No nosso país, existem mais de 1000 funerárias e o negócio lutuoso emprega 6000 pessoas, mas quase ninguém conhece os bastidores da indústria dos óbitos. Serão os agentes funerários aproveitadores ou uma ajuda preciosa num momento difícil? Qual o custo médio de um funeral? Que produtos e serviços existem no mercado? Há monopólios nesta área? E como é lidar diária e profissionalmente com a morte? Dos aspectos caricatos às histórias que ninguém quer contar, este é o retrato de um sector desconhecido e desconcertante, que revela o lado humano, mas também empresarial, de Viver da Morte em Portugal.
Neste livro que condensa um retrato das agências funerárias em Portugal, Rita Canas Mendes tenta mostrar-nos o trabalho daqueles que vivem da morte. Sendo um tema infelizmente ainda tão tabu na sociedade, foi com imensa curiosidade que parti para esta leitura. Em 2017 a autora participou na Expo Funerária e a partir daí desenvolve este livro. Com uma linguagem muito simples e com laivos de humor, este estudo apresenta-nos a atividade em que nunca pensamos, até dela necessitarmos. O estudo poderia ser mais aprofundado se houvesse mais abertura por parte das agências. Rita Canas Mendes teve bastante dificuldade em ir ao terreno recolher testemunhos pois não houve disponibilidade ou vontade de a receber. Do que li, parece que as lutuosas ainda têm um caminho a percorrer de forma a ir mais ao encontro daquilo que o cliente quer/necessita ao invés de vender apenas aquilo que tem disponível no seu portfólio.
Possivelmente uma das reportagens mais engraçadas que já li sobre um tópico pesado, neste caso o da indústria funerária. A visão de Rita Canas Mendes (um nome que desconhecia por completo e ao qual prestarei mais atenção no futuro (salvo as traduções de livros de Harari que dispenso bem)) é algo pragmática neste assunto - através de visitas a exposições do setor lutuoso, conferências, entrevistas e exemplos anedóticos pinta uma perspectiva clara de uma atividade algo tradicional, com dificuldades em inovar (salvo pontuais casos), sujeita como qualquer outra às complicações do capitalismo mas aproveitando (e sofrendo) do seu estatuto único como a que se dedica às últimas partidas de milhares de pessoas todos os anos. Houve alguma pena minha em haver tanta empresa do setor com receio ou dificuldade em expor partes da sua atividade, mas Canas Mendes dá a volta por cima e entrega um maravilhoso relatório. Talvez dos meus livros preferidos da FFMS.
Apesar de já ser de 2018, faz uma abordagem inovadora a um tema que não é muito falado e que muitas vezes se faz por não se falar, além do retrato corajoso e meritório, caracterizador da indústria. Seria muito interessante ver a autora a debruçar-se novamente no tema dentro de poucos anos, confrontando muitas das diferenças que sucederam e que ainda vão suceder. Até porque, além das novidades, pelo meio aconteceram eventos que inevitavelmente deixaram as suas marcas na forma como olhamos e vivemos a experiência da morte, como a recente pandemia de Covid-19.
Que livro excelente pela abordagem desempoeirada e realista que a sua autora faz a um sector que preferimos ignorar até ao momento em que não nos podemos furtar à sua presença. São avançados dados sobre este negócio, vicissitudes várias e até curiosidades que vão surpreender o mais incauto leitor. Recomendo!
Um livro extremamente interessante. A abordagem da autora torna esta leitura deveras fluída e cativante, ao mesmo tempo que aprendemos imenso sobre um sector tão pouco conhecido pela maioria de nós. A FFMS continua a surpreender pela sua qualidade ao trazer até nós obras verdadeiramente extraordinária e actuais.