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Nem Todas As Baleias Voam

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Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. Organizando concertos com grandes nomes do jazz nos países do bloco soviético, os americanos acreditavam poder seduzir o inimigo e ganhar a guerra.

É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista de blues, exímio e apaixonado, que vê sons em todo o lado e pinta retratos tocando piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro, sem deixar rasto, sem deixar uma carta de despedida.

Erik Gould tentará de tudo para a reencontrar, mas não lhe resta mais esperança do que o acaso. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que fará a diferença graças a uma caixa de sapatos.

288 pages, Paperback

First published November 9, 2016

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About the author

Afonso Cruz

98 books1,993 followers
Nasceu em 1971, na Figueira da Foz e estudou nas Belas Artes de Lisboa, no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e na António Arroio. É escritor, músico, cineasta e ilustrador.
Escreveu seis livros: A Carne de Deus (Bertrand), Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal - Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010), Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho - Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Caminho - Prémio Autores 2011 SPA/RTP; escolha White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011) e A Boneca de Kokoschka (Quetzal), O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho). Participou ainda nos livros Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas (Saída de Emergência), O Prazer da Leitura (FNAC/Teodolito) e O Caso do Cadáver Esquisito (Associação Cultural Prado).
Ilustrou, desde 2007, cerca de trinta livros para crianças, trabalhando com autores como José Jorge Letria, António Torrado, Alice Vieira. O livro Bichos Diversos em Versos foi seleccionado pela Biblioteca Internacional de Juventude /White Ravens 2010 e Galileu à Luz de uma Estrela ganhou o Prémio Ler/Booktailors 2011 - Melhor Ilustração Original. Também tem publicado ilustrações em revistas, capas de livros e publicidade.
Em 2007 gravou um disco (Homemade Blues) com a banda de que é membro, The Soaked Lamb, para o qual compôs todos os originais, escreveu letras, tocou guitarra, harmónica, banjo, lap steel, ukulele e cantou. Em 2010, lançou um novo CD, Hats and Chairs, apenas de originais e com vários convidados.
Trabalhou como animador em vários filmes e séries tais como A Maravilhosa Expedição às Ilhas Encantadas; pilotos de A Demanda do R, Toni Casquinha, Óscar, As aventuras de João sem Medo; e vários filmes de publicidade.
Fez layouts para alguns episódios da série Angelitos e realizou vários filmes de O Jardim da Celeste, Rua Sésamo e Ilha das Cores.
Juntamente com mais duas pessoas, realizou uma curta-metragem chamada Dois Diários e um Azulejo, que ganhou duas menções honrosas (Cinanima e Famafest), um prémio do público e participou em diversos festivais internacionais. Também foi o realizador de O Desalmado e da série Histórias de Molero (uma adaptação do livro de Dinis Machado, O Que Diz Molero). Para publicidade destaca-se a campanha Intermarché onde realizou mais de duzentos filmes durante os anos de 2006 e 2007.

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94 (4%)
1 star
14 (<1%)
Displaying 1 - 30 of 238 reviews
Profile Image for Silvéria.
499 reviews240 followers
August 15, 2017
Em primeiro lugar, quero dizer-vos que este não é, na minha modesta opinião, o primeiro livro que devem ler do Afonso Cruz.
É maravilhoso como todos os outros que já li dele (esta foi a minha sétima leitura...), dotado de emoções como sempre, mas tem uma certa mística que o distingue de todos os outros, talvez por estar relacionado com algo tão especial como a música.
Só "conheço" o Afonso Cruz de eventos literários, nunca tive qualquer contacto muito pessoal com ele, mas atrevo-me a dizer - até porque ele, além de escritor, é músico - que temos muito dele neste livro.
Todos os livros dele são únicos. Este é ainda mais único. E receio não o ter aproveitado ao máximo numa única leitura.
Profile Image for Sofia Teixeira.
608 reviews132 followers
December 15, 2025
Não sei se existe algum outro autor que me cause uma urgência tão grande de leitura como Afonso Cruz. Não, não lhe chamaria obsessão, mas antes uma necessidade visceral. Há qualquer coisa na escrita de Afonso Cruz que, mesmo variando a temática e o formato (afinal escreve desde livros infantis a enciclopédias, passando pelos romances, em que por vezes não se sabe bem se são para adultos ou crianças, mas que na verdade apenas significa que são para todos), me tocam profundamente. Nem todas as baleias voam, o seu mais recente romance, não é excepção a este toque de midas literário. Aliás, dada a minha recente ligação mais intrínseca à música, raras não foram as vezes em que senti de sobremaneira algumas passagens.

Esta é uma obra que volta a cruzar a uma série de géneros: o romance romântico, o toque de thriller com laivos de espionagem, inevitavelmente o romance histórico e, claro, a poesia. Não é fácil falar sobre um livro de Afonso Cruz porque, após terminada a leitura, parecem não haver palavras capazes de fazer jus ao que realmente se sentiu durante a leitura. Para não falar na genialidade com que o cruzamento de histórias e o entrelaçar de personagens é feito. Não só dentro do próprio Nem todas as baleias voam, mas também com outras obras suas. Há nomes que poderão ser mais familiares que outros, mas a sensação que dá, a cada nova história, é que toda a obra de Afonso Cruz não passa de uma grande família da qual ainda conhecemos pouquíssimo, mas que sem sombra de dúvidas queremos conhecer por completo.

Gostei da forma como Nem todas as baleias voam me fez voltar a ouvir alguns clássicos do jazz, a forma como me fez sorrir, como me levou as lágrimas aos olhos, como me fez antecipar, em pleno sofrimento, por um desfecho trágico, como depois senti algum alívio, como pelo meio fiquei completamente assombrada pela teia que se encontrava escondida até então... Podia ficar aqui por muito mais linhas, mas acima de tudo acho que é um livro que deve ser lido. Que deve sair das prateleiras das livrarias e habitar as mesinhas de cabeceira para depois ganhar uma nova vida na nossa imaginação, para que depois sintam o contributo sensível e brutal com que este livro nos presenteia.

Queria contar-vos sobre a caixinha de sapatos para os doentes terminais. Do quanto nos questionamos o que é que realmente colocaríamos lá. Gostava de vos falar sobre o amor de Erik Gould, inabalável, infinito, tão vivo que toda a sua obra cresce tanto com a intensidade do mesmo como com o sofrimento atroz da ausência. Adorava que conhecessem Dresner e a razão do seu coxear. Oxalá pudéssemos todos ver as emoções tomarem forma e sermos capazes de enfrentar e acarinhar a nossa morte como Tristan. E preparem-se, o Escritor não vai ser nada daquilo que ao início podiam pensar. No fundo, quem me dera que realmente a música resultasse como solução de guerras que só o homem cego teima em perpetuar. Não quero falar-vos mais sobre a vida deste romance, quero que o leiam, quero se transportem para lá, quero que o sintam. Afonso Cruz é, para mim, o mais completo dos escritores portugueses da actualidade.



Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.
Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. (...) O programa americano pode ter falhado - o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num baile em vez da explosão de bomba de hidrogénio.

Sobrevivi a quatro mil toneladas de bombas atiradas contra Dresden, sobrevivi ao Holocausto, sobrevivi ao capital e aos programas de televisão. Sobrevivi. Ou seja, tenho vindo à tona, como uma baleia. Mas a maldade, de alguma maneira aberrante e perversa, é uma espécie de estrume. E a vida, por mais incompreensível que seja na sua génese e no seu cumprimento, nasce disso, da terra, do barro, da lama, da merda, se me permite a expressão, faz-nos medrar, e eu, envergonhado, contido, penso que é a maldade a terra mais fértil para a bondade e que o contacto com o fel faz nascer a coisa mais doce. Acho que todos mudamos em contacto com o mal. É o motor. Sei que é horrível, mas o que fazer? Todos os dias rezo para que o mal não deixe de aparecer na minha vida, ao mesmo tempo que o abomino. Adonai, afastai de mim todo o mal, Adonai, aproximai de mim todo o mal. Quando deixar de o fazer, de sentir a corrupção, quando não detectar o mal à minha volta, mais vale estar morto.

Se Tristan soubesse verbalizar as suas emoções, seria assim: Estou à espera de que a felicidade comece a crescer como os bebés no útero das mãos e que um dia nasça e chore e queira mamar e nós eduquemos a felicidade e a levemos à escola para que saiba ler as letras das nossas veias e fazer contas de multiplicar com a nossa saliva, estou à espera de um beijo daqueles que são dirigidos somente a uma pessoa, e não daqueles que se dão a pensar em alguém que está longe, estou à espera que o dia chegue ao fim e que não comece outro, porque os dias são uma chatice. Mas Tristan não saberia verbalizar as suas emoções, portanto:
- Ia comer primeiro.

(...) eram isso os fantasmas, restos das pessoas que amámos, e a nossa casa ficava assim, repleta de assombrações modernas e antigas, densas e subtis. Tínhamos um protocolo com a memória, tínhamos assinado, juntamente com a dádiva da vida, o compromisso de carregar os mortos no nosso corpo, nos móveis da casa, nas paredes e na luz esmaecida dos candeeiros de estanho e de cobre, e cumpríamos esse contrato com um rigor e uma ética absolutamente notáveis, a ponto de, tantas vezes, chorarmos sem qualquer razão aparente.
Profile Image for Rita.
163 reviews
December 6, 2016
Sempre que leio um livro de Afonso Cruz fico com a sensação de que alguém me abriu o cérebro e limpou todo aquele lixo que dificulta a percepção de que a vida é muito mais simples e pura do que aparenta. Sempre que termino um livro de Afonso Cruz fico à espera do próximo. Qualquer livro que leia após ter lido um livro de Afonso Cruz sabe sempre a pouco.

"Nem todas as baleias voam" é um romance mais maduro do que os anteriores mas é igualmente delicioso. Tive algumas dificuldades em prender-me à história, talvez devido à temática (um pouco sombria). Achei a primeira parte do livro mais pesada, mas assim que o autor nos agarra não nos larga mais.

Conhecemos Erik Gould, um pianista apaixonado que coloca na sua obra toda a intensidade e sofrimento que caracteriza a sua paixão por Natasha.
"Há metades que funcionam. Por exemplo, as meias doses nos restaurantes. Mas há outras metades que são o maior desastre, como um cirurgião que interrompe a operação a meio. E eu, sem a Natasha."

Conhecemos Tristan, filho de Gould e Natasha, um rapaz que vive de mão dada com a morte e que por isso decide colocar dentro de uma caixa de sapatos todos os objectos realmente importantes e que quer guardar após a sua morte. Tristan tem a capacidade/virtude/infelicidade de dar forma às suas emoções, ainda que não as consiga verbalizar.
"Se Tristan soubesse verbalizar as suas emoções, seria assim: Estou à espera de que a felicidade comece a crescer como os bebés no útero das mães e que um dia nasça e chore e queira mamar e nós eduquemos a felicidade e a levemos à escola para que saiba ler as letras das nossas veias e fazer contas de multiplicar com a nossa saliva, estou à espera de um beijo daqueles que são dirigidos somente a uma pessoa, e não daqueles que se dão a pensar em alguém que está longe, estou à espera que o dia chegue ao fim e que não comece outro, porque os dias são uma chatice. Mas Tristan não saberia verbalizar as suas emoções, portanto: ia comer primeiro."

Reencontramos Isaac Dresner, personagem presente em várias obras do autor, o homem que coxeava do pé direito porque a cabeça do seu melhor amigo caiu em cima da sua bota depois de levar um tiro de um soldado alemão. A quem interesse: Dresner é o homem que se esconde debaixo do balcão da loja de pássaros em "A Boneca de Kokoschka".

"Eram isso os fantasmas, restos das pessoas que amámos, e a nossa casa ficava assim, repleta de assombrações modernas e antigas, densas e subtis. Tínhamos um protocolo com a memória, tínhamos assinado, juntamente com a dádiva da vida, o compromisso de carregar os mortos no nosso corpo, nos móveis da casa, nas paredes e na luz esmaecida dos candeeiros de estanho e de cobre, e cumpríamos esse contrato com um rigor e uma ética absolutamente notáveis, a ponto de, tantas vezes, chorarmos sem qualquer razão aparente."

Se soubesse verbalizar as emoções que senti ao ler este livro este post seria bem mais rico, mas parece que Tristan e eu temos em comum essa dificuldade em verbalizar. Assim sendo acrescento apenas isto: leiam "Nem todas as baleias voam", é imperativo!

http://clarocomoaagua.blogs.sapo.pt/o...
Profile Image for Martina .
203 reviews
July 4, 2018
#LerOsNossos

Um autor que muito admiro disse, numa das suas obras de arte, que “um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.” e também que “Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim, o estômago da cabeça que se alimenta de palavras e de letras.” e ainda que “Encheremos o mundo de coisas preciosas. Serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais.”. Somos uns sortudos por vivermos num mundo com estas “coisas preciosas”, como são, de resto, exemplo os livros deste mesmo autor que muito admiro e de quem continuo e continuarei a ser fã. Por favor, não os ignorem, são livros que alimentam bem o nosso 3º estômago.

Profile Image for Susana Frazão.
249 reviews2 followers
August 18, 2020
3,5! (apesar desta escala de 0 a 5 ser bastante redutora...goodreads pensem numa escala maior !!) Ainda não foi com esta obra que fiquei rendida ao autor, apesar de gostar da escrita e da história, não me consegui render a esta obra..contudo sou uma pessoa persistente e o próximo livro que vou apostar será o mais aclamado do Afonso, "Para onde vão os guarda chuvas"... A quem ler esta pequena crítica, se tiverem mais sugestões de outras obras do autor agradeço :)
Profile Image for Sofia.
1,038 reviews128 followers
April 14, 2017
Com este livro posso finalmente afirmar que Afonso Cruz é um dos meus autores preferidos. Parece estranho, dado que só estou a dar 2 estrelas a este livro, mas é mesmo isto. Todos os "meus" autores escreveram um livro que eu não gostei, este foi o dele.
A história passou-me completamente ao lado, não senti que fosse um enredo propriamente dito, nada...passei o livro todo com um WTF gigante na cabeça.
A excepção que confirma a regra.
Profile Image for Ana Jembrek.
239 reviews186 followers
July 1, 2021
Volim Cruza, od prve pročitane knjige. Odgovara mi njegov pjesnički stil i oštrina pera. Ali ova knjiga je nešto posebno; po sadržaju - neočekivano posebno. Otac koji vidi glazbu, sin koji vidi emocije i majka koja nedostaje; nisam ni slutjela kakvu priču namjerava upogoniti Cruz. I taman kad sam mislila da me ne može više iscipelariti, Cruz razrješuje rukavice i napiše epilog koji se pamti, s posljednjom rečenicom nakon koje sam (na plaži) poželjela leći u fetusni položaj i otpustiti dušu da istekne u more. Da, takva neka knjiga. ❤
Profile Image for Ritinha.
712 reviews137 followers
Read
April 2, 2018
Bitaitarei lá para meados do mês.
Profile Image for Susana.
542 reviews181 followers
December 7, 2025
- Sabes como me prostituí pela primeira vez? Julgas que foi para sobreviver? Tens razão, mas antes de ter fome tinha vontade de ter um fagote. Quando saí [de casa], tive vontade de tocar Bach e deitava-me com homens para ter dinheiro para um fagote. Foi Bach quem me levou para este mundo, foi o meu primeiro chulo, ainda eu não tinha falta de sopa e pão[...]. Foi ele o meu primeiro proxeneta.
- Proxeneta?
- Sim, Bach.

(pág. 60)

- Acredita no destino?
- De certa maneira. Se tivesse aquilo a que Espinosa chamou a visão de Deus, então o destino seria evidente. Felizmente, fomos presenteados por algo muito mais valioso, que nos dá liberdade: a ignorância. Por ignorarmos o destino, temos a possibilidade de agir em liberdade, como se o destino não fosse um facto consumado.
- É estranho sermos livres graças à ignorância [...] Os livros todos que tem aí não explicam o assunto de forma mais coerente?
- Não, os livros não explicam nada.
- Então, porquê lê-los?
- Para ignorar mais. É assim que nos tornamos cada vez mais livres.

(pág. 129)

É desconfortável? É. Mas é muito bom.

Não é fácil para mim comentar as obras deste autor, por isso vou limitar-me a recomendar a sua leitura.

description
Profile Image for Carla.
184 reviews25 followers
July 10, 2017
Foi com grande espírito de sacrifício que li o presente livro até ao fim. Não que seja masoquista, mas nunca abandono os livros, pois penso que, a qualquer momento, pode haver uma reviravolta na história, ou o escritor pode abordar factos interessantes, ou o final pode ainda vir a ter um desfecho surpreendente pela positiva.

Além disso, fiz questão de lê-lo até ao fim, porque gostei imenso do outro livro que li do autor Afonso Cruz, com o título "Flores", e o resumo da história escrito na contracapa do livro pareceu-me interessante e intrigante, tendo suscitado a minha curiosidade: por um lado, um músico brilhante, que sofre um desgosto de amor, quando a sua mulher desaparece e o deixa sozinho com um filho ainda criança, nunca desistindo o primeiro de a procurar e de ter esperança em reencontrá-la; por outro lado, um plano engendrado pela CIA, no auge da Guerra Fria, durante os anos 60, em cativar e seduzir os jovens do leste europeu, através da difusão da música jazz em contraposição com a música clássica em voga nesses países, de forma a causar simpatia pelo estilo de vida americano e recrutar espiões.

Contudo, só na parte final do livro é que se põe em prática o plano da CIA, que me pareceu ser a parte menos desenvolvida da história, não tendo o autor conseguido ou querido dar-lhe a importância que se enunciava no início, pois na maior parte do livro aborda-se a vida sofrida das personagens principais do mesmo, o pianista obcecado como o desaparecimento da mulher e o seu filho, que perdeu simultaneamente a mãe, e em parte, o pai, que o negligencia e quase não dá pela sua presença, deixando-o ao cuidado, quando se ausenta em viagens de trabalho, de um casal de judeus, uma pintora e um editor e dono de uma livraria, o último dos quais sobreviveu a um campo de concentração nazi.

E entristeceu-me que muitos dos capítulos do livro abordassem a solidão de uma criança, que segundo o autor, se estava a tornar num velho, e cuja morte o acompanhava sempre, na pessoa de uma idosa que só o mesmo via.

A outra parte da história de que também não gostei, porque, apesar de poder ser uma ideia original, é de uma crueza extrema, foi a descrição ao pormenor dos métodos de tortura inflingidos a duas mulheres e a um homem raptados por um misterioso escritor editado pelo dono da livraria amigo do pianista, o qual conseguia escrever obras muito boas, pois a partir do sofrimento que o mesmo provocava nas suas vítimas, estas conseguiam narrar-lhe histórias de grande qualidade.

Ora, eu não gosto de ver a escrita como um acto de sofrimento contínuo que é fruto não da vontade e da liberdade, mas da coação praticada por um terceiro.
Profile Image for Adriano Abreu.
18 reviews79 followers
December 31, 2016
[NEM TODAS AS BALEIAS VOAM | QUEM ME DERA PODER SOFRER DE SINESTESIA]

que maneira mais sublime de terminar o ano. Afonso Cruz não desilude nunca.
com a sua escrita poética que me consome a alma (no bom sentido claro). Afonso Cruz é dos poucos autores portugueses que respira, transborda e inspira poesia.

desta vez a sua arma é a música, não fosse ele também um grande músico nos Soaked Lamb , num período inóspito da história (Guerra Fria), Cruz apresenta-nos Erik Gould. Um compositor famoso na sua época, que sofre de sinestesia ou seja vê música em qualquer coisa. eternamente dilacerado pela partida da sua musa Natasha Zimina. Gould tem um filho Tristan que sofre do mesmo mal, sinestesia, contudo não conseguindo verbalizar as suas emoções transporta isso para as suas visões. vê sentimentos personificados em pessoas que só ele consegue ver e ter contacto. Chega uma dia até ver a sua própria morte.

Cruz, neste romance lança várias ideias contudo uma despertou bastante a minha atenção. para a criação da boa ficção, a mesma tem de ser extraída da dor. O autor recorre a vozes (pessoas) que são torturadas tendo em vista a extracção da melhor ficção (penso eu que é assim, pelo menos foi o que eu percebi (risos).)

Nem Todas as Baleias de Afonso Cruz é a celebração da música (sendo um símbolo de paz), mais propriamente ao jazz; dos sentimentos, emoções e da arte. quem me dera poder sofrer de sinestesia para que pudesse ter uma visão mais colorida e artística. a escrita de Cruz é certamente cativante, estimulante e inspiradora. neste romance contudo verificamos que está mais maduro, quizá um tanto sombrio e soturno devido ao tom da narrativa. mas não por esta escrita poética mais triste que o livro deixa de ser fantástico. a cada livro apaixono-me mais por Afonso Cruz.

Simplesmente, brilhante.
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Favourite Quotes

"Eram isso os fantasmas, restos das pessoas que amámos, e a nossa casa ficava assim, repleta de assombrações modernas e antigas, densas e subtis. Tínhamos um protocolo com a memória, tínhamos assinado, juntamente com a dádiva da vida, o compromisso de carregar os mortos no nosso corpo, nos móveis da casa, nas paredes e na luz esmaecida dos candeeiros de estanho e de cobre, e cumpríamos esse contrato com um rigor e uma ética absolutamente notáveis, a ponto de, tantas vezes, chorarmos sem qualquer razão aparente."

"a vida é a retenção da respiração da alma"

"a arte é uma doença da expressividade humana."
Profile Image for Márcia Balsas.
Author 5 books105 followers
January 22, 2017
Será possível vencer uma guerra com a música?
Esta é uma premissa interessante e verídica, pois o plano Jazz Ambassadors (CIA) tinha o objectivo de cativar a juventude de Leste para a causa americana. Está na sinopse, não é spoiler, e no último FOLIO Afonso Cruz revelou que este plano fora o ponto de partida para o novo livro. Para mim foi uma novidade, desconhecia tal plano, e fiquei verdadeiramente entusiasmada com o livro.
Agora que o li, o Jazz Ambassadors parece-me muito pequeno e sem graça ao pé de tudo o que o Afonso construiu neste livro. São as pequenas coisas que nascem ao redor do fio condutor que é o plano, que guardo. As frases que reli, permanecendo na mesma página, as reflexões que me seguem, mesmo depois de fechar o livro, a sensação de brincar com os limites, quando se esbate a linha que separa a crueldade da beleza.
Há muito para descobrir nas profundas camadas que as palavras formam nas páginas de Nem Todas as Baleias Voam. Desconfio que não haverá uma releitura igual e, de cada vez, virão novos pontos de vista à superfície.
Há uma cadência de dor que arrepia e, ao mesmo tempo, envolve. Há uma vontade de parar e uma necessidade de prosseguir. É, para mim, mais um livro fantástico do Afonso Cruz.
“- Gostava daquele bar, do Delon, e gostava da sua flor, porque as tulipas raiadas são flores doentes. A sua beleza vem de uma doença. A normalidade nunca fez bem a ninguém, mas a anomalia, aquelas estranhas cores que pintavam as pétalas, como se Van Gogh fosse o autor do Universo, elevavam a flor a um estatuto artístico, era a doença que a fazia mais bela do que o habitual. A arte é uma doença, a humanidade nasceu de um macaco doente, como uma tulipa raiada. Foi um desvio que o levou a erguer-se na savana e a sentar-se mais tarde num bar de Montmartre. Abençoadas doenças, Tristan.
- E não matam?
- Matam, são a coisa mais triste do mundo.” (pág. 254)
http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/ne...
Profile Image for Dário Moreira.
73 reviews16 followers
August 25, 2021
Se soubesses que a tua morte se aproxima, o que colocarias dentro de uma caixa de sapatos? Quais seriam os objectos que escolherias guardar antes de morrer? Sinto que aquilo que somos vem da resposta que damos a estas perguntas. Quando um livro nos deixa perguntas maiores do que nós, é porque nos ofereceu as palavras certas.
Ler um livro do Afonso Cruz é aproximarmo-nos da bondade que se esconde nas tocas do mundo. Sentimos a dor e a esperança, elas existem e andam de mão dada nas palavras dos livros. Mas ainda bem, porque significa que, apesar de tudo, este pode ser um bom lugar.
Profile Image for Maria  Pelotte ⚡️.
114 reviews25 followers
November 7, 2022
Não é o meu preferido de Afonso Cruz mas tem duas das personagens que ficarão para sempre na minha memória e coração.
Profile Image for Célia | Estante de Livros.
1,188 reviews276 followers
December 6, 2025
Este livro tem passagens bonitas, mas o meu apreço pelo que li ficou por aí. É difícil encontrar um fio condutor neste enredo e fica muita coisa por explicar... certamente que a mensagem que Afonso Cruz quis passar é válida e meritória, mas não chegou a esta leitora.
Profile Image for Mariana.
708 reviews28 followers
December 4, 2018
Afonso Cruz é um dos escritores mais talentosos que conheço. É capaz de escrever parágrafos que davam autênticos poemas. Contudo, as histórias que conta nem sempre estão ao nível da sua escrita.
Para mim é o caso deste livro.
A ideia base da trama é interessante, mas tudo decorre de forma demasiado lenta, arrastada até. Dei por mim a entediar-me por diversas vezes pois o Afonso Cruz exagera. É capaz de tornar uma simples subida dentro de um elevador numa descrição poética e detalhada de todo o processo.
Já em relação à história, muitas coisas ficaram por desenvolver. Apesar de achar que o título e o seu significado (que percebemos só ao ler o livro) são interessantes, a história fica, a meu ver, sub-desenvolvida.
Assim, este livro serviu para confirmar a minha relação de amor-ódio com este autor: tem livros que simplesmente me fascinam e outros que me desiludem.
Acho que preciso de fazer uma pausa de Afonso Cruz nos próximos tempos.
Profile Image for Diana Lopes.
26 reviews3 followers
August 25, 2022
Este livro é mágico! Le-nos as entranhas e faz-nos pensar o significado da vida e da morte. "Não abras as gaiolas aos pássaros, senão eles morrem de liberdade."
Profile Image for Vasco.
81 reviews33 followers
November 11, 2022
há uns anos, depois de ouvir as maravilhas que se diziam sobre o talento de Afonso Cruz, decidi ler o Flores. admito que, não me arrebatou e, não consegui ver o que toda a gente via naquela narrativa.

alguns anos mais tarde, depois de alguma resistência (e de continuar a adquirir livros do autor), decidi iniciar a leitura de "Nem Todas as Baleias Voam". escolhi este título por ter como tema principal a música e por se focar na vida de um pianista.

à medida que fui avançando na história, percebi que, mais do que ser uma história sobre música ou sobre um pianista, é um livro sobre o amor. sobre as inúmeras formas que pode assumir e como a sua imprevisibilidade pode afetar as nossas rotinas e as relações que assumimos com os outros.

definitivamente, este livro acaba por ser um celebração do amor, sobre as suas diferentes manifestações, e sobre como o podemos encontrar nas coisas simples - seja na dor de um pai, no silêncio de um filho, ou nas teclas de um piano.

a verdade é que, terminei o livro completamente destruído. aqueles últimos momentos emocionaram-me de tal forma que, virei a última página, afogado em lágrimas.

agora, acho que começo a entender a sensibilidade e a mestria da escrita do Afonso Cruz e, sei que quero continuar a envolver com as suas personagens, da forma singela como ele as apresenta, carregadas de ternura.
Profile Image for Angela.
664 reviews30 followers
March 30, 2018
3,5*

"Já reparou que o principio básico, modular, da sociedade não é a democracia nem o comunismo nem o capitalismo, é a pulhice? Com uma grande quantidade dela consegue-se uma nação abastada, obesa, a cheirar a courato, uma nação que não consegue baixar-se por causa da banha nas articulações, é a sedentarização, e de lá de cima, essa sociedade, saciada com a carne dos pobres, escarra o muco esverdeado em cima dos próprios pés, e o povo acorre para lamber aquilo, de joelhos, a adorar o deus do ouro e sebo. Que dia é hoje?
-Sexta-feira senhor Dresner.
-edinaC.
-Isso.
-As células, garçon, são os tijolos dos seres vivos, os átomos são os tijolos das coisas, e com pulhice constrói-se uma nação sólida. Eis o osso da sociedade:a canalha. Se tivermos muita, podemos esperar prosperidade.
-Mais alguma coisa senhor Dresner?
-edinaC.
-Posso trazer a conta?
-Conheço o proverbio?
-Qual?
-Desconfia das águas silenciosas, dos cães silenciosos, do inimigo silencioso.
-Não conhecia. Posso trazer a conta?
-Com certeza."


Profile Image for Nuno Carola.
145 reviews8 followers
July 11, 2020
“— Acredito. Mas tem a certeza que era tímido?
— Certeza absoluta. Despiram-se, Erik Gould e a iemenita, num quarto da Pensão Polónia, Sir, ela com a sua beleza espantosa, e ele com a sua inexperiência. Ele terá dito, mais tarde, a um amigo, que procurou nela uma canção, mas não a encontrou. Vestiu-se e virou-lhe as costas sem se terem tocado. Não sei se ela disse alguma coisa nesse instante, mas os gritos que se ouviram na rua quando ela se debruçou na janela foram estes: «Paneleiro nojento! Vai levar no cu.»
— Supus que a iemenita tivesse mais imaginação, mas os insultos foram vulgares.
— Concordo.
— Nunca mais se viram?
— Não, nunca mais se viram. O importante é perceber o modo como ele dramatiza o amor. Ou tudo ou nada. Pode pôr à sua frente a mais bela mulher do mundo, nua, que, se ele não encontrar nela uma canção, virará as costas.”


Opinião no Blogue:

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Profile Image for Sara Oliveira.
478 reviews802 followers
June 13, 2023
3.5 ⭐️

TW/CW:

Começo por dizer que foi o meu primeiro livro do autor, e já me foi dito que talvez não seja o melhor por onde começar. Apesar de tudo a minha parte favorita foi, sem dúvida, a escrita - levou algum tempo a habituar-me, e exigiu algum esforço mental pelo vocabulário utilizado, mas rendi-me por completo à escrita.

De notar que, pode ter sido mais complicado habituar-me pela falta de hábito de ler em português - mas estou a trabalhar nisso!

A temática da música foi muitíssimo interessante de acompanhar, e admito que a meio do livro já só queria continuar e continuar, no desvendar desta história que me agarrou por completo. Gosto especialmente da incorporação de conversas paralelas nos capítulos de "Relatório Gould", creio que tornaram a dinâmica toda do livro muito mais interessante.

Mas foi no final que encontrei a minha desilusão com a história... Pessoalmente, não gosto de livros com finais abertos. Estava mais do que intrigada com os vários POVs que estava a seguir, e a maneira como pouco a pouco se foram interligando até conseguirmos ver o puzzle completo, e depois: nada. Para mim, não houve aqui nenhuma conclusão notável, uma exposição de onde terminaram os nossos personagens, especialmente a Natasha.

É uma preferência minha, mas fiquei quase que a suster a respiração de antecipação do que iria acontecer, para terminar ali o livro. Fiquei algo insatisfeita com o final, mas curiosa o suficiente para querer voltar a ler algo do autor.

Qual é que recomendariam?

Profile Image for Tânia Dias.
167 reviews13 followers
February 24, 2023
Inesquecível. Maravilhoso da primeira à última página. 💙
Profile Image for Maria Inês Serrazina.
49 reviews4 followers
August 10, 2024
Uma beleza inexplicável e muito fora do comum. Sem grande história, ou com uma grande história que não vai muito longe. Mas com frases tão bonitas e construções tão curiosas que fica a ressoar durante muito tempo.

As personagens são exploradas mas não em demasia. É-nos dado o suficiente para que fiquem connosco e as continuemos a conhecer melhor à medida que deixamos o livro assentar.

Vale a pena. Como tudo o que o Afonso Cruz escreve, arriscaria dizer.
Displaying 1 - 30 of 238 reviews

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