestras sobre autores (ele conviveu com Lacan e Foucault), consagrados e também de suas teorias já estabelecidas, e as mesmas eram adaptadas e plagiadas sem o mínimo de vergonha, ou mesmo de percepção da cópia. Como se o fato de pagar por uma palestra, ou livro, da direitos irrestrito de usá-las como se fosse próprio. E também o sincretismo cultural, pega-se uma parte conveniente de cada cultura e cria-se o seu pensamento, como se a colagem de diversos itens gerassem algo original ou particular. Assim vejo muito da formação religiosa de muitos brasileiros, pega-se a religião básica, digamos a católica, acrescenta-se um pouco de espiritismo, uma pitada de budismo e um tanto de fantasia e cria-se uma nova religião, mesmo que as partes sejam de dogmas conflitantes.

A prevalência do nome em relação ao sobrenome, talvez por eu ter sido criado em região de alemães, onde se pergunta o sobrenome antes, eu não tenha percebido isso mais cedo, mas realmente esse fenômeno de inventar nomes, buscar nomes estrangeiros, ou mesmo usar sobrenomes como nome próprio. E chegar o usar o “Junior” para nomes diferentes entre filho e pai. Isso de alguma forma é refundar o indivíduo, “des-ligar” ele, talvez de uma herança não desejada da história dos pais, resetar o passado e criar uma nova história. E essas rupturas e recomeços reflitam na falta de “cultura”, de continuidade, criando fragmentos sem uma linha mestra.

O ressentimento, como a penalização do outro que tem algo que eu não tenho, seja pelo esforço dele ou a falta do meu. O ladrão que prefere o risco de um roubo a mão armada do que o furto que pode render mais. Calligaris fala de como na Europa crimes acontecem, mas na maioria as escondidadas, sem o confronto entre o criminoso e a vítima (custo/benefício), já no Brasil existe o desejo inconsciente do criminoso de subjugar sua vítima, de se impor diante do prazer que o objeto roubado poderia causar a vítima.

O consumo como status, o autor fala de como se impressionou, nos primeiros tempos, do desperdício; de numa mesa de bar, quando um copo de cerveja ficava quente, pedia-se uma nova garrafa gelada e jogava-se o líquido fora, enquanto um europeu pediria para colocar o copo na geladeira por um tempo, algo “vergonhoso” aqui. Isso iluminou muito meu pensamento e compreensão do consumismo brasileiro, não pelo desejo de ter algo, mas de mostrar que pode trocar frequentemente de roupas e objetos, até desperdiçar, só pelo status. E pensando bem, vejo o desperdício como um vício brasileiro. Lembrando uma história contada por uma pessoas que ouviu uma funcionaria falando de sua patroa: -Olha só essa calça velha, a maioria das roupas da fulana são do tempo que comecei a trabalhar aqui.

Também naquela época, eu morei em PoA no mesmo período, a placa de indicação mais conhecida da cidade não era de nenhum ponto turístico e sim da famosa “O Iguatemi é por aqui”. Ter um shopping é bem mais interessante do que ter uma praça, museu ou parque conhecido para os brasileiros.

No Brasil a vida não vale tanto assim, visto a falta de investimento em segurança, serviços de socorro, trânsito, valores de seguros, tudo relacionado a saúde, manutenção e prevenção da vida. Frase do autor: “Aqui a vida é medíocre porque a vida é barata”.

O atender telefone.. na Europa — Aqui quem fala é fulano e gostaria de falar com o Beltrano, ele está? No Brasil — Alô DE ONDE FALA? Isso demonstra bem o caráter invasivo do brasileiro, o que muitos chamam de frieza no europeu (quando falo europeu, coloco a posição do autor que é de lá, mas pode ser de outros locais) pode-se chamar de respeito a individualidade, já quando se fala que brasileiro é um povo caloroso, quente, normalmente é dizer que é invasivo, beijos, abraços, invasão de espaço e privacidade sem conhecer e saber se a pessoa aceita esse comportamento.

Calligaris, na época, fica impressionado com a quantidade de meninas de 10 anos vestidas e pintadas como sex simbols, só depois descobre o fenômeno Xuxa, e como psicanalista desvenda o segredo do sucesso da apresentadora. Na verdade ela fazia sucesso com os adultos e as meninas procuravam imitá-la para ter a atenção do pai e os meninos a cultuavam como desejo possível diante também do pai (Freud, Lacan e outros devem explicar.. ou não..). Sempre achei estranho isso, no Brasil normalmente apresentadoras infantis passam da “vida loka” para programas matutinos, nos EUA é o contrário, de infantil pra vida loka, vide Britney Spears, Lindsay Lohan e outras que meu conhecimento não alcança.

Aqui vem um nó psicanalítico, que diz; os ideais das crianças nunca são os pais, mas sim os “ideais” dos pais, então como imigrantes, nossos ideais não são os países de origem e sim seus ideais, confuso? Para mim faz sentido, acabamos criando fantasias europeias, asiáticas, africanas, falo aqui das mais comuns no Brasil. Esquecemos que alguém migrou em busca de algo melhor, pois onde estava, não estava bom, excluindo os escravos que foram forçados a sair.

O livro vai muito além do pouco descrito aqui, falo das partes que mais me chamam a atenção e das que compreendo, mesmo que ao meu modo. Aconselho a leitura, para mim um banho de água fria em algumas esperanças, nem com remédios de tarja preta (vermelha ou verde oliva para outros), se resolve, mas prefiro conhecer o terreno que piso do que me iludir em devaneios ufanistas.

Cada vez mais acredito que somos um povo estético, queremos parecer cultos, sábios, espertos, modernos, bacanas, ricos, bonitos, “sexies”, mas sem nenhum esforço. Queremos “estar” em vez de ser, parecer em vez de realmente sermos, tanto é que temos um verbo para ser e estar, enquanto no inglês só existe um o “to be”. Enquanto quisermos parecer uma nação somente por uma seleção de futebol ou algum ganhador de medalha, de um esporte que nem conhecemos, e no dia seguinte vamos parecer o maior entendido desse assunto, enquanto tivermos opinião, sem embasamento, para tudo, seremos um país somente de aparências, um dos maiores consumidores de modas, artigos de beleza, redes sociais, cirurgias plásticas e ficaremos aguardando nosso Nobel de alguma coisa.
Profile Image for Luiz Eduardo Antonello.
91 reviews5 followers
June 9, 2022
Repito na review o que disse a amigos: Se, na época em que Contardo escreveu Hello, Brasil! já tivesse sido publicado O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro (e Contardo tivesse lido), o livro seria outro.
As reflexões que Contardo traz sobre nossa psique enquanto brasileiros são ótimas, porém são feitas com base na análise de um universo específico dentre os brasileiro. A distinção colono/colonizador é bastante útil e pode de fato ser aplicada nas relações sociais e com a coisa pública que travamos aqui (como poderia, e o autor apresenta essa possibilidade, em vários outros países de colonização de exploração), porém creio que não se atenta tanto às diversas formas de sociabilidade que se distinguem bastante pelo fato de o Brasil ser um país continental - com cinco Brasis dentro, como diria Darcy (e por isso a observação do início: me parece muito claro que Contardo analisa a nossa sociabilidade de uma visão adquirida no sul/sudeste do país - lugares onde transitou -, fazendo um breve comentário sobre o interior de minas e viagens à Bahia para o carnaval, isso não é demérito, mas não explica tudo).
Em O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro de fato explica nossas origens, nossas idiossincrasias e nossas diferenças internas, analisando cinco regiões com formas de sociabilidade distintas, porém unidas por fatores diversos (gosto muito da passagem em que trata do sul e fala que quando chegou aqui o imigrante europeu, o Brasil já estava formado, e por isso o abrasileirou [diferente do que ocorreu na Argentina em que o europeu europeizou um país na época menos povoado e unificado em sua cultura]). Acho que essa diferença é que a mais me saltou aos olhos entre os dois livros. (E aqui faço a ressalva de que entendo que ambos tem propostas distintas, um mais "sociológico, outro mais "psicológico", por assim dizer).
Faço ainda uma observação sobre a falta que senti da presença da escravidão na análise "contardiana" ou "callegariana" - certo é que Contardo coloca o escravo em identificação com a própria terra que o colonizador veio aqui gozar, e depois com o próprio colono que deseja construir um país que lhe reconheça (ou com o colono/imigrante que vê como horizonte da falta de reconhecimento a escravidão). Mas as relações de raça acabam subanalisadas no livro (na minha opinião) - não só escravo era escravo, mas o escravo era negro e esse fator, junto com as teorias eugenistas do final do século XIX, início do século XX, deixaram um legado nefasto que perdura na divisão de riqueza e pobreza no Brasil até hoje.
Enfim, dizia Macunaíma: "pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são". Contardo faz uma analise envolvente, interessante e que nos mostra uma cara do Brasil (uma cara que vi em mim, que vejo em minhas sociabilidades, meu círculo e nos outros) e um caminho possível (somos o país do futuro afinal de contas) para achar o "um" que precisamos para criarmos a solidariedade necessária (e possível?).

Dos artigos tive algumas discordâncias. Principalmente do artigo "Lei e Comunidade", que começa de forma magistral - analisando muito bem certas questões nossas (e universais) da identificação com a lei e como ela se estabelece - e acaba propondo uma aplicação da "teoria das janelas quebradas" em solo brasileiro. Compreendo que o artigo tem quase 25 anos, mas a teoria há muito já foi desbancada no direito, justamente porque a ideia de mais repressão nunca resultou frutífera para sustentar uma comunidade.

Enfim, Contardo foi um grande pensador do Brasil e do mundo. Um dos que se propôs a nos traduzir. Um visão assim é louvável e nos fará falta navegando os mares futuros.
Profile Image for Gabi Stripoli .
23 reviews
November 18, 2022
Took a long time because it’s so hard to digest it that I left it hanging on my bedside table. Missed some important context of psychoanalysis; and despite that, very interesting to identify some traits and realities of my life on the opposite side of Contardo’s perspective (a Brazilian living abroad!)
Profile Image for Leonardo Wild.
20 reviews2 followers
August 5, 2020
Um ensaio antropológico e metapsicológico que busca entender o funcionamento da sociedade brasileira e dos brasileiros. - Uma análise sobre a constituição do “estranho”, sobre o dia a dia e tudo que se carrega de estranho nisso. Algo que somente pode ter excelência pelo olhar desse estranho que chega, desse estrangeiro, desse que estava fora. E é pelos caminhos da entrada em uma outra lógica, em outro laço social que o livro se desdobra. Uma experiência muito única que surgem-se um autor muito singular, que viveu em vários lugares e teve contato com algumas culturas. - Adicionaria a recomendação das palestras dadas por esse autor e outras obras mais “técnicas” de Contardo, sobre a técnica da psicanálise, principalmente nos que estão constantemente “fora do social”, os psicóticos.
Profile Image for Samara Marreiro.
3 reviews
June 10, 2018
A nova edição traz o mesmo conteúdo da primeira publicação com um prefácio e notas de rodapé sobre o que mudou na visão do autor desde então. Uma ótima análise sobre ser brasileiro, sobre a dualidade entre colonizador e colonizado, ambas habitando cada descendente desta terra brasileira.
Profile Image for Rodrigo Nemmen.
65 reviews3 followers
August 30, 2023
Decepcionado com a análise rasa do autor. O "overstretching" da psicanálise como única ferramenta para entender nossa sociedade ficou claro. Melhor usar o tempo lendo outras críticas mais sagazes da nossa estranha civilização.
Displaying 1 - 8 of 8 reviews

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