4,5*
A Quinta Dimensão, edição da Elsinore, Setembro de 2022
Sinto o cheiro das velas a consumir-se nesta esquina. Reconheço o fumo antigo que se me cola à pele, ao cabelo, à memória. Fedor incómodo a pneu queimado, a parafina, a barricada, a centenas de velas acesas. Presente, futuro e passado amalgamam-se nesta cerimónia que não é senão um parêntesis de fumo regulado pelo relógio d’A Quinta Dimensão.
Espacei a leitura deste livro durante bastante tempo porque, baseando-se em factos e pessoas reais, vítimas de tortura e assassinato a mando do regime de Pinochet, esse monstro que viveu mais do que deveria ser permitido, pegar nele exigiu alguma determinação da minha parte.
Milhares de fanáticos choram
e fazem fila para se despedirem do tirano.
O neto do assassinado, o general Prats,
espera pacientemente a sua vez.
Após horas de espera, chega ao caixão e cospe nele.
Tendo nascido em 1971, Nona Fernández cresceu durante a ditadura militar (1973-1990) que depôs e assassinou Salvador Allende e assistiu aos primeiros passos da insipiente democracia que permitiu que o ditador continuasse no activo como senador.
O mundo ri da democracia chilena.
É bastante inteligente e paliativa a abordagem que a autora faz deste período brutal da história chilena, porque suaviza os golpes constantes que são os relatos de rapto, tortura, execução e encobrimento do desaparecimento dos opositores ao regime através da correlação com episódios da famosa série “A Quinta Dimensão” a que assistiu durante a infância.
Esta obra abre com Andrés Morales, agente dos serviços de segurança chilenos a entrar na redação de uma revista com o propósito de confessar todas as barbaridades que cometeu a fim de reprimir elementos da oposição, numa entrevista com o título “Eu Torturei”.
A partir daqui, tanto pelos seus relatos como seguindo as vítimas deste e de outros carrascos, ficamos a conhecer vários opositores desde a sua captura até à sua execução, sem sermos poupados a todas as sevícias infligidas até lá.
Embora o foco desta obra sejam as vítimas, os homens e mulheres movidos pela coragem de defender os seus ideais, o que é bem notório pela repetição dos seus nomes, pois creio que a maior homenagem que se pode prestar a uma pessoa é não deixar o seu nome cair no esquecimento, o eixo é sem dúvida esta personagem que adquire desde logo o epíteto de Homem que Tortura. A entrecortar os capítulos surgem vários testemunhos na primeira pessoa em que ele conta o seu percurso no exército até chegar às forças de segurança, o horror que lhe causaram alguns episódios de enorme violência, os remorsos que o levaram a expor tudo aos jornalistas e, por conseguinte, a desertar, bem como os seus pesadelos.
Sim, às vezes sonho com ratos.
Com quartos escuros e com ratos.
Com homens e mulheres aos gritos
e com cartas enviadas do futuro
que me perguntam por esses gritos.
(...)
Depois não aguentei mais,
Fui à revista e fiz o que fiz.
Você contou tudo melhor do que eu.
A sua imaginação é mais nítida que a minha memória.
Aqui é-me impossível não me lembrar de Leonardo Padura com o seu “O Homem que Gostava de Cães”. Também Nona Fernández nos dá o outro lado da moeda: até os homens que praticaram os actos mais hediondos, por convicção, por lavagem ao cérebro, por cumprirem ordens, têm um lado humano, mas apesar de gostar desse desafio, fico sempre a matutar se devo realmente condoer-me de pessoas com sangue nas mãos. É, por isso, um livro inquietante, revoltante mas tocante na sua homenagem a um punhado de dissidentes que representam as 3200 pessoas que desapareceram ou foram mortas e as 38 mil que foram torturadas numa altura em que muitos de nós já tínhamos nascido.
Porquê falar de um homem que participou de tudo isto e, a dada altura, decidiu que não aguentava mais? Como é que se decide que já chega? Qual é o limite para tomar essa decisão? Há um limite? Temos todos o mesmo limite? Que teria eu feito se tivesse iniciado o serviço militar aos 18 anos como o Andrés e o meu superior me tivesse mandado vigiar um grupo de presos políticos? Teria feito o meu trabalho? Teria fugido? Teria compreendido que aquele era o princípio do fim?