Nas "Penseés diverses sur la comète" de Pierre Bayle, o ateísmo se configura mais, e antes de tudo, como uma atitude crítica, isto é, não podendo ser encarado ou estabelecido como uma doutrina, sistema ou corrente de pensamento, mas tendo o seu lugar como um ponto de vista e prática críticos. Quando o filósofo de Carla opõe o ateísmo à idolatria, à superstição e ao fanatismo, ele o faz à luz de um conjunto de práticas de indagação e explicação dos fatos mundanos. Portanto, enveredar pelo ateísmo não é vinculá-lo, pensá-lo, ou mesmo limitá-lo a uma doutrina, mas constatar e se afastar de pseudo-soluções para pseudo-problemas, que são o maior obstáculo para se ver o que realmente está no lugar do que se acredita ver. Entendendo o ateísmo mais como um enfoque crítico e desprovido de preconceitos, como um instrumento de investigação do real sem ter como parâmetro explicações extramundanas, fica destituída de sentido a tradicional, persistente e equivocada associação da imagem do ateu a uma irracionalidade descabida.