Pedro e Paula, o segundo romance do escritor português Helder Macedo, conta a história de um casal de gêmeos, antagônicos e complementares. Nascidos em 1945 (quando "toda a gente foi para a rua celebrar com bandeiras inglesas, francesas, americanas e do Benfica", isto é, no fim da Segunda Guerra Mundial), os irmãos tornam-se observadores e participantes das mudanças sócio-político-culturais de seu país.
Sob a batuta de um peculiar narrador - que em muitos momentos se identifica com o próprio autor, Helder Macedo - a trama, que se estende até o ano de 1997 e percorre os mais variados espaços - como as cidades de Lisboa, Paris, Londres, Lourenço Marques e até a mítica Casablanca -, estabelece um verdadeiro jogo de referências intertxtuais, não só com obras da literatura, como também da música e do cinema. Assim, as narrativas de autores como Machado de Assis e Eça de Queiroz, as óperas de Richard Wagner e o filme Casablanca, são brilhantemente evocados neste romance, que tem um desfecho surpreendente.
Hélder Malta Macedo é um poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário, português. A sua obra ficcional, de entre a qual se destaca o romance Partes de África (1991), no qual o autor usa técnicas narrativas para revelar as ficções da memória, expondo a fronteira entre o facto e a invenção, é considerada uma das mais originais da literatura portuguesa contemporânea.
Duas notas sobre este livro que achei bastante positivas e que fazem do livro uma obra literária quase perfeita. 1. A criação de ambientes e personagens em crescente tensão usando uma linguagem cinzelada ao detalhe. 2. Um narrador irónico, corrosivo e com uma participação constante e intensa na narrativa. A destreza da construção deste narrador é uma mais valia premente do livro.
De resto é a história de dois irmãos ao longo de toda a segunda metade do século XX, ou seja, é a história do país que fomos e somos num processo de constante questionamento.
"Esaú e Jacob brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito..." Machado de Assis
Os gémeos do livro do Génesis foram inspiração para os gémeos, Pedro e Paulo, de Machado de Assis - Esaú e Jacob - de cuja obra foi retirada uma das epígrafes que dão o mote ao romance de Helder Macedo.
A sinopse, de Pedro e Paula, não engana quando diz que é "um livro que se lê pelo mais puro prazer da leitura". O estilo é muito peculiar, no qual o narrador vai assumindo o papel do escritor, até ser "dominado" pelas personagens e tornar a história "viva". O enquadramento geográfico e temporal é Portugal e Moçambique, no período que decorre entre 1945 e 1997, focando-se nos acontecimentos políticos e sociais durante o tempo do fascismo e imediatamente após o 25 de abril de 1974. A história ficcionada é a dos gémeos Pedro e Paula, dos seus pais e de Gabriel -amado pela mãe e pela filha (e por mim...).
É uma pena que, por aqui, haja somente seis leitores de Pedro e Paula e poucos mais de Helder Macedo. Eu li-o porque sou uma gaja "com sorte aos livros"...
Os nomes próprios utilizados como título são, também, os nomes que nos indicam aqueles que são e podem ser os contrastes entre irmãos.
O autor serve-se da ligação familiar entre ambos para, consequentemente, nos retratar a sociedade da segunda metade do século passado. Ou seja, vamos ter o que antecede o 25 de Abril e, logo de seguida, a narrativa empresta uma perspetiva sobre o pós-revolução. Engloba, também, o colonialismo e as características daquela época.
A obra aborda a liberdade e, de certa maneira, personifica-a nestes gémeos que não poderiam ser mais antagónicos nos seus ideias e filosofias. Em Paula, podemos detetar uma índole de inconformismo com nuances revolucionárias e uma maior abertura social. No que toca a Pedro, assistimos a um conservadorismo e a uma clausura inserida nos costumes tradicionais.
Além da liberdade, em si, o livro conta com uma uma ficção muito bem desenhada. Temos nos bastidores uma história que vai muito além dos dados históricos. Ou seja, somos abastecidos por informação pertinente, sem esforço, enquanto ficamos embrenhados na perversidade que está alojada nos contornos do enredo.
Uma escrita convincente, com rasgos de humor e assertividade. Esta mistura é, toda ela, um fator que nos leva a consumir este livro com um interesse redobrado.
Um livro que nos leva pelas décadas da ditadura salazarista e pela Guerra Colonial. Sobre o período, o livro é pobre a nível histórico, foca-se essencialmente nas personalidades distintas e complexas dos protagonistas.
Esta é a história de dois irmãos gémeos, Pedro e Paula. Os irmãos têm uma relação profunda e intensa, enquanto Paula espelha o caminho da liberdade e os princípios da Revolução, Pedro conforma-se com uma vida mais burguesa.
Uma relação que vai evoluindo consoante os eventos deste período histórico-social, que influenciou e marcou as suas personalidades, as suas escolhas e moldou o curso das suas vidas.
Um livro com uma escrita complicada e que pode não funcionar para todos. Não me encheu as medidas e deixou a desejar.