Entre 1931 e 2021, a biografia de um homem marcante é paralela à história de Portugal. No Alentejo da raia, o contrabando é a resistência perante a pobreza, tal como é a metáfora das múltiplas e imprecisas fronteiras que rodeiam a existência e a literatura. Através dessa entrada, chega-se muito longe, sem nunca esquecer as origens. Num percurso de várias gerações, tocado pela Guerra Civil de Espanha, pelo 25 de abril, por figuras como Marcelo Caetano ou Mário Soares, este é também um romance sobre a idade, sobre a vida contra a morte, sobre o amor profundo e ancestral de uma família reunida no seu almoço de domingo.
Antecipando em três dias o assunto que lhe serve de título, “Almoço de Domingo” chegou às livrarias na passada quinta-feira e essa será, porventura, a primeira das suas singularidades: conceder ao leitor a hipótese de seguir os passos de alguém numa dimensão temporal paralela à sua, acompanhando as suas rotinas, os seus gestos mais simples, as suas obrigações, os seus pensamentos. Assim tratado, entre o real e o etéreo, o tempo transforma-se na principal figura deste livro, carregando em si mesmo a ideia de que “só existe quando paramos”. A segunda singularidade tem a ver com o senhor Rui, figura de carne e osso que assume o papel principal no palco de uma vida, confiando as suas histórias e memórias ao cuidado de José Luís Peixoto para que as transforme em romance biográfico. A terceira singularidade é a de que este almoço de domingo, cujos preparativos decorrem na altura em que escrevo estas linhas, terá lugar dentro de poucas horas e assinalará os 90 anos de vida do senhor Rui, juntando à mesa a sua mulher Alice, os filhos do casal e respectivos cônjuges, os netos e os bisnetos.
O senhor Rui a que o livro se refere é Manuel Rui Azinhais Nabeiro, nascido no seio de uma família humilde nos idos de Março de 1931 e hoje um bem sucedido industrial do café, com a conhecida marca Delta Cafés, para além de investimentos no ramo agrícola e vitivinícola, na distribuição alimentar e de bebidas, no retalho automóvel, no comércio imobiliário e na hotelaria. Na base deste livro estão as suas conversas com José Luís Peixoto – cujo propósito inicial seria o de escrever uma biografia –, a cujo resultado o autor acrescentou horas e horas de investigação. Aos poucos foi desvendando um mundo onde cabem as dificuldades económicas nos tempos da infância, os ecos da Guerra Civil de Espanha e os negócios do contrabando na raia, o pulsar de uma vila perdida do interior sul de Portugal, histórias de partidas e de chegadas dos entes mais próximos, as sombras do Estado Novo e os ecos de uma nova era que Abril abriu.
José Luís Peixoto volta a surpreender-nos com a sua enorme criatividade e a excelência da sua escrita. Dele é o mérito de prender o leitor à vida do senhor Rui, um homem cativante e pelo qual sentimos uma admiração crescente à medida que vamos virando as páginas do livro. Nas atitudes e nos gestos mais simples é nele que nos revemos: Na bucha que come durante a inauguração da ponte sobre o Tejo e que reparte com dois deputados da Nação, na frustração pela derrota do Campomaiorense na final da Taça de Portugal ante um superlativo Beira-Mar, na apreensão das mulheres quando lhes anuncia que no dia seguinte terão a almoçar em Campo Maior o Felipe Gonzalez e o Mário Soares ou no nó preso na garganta na hora da partida do pai, da irmã Clarisse ou do amigo mais sincero.
Porque é de tempo que o livro nos fala, ele é também um convite a percebermos o valor que damos ao nosso próprio tempo e àquilo que com ele fazemos. O que o conforma e o que o condiciona. O porquê de passar tão devagar em certos momentos e de correr noutros à velocidade da luz. Quantas memórias cabem nele e quanto de verdade existe nessas memórias. Quanto desse tempo é partilhável e quanto não existe jamais, perdido para sempre nas dobras de si próprio. Que dimensões abrigamos no nosso trajecto de vida e que nos leva a olhar para o passado e a começar as frases por um irritante “no meu tempo”. Nos reflexos da vida deste homem, o senhor Rui, descobrimos um mundo de reflexos de nós próprios, aqui residindo a grande virtude deste livro. José Luís Peixoto tem este dom de nos pôr a pensar sobre o que fomos e somos, sobre os propósitos da nossa presença neste mundo. Foi assim em “Morreste-me” como em “Galveias”, em “Em Teu Ventre” como em “Autobiografia”. Por isso lhe agradeço e lhe dou os parabéns. Parabéns que estendo ao senhor Rui, no dia do seu aniversário. Longa vida, senhor Rui!
Comecei a ler este livro a pensar que iria ler a biografia de Rui Nabeiro. Não foi bem isso que aconteceu e talvez por não se tratar exactamente de uma biografia, o autor tenha decidido escrever " Romance" na capa. No final não posso dizer que fiquei a conhecer a fundo a vida de Rui Nabeiro mas não deve existir forma mais bela de relatar uma vida que esta. Ler este livro é como ler um livro de poesia. É daqueles que se deve ler com um lápis para sublinhar. Há tanto para levar que termino a crítica com uma das minhas frases favoritas " Morrer é um dos verbos em que existe maior separação entre a terceira e a primeira pessoa."
Os bisnetos sentados à mesa, comportamento razoável: uns tinham o tampo a chegar-lhes ao peito, outros levantavam o queixo para verem o prato, outros regalavam-se no colo das mães, o melhor assento que encontrarão na vida inteira.
Naquele momento o senhor Rui percebia com muita certeza que estavam ali, tinha-os ali mais uma vez, o rosto da mãe, ainda nova, o pai, cada segundo precioso, o irmão, o irmão António com aquela idade, e as irmãs, as manas juntas. Ao mesmo tempo sabia que ia perdê-los. Já os tinha perdido, conhecia essa dor, e sabia que era inevitável voltar a perdê-los. Mas estavam ali. Enquanto os filhos, as noras, os netos seguravam as chávenas de café diante de si, o senhor Rui apercebeu-se da forma como a luz começava a desgastar os pais e os irmãos, feições transparentes, atravessadas pela claridade. Minha mãe, poder dirigir-me a si, alívio da asfixia de não a encontrar no mundo, mágoa de ninguém ter esse rosto, essa paz, bem-querer infinito; pai, meu pai, não se aflija, serei a sua modesta vaidade, seu filho completo; Clarisse, nossa menina, não tenhas medo, dá-me a mão; Cremilde, pequena mãe, a tomares conta de todos nós, sinto muito por ti; António, procuro a tua amizade em tudo o que toco, preciso ainda de ser irmão. Mas a luz era irreversível, imparável, avançava, avançava.
Sobreviver é habituar-se. Mas há momentos em que, por qualquer motivo, as moléstias dão sinal, deixam de poder ser ignoradas. Rodeado por tanta gente, o senhor Rui constatou, com nitidez, que ser o mais velho é assistir à morte de todos aqueles com quem se cresceu.
No palco, as crianças já tinham fundado a Delta, já tinham dado emprego a tantos milhares de pessoas, não apenas em Campo Maior, já tinham fundado o próprio centro educativo do qual faziam parte. Estou aqui, repetiu a voz dentro do senhor Rui, a voz que dizia eu. E apercebeu-se de que considerados a partir daquele instante, o passado e o futuro tinham o mesmo tamanho.
Foi ótimo passar estes três domingos com o senhor Rui, uma pessoa admirável e que deixa uma legado imenso atrás de si. Mergulhar nas suas memórias, no amor que tem à Delta e à família, à Alice, a sua Alice. Um senhor maravilhoso.
"Ser alguém com vinte anos, confiar em pleno nessas certezas e, no entanto, aos quarenta, grande espanto, olhar para a pessoa que fomos e descobrir diferenças fundamentais. A partir daí, fazer essa avaliação de tempos a tempos, ao longo do resto da vida, e encontrar sempre a mesma surpresa ligeiramente triste. Se deixámos de ser quem éramos, quem passámos a ser? Ou será que não deixámos de ser quem éramos e apenas ficámos a saber melhor quem sempre fomos?"
As minhas expectativas para este livro eram ler um livro de José Luís Peixoto e não me desiludi. A escrita sublime, uma intimidade com as personagens e uma constante viagem presente, passado. De facto, o leitor alterna constantemente entre o tempo que é e o tempo que já foi.
Contudo, compreendo as críticas que são apontadas a este livro, no sentido em que o livro é um tremendo elogio a um homem que encomendou a obra. Ou seja, gera uma percepção de bajulação, mas tenho as minhas reservas que tal posicionamento não se prenda exclusivamente com uma grande admiração do autor pelo "sujeito" da sua escrita. Às vezes, é bom algum distanciamento emocional relativo ao que queremos narrar, sob perigo de navegarmos em águas turvas. Parece ser este o caso.
Embora tenha gostado do livro, a minha opinião é que não difere muito do anterior "Autobiografia" e, nesse sentido, teria gostado de ver uma alteração ou evolução do autor, que não houve. Mas não deixa de ser um romance muito bom, diria mesmo que é ideal para quem não leu ainda nada do autor.
Almoço de Domingo é um romance biográfico do comendador Rui Nabeiro. O próprio facto de o narrador ser, na maioria da obra, de primeira pessoa, na pessoa do próprio Rui, confere-lhe esse caráter ficcional. As memórias apresentadas são as de um homem de 90 anos. Talvez por esse facto, surjam, na maior parte das vezes, alternadas, diria mesmo quase fundidas, mescladas. Porém, sem nunca perder a lucidez que ainda o caracteriza e que é por demais evidente nas mesmas memórias. É de louvar esta lucidez, a forma como recorda lugares, gentes, acontecimentos, cheiros, sabores, regressos a casa. Se fosse, à letra, uma biografia, haveria com certeza muito mais que dizer. Assim, nota-se que José Luís Peixoto escolheu os episódios que considerou mais marcantes e mais ligados à vida pessoal deste homem. Rui Nabeiro é-nos apresentado com toda a humildade, convicções e espírito de sacrifício que o tornaram no empresário de sucesso e de renome como há poucos. Quando, em 1961, cria a marca Delta, poderia pensar-se num empresário como tantos outros. Mas Rui era diferente. Fazia questão de se fazer presente. Nas fábricas, junto dos comerciantes e donos de cafés e restaurantes que lhe comprariam o café, no estrangeiro… A sua presença não era, contrariamente à de tantos empresários, uma presença distante. Ele falava com todos, sorria a todos, sempre pouco preocupado com, por exemplo, o “fato de treino fora de moda” que envergava. Eram esta simplicidade e humildade que cativavam. Muitos são os acontecimentos que recorda, desde os pais, os irmãos, a irmã mais nova doente e que morre demasiado nova; quando é chamado à inspeção; os tempos de escola; o pão que ajudava a migar, na infância, para as sopas de pão; o tio Joaquim e os jantares com ele; o olhar de Marcelo Caetano; o jogo que foi ver, onde estava também Jorge Sampaio; o rapaz de quem o pai tomava conta; a morte do “amigo sincero”; o almoço com Mário Soares e Felipe Gonzalez nas mesas improvisadas da Cooperativa Progresso Campomaiorense, entre muitos muitos outros acontecimentos em que nos envolvemos e nos cativam. Porém, de todos os acontecimentos, o que mais me emocionou foi, sem dúvida, a sua relação com a esposa, Alice. Não imagina “que vida teria tido sem ela”. Recorda o dia do casamento, um casamento simples, no qual “havia demasiada igreja para um ajuntamento tão modesto”. Casou aos 22 anos. Alice tinha 20 e trabalhava na costura. São setenta e sete anos que recorda com carinho. Relembra, com especial ternura, as manhãs de sábado com Alice, mesmo quando já tem de a ajudar a levantar-se, quando ela lhe pede que abra algumas persianas para entrar “mais sábado sobre os tapetes”. Relembra a voz dela “a ganhar primaveras no momento em que dizia o nome dos filhos, netos e bisnetos”, nestes sábados “que acrescentavam mais sabor à comida”. E que bonita a passagem em que nos fala do amadurecimento da sua relação: “…havia uma delicadeza especial, uma espécie de segredo, um encanto a que apenas se chega depois de muitos anos. Alice, esse nome atravessava o tempo, e o tempo era a vida”. E, por fim, o regresso a Campo Maior, agora tão diferente do que era antes, mas que continua a considerar como o seu “regresso a casa”. É um regresso a casa para um almoço de domingo, onde celebrará os seus 90 anos, com toda a família e amigos. Para além de uma vida riquíssima, dos episódios eximiamente escolhido pelo autor, temos a linguagem e o estilo de José Luís Peixoto, que nos consegue cativar e prender à narrativa. As repetições utilizadas concedem intensidade à mensagem que se quer transmitir, como se se tornassem parte dos nossos pensamentos, ficando a “martelar”. E depois, depois o mais importante: a poeticidade da linguagem de Peixoto, que nos comove, que nos arrepia, e que, neste livro, me fez sentir este regresso a casa como meu, como se nesta memória de um almoço de domingo, fosse um dos presentes, a sentir este aconchego de família. E que aconchego nos dá este livro! Recomendo tanto!
Um escritor nascido e criado em Galveias, aldeia do Alto Alentejo, José Luís Peixoto, o qual, em várias das suas obras retrata esta região e os seus habitantes, que conhece particularmente bem, escreve a biografia de outro alentejano, Rui Nabeiro, o fundador da empresa Delta Cafés, que ama de forma incondicional a sua terra e as suas gentes, Campo Maior, uma vila situada também no Alto Alentejo.
Esta biografia é escrita na forma de um romance, pois, em vez de ser a descrição de modo cronológico da vida de uma pessoa ilustre, seguindo os principais acontecimentos que a marcaram, é relatada na maioria dos seus capítulos na primeira pessoa, a do menino e senhor Rui, que, antes de ser um empresário de sucesso e o maior empregador da região, foi, acima de tudo, filho, irmão, sobrinho do tio Joaquim, que o ensinou a trabalhar e a gostar da torrefação do café, marido da doce Alice, pai, avô, bisavô e amigo de muitos. Um homem que soube aliar a sua inteligência, as suas capacidades como gestor, a sua ambição, dinamismo e coragem, ao amor pela sua família, pelos seus amigos, pela sua terra e ao respeito pelos seus trabalhadores, alcançando o que muitos empresários não conseguem: construir um grupo económico de raiz, desenvolver a sua região e tratar com dignidade todos os que com ele se relacionam, sejam concorrentes, clientes ou trabalhadores.
Durante três dias da vida de Rui Nabeiro, no mês de março de 2021, este homem nascido em 1931, numa família humilde de quatro filhos, com pouca escolaridade, descreve-nos o seu presente, como marido, pai, avô e bisavô, profundamente ligado à sua família, e ainda ativo numa das empresas que criou, a sua relação estreita com Campo Maior, ainda que tivesse corrido mundo e se deslocado em negócios ao Brasil, Angola, Timor Leste, etc.. Consciente da fragilidade da sua saúde, da sua idade, de ser um dos últimas pessoas da sua geração, recorda-se com saudades da sua família que já partiu, e no seu pensamento e coração, tenta fazer o encontro entre os almoços de domingo da sua infância e o almoço de domingo do seu nonagésimo aniversário.
E a partir do presente, os leitores são conduzidos a diversos episódios ocorridos no século XX, onde o menino e senhor Rui, nos dá a conhecer como viveu e se sentiu perante os espanhóis que fugiram de Espanha e foram presos em Campo Maior durante a Guerra Civil Espanhola, o contrabando na raia durante a Ditadura do Estado Novo, o seu percurso político na Câmara Municipal de Campo Maior, iniciado durante o governo de Marcello Caetano e que continuou após a Revolução de 25 de Abril de 1974, a sua vida como empresário e outros episódios interessantes que tiveram lugar em Campo Maior, Lisboa, Londres, Luanda e Timor-Leste, sempre com cheiro, sabor e amor pelo café.
É uma escrita corajosa, a de José Luís Peixoto, porque tem muito pouco do entretém a que se dá (injusto) valor nos dias de hoje. É uma escrita lenta, onde os diálogos não existem, onde as descrições são cuidadas e onde se clama pela paciência do leitor. Como já havia referido em "Autobiografia", a escrita de Peixoto teve uma notória evolução, para melhor; e o facto de ser como referi, a pedir demorado labor, tem tudo a ver com essa evolução qualitativa. Um bom livro, uns furos acima do anterior, muito mais cuidado na disposição da informação, no doseamento dos acontecimentos, no vagar com que as recordações afloram os pensamentos da pessoa narrada, nos passos do narrador, empurrando lentamente a narrativa para um final próximo da apoteose.
Um livro escrito com uma grande sensibilidade onde a voz do escritor e do biografado parecem ser uma só. Essa voz conta também a história de um povo e de uma nação. Uma história que não se limita a revisitar uma vida mas nos coloca várias interrogações sobre o seu sentido e a sua essência.
José Luís Peixoto é especial - não deixa espaço para questionamentos a sua escolha na elaboração da biografia ficcional deste imenso Ser Humano.
Na senda do término deste livro, repleto de passagens de memórias, lembro-me de ser criança, visitar a Delta a tão poucos quilómetros de minha casa, e pensar e dizer “quando for crescida quero ser muito rica e ter um negócio assim como o Senhor Nabeiro, para também poder dar a mão a toda a gente que precise!”; tinha crescido sob a admiração profunda de ter um desses homens (rara e) incomparavelmente generosos em casa, aquele que veio a criar-me.
Aquando da morte de Rui Nabeiro, recordo-me de escrever em tom de desabafo “Deus recebeu já com certeza este conterrâneo nos seus braços. Eterno na sua generosidade, a bondade é um legado maior que a vida” - a verdade mais profunda em que assento esta minha passagem terrena: a bondade é um legado maior que a vida - e Rui Nabeiro presenteou-nos com o seu imensurável exemplo, e dom da sua graça.
Quanto ao manuscrito, exemplar na escrita do autor que é incomparável - sensibilidade que o personagem principal teve ao escolher de entre tantos autores este em específico, apesar de relativamente jovem - no tipo de coisa em que a idade não devia ser um posto, mas ainda o é (e nalguns casos, outros casos, deve mesmo sê-lo!).
É um livro sobre a vida. Sobre a sensibilidade. Sobre a família, o amor, a beleza, a bondade, a virtude, o tempo que se esvai sem darmos por ele, sobre as coisas que interessam, e só por isso todos deviam lê-lo.
Os mortos são sempre muito presentes nos livros de José Luís Peixoto e devidamente representados, como fio condutor da nossa vida que nada pode quebrar. Comoveram-me bastante algumas passagens, pois também eu sinto muita saudade do homem generoso que me criou, “minha mãe, poder dirigir-me a si, alívio da asfixia de não a encontrar no mundo, mágoa de ninguém ter esse rosto, essa paz, bem-querer infinito”.
Não são muitos os livros acerca dos quais consigo fazer uma review sem digerir a sua essência. Com estes é diferente. Todas as vezes que regresso à leitura de um livro do Peixoto é como se entrasse numa cápsula que me transporta para um lugar onde tudo adquire uma sensibilidade fora do normal. Todas estas vezes são lembranças e recordações. São vezes em que saboreio e sinto como é bom regressar aqui; regressar a um lugar onde me sinto confortável. Um regresso a palavras bonitas. Para mim, ler José Luís Peixoto é ler amor, tempo, dedicação, memórias, vivências e empenho. Este livro transmite-nos isso mesmo. O Rui e a Alice. Os filhos, netos e bisnetos. A história que foi passado e que é futuro. Campo Maior e a cal das paredes que reluz nas ruas soalheiras. Sinto que também eu fiz parte deste almoço de domingo tão rico. Que privilégio! Um dos melhores livros, sem dúvida ❤️
4,4 ⭐ Um almoço de domingo em família, com todos os que lhe são importantes e que fazem parte da sua vida, ninguém faltou para festejar a vida do senhor Rui, nem mesmo aqueles que já partiram faltaram, a presença dos seus entes queridos continua a ser sentida, lembrada e acarinhada pelo comendador . Um livro delicioso, uma história contada de uma forma tão única e singela. A história da vida do senhor Rui é nos apresentada brilhantemente, através de uma narrativa que nos deixa comovidos e deliciados com tanto amor. É sem dúvida o amor pela família, por Campo Maior e pelo seu trabalho que faz deste Homem um ser muito especial. Posto isto, a sua biografia só podia, também, ser escrita de uma forma especial, única, fugindo do estilo de escrita tradicional das biografias que conhecemos. Parabéns senhor Rui, parabéns senhor José Luís Peixoto. 🙏😊♥️
Bela homenagem ao "Senhor Rui". Muitíssimo bem escrito. Um dos melhores livros do autor. Só é pena que a sequência dos acontecimentos da história da vida deste grande senhor, não ser mais clara. Há coisas que acabam por não se perceber.
Neste “Almoço de Domingo”, o autor estreia-se no género romance biográfico para trazer aos leitores, um livro de memórias do empresário Rui Nabeiro, fundador da Delta Cafés. Em 2019, Rui Nabeiro viu uma entrevista do autor e entrou em contacto com ele para o convidar a escrever a sua biografia.
Para além de um livro de memórias, “Almoço de Domingo” leva-nos numa viagem inesquecível e inspiradora pela vida de Rui Nabeiro: as raízes humildes, o trabalho precoce na torrefação de café do tio, o 25 Abril, o contrabando, os encontros com o Marcello Caetano, a construção da Delta e o amor pela esposa Alice. Um amor que nos derrete pela sua doçura e carinho. Um livro cheio de aprendizagens, onde o autor conseguiu captar muito bem a sensibilidade e generosidade do senhor Rui.
Adorei como seria de esperar, José Luís Peixoto nunca desilude, pelo contrário eleva sempre a fasquia de livro para livro.
Sou, quase desde o início da sua carreira, fã incondicional do José Luís Peixoto, por isso não me surpreende nada que este tenha sido mais um livro fantástico. Devo confessar que no início houve algumas passagens que me fizeram lembrar o estilo de “Morreste-me”. Talvez porque o reli há muito pouco essa estrutura de repente me tenha saltado à vista e isso “chateou-me” um bocadinho. Mas com a continuação da leitura isso dissipou-se e gostei muito de ficar a conhecer um pouco mais da vida deste grande senhor que é Rui Nabeiro. As descrições de algumas situações são muito bonitas, muito à maneira da escrita de J. Luís Peixoto. Tal como a facilidade como nos transpõe de um lugar para outro ou de uma época para outra. Mais uma vez, uma grande obra de um grande escritor.
“Lembrou-se de ter um cubo de pão na boca, a sua textura, a aperta-lo com a língua de encontro ao céu da boca, o leite morno a jorrar do seu interior. Teve essa vontade nítida, sopas de leite, essas palavras ditas pela mãe, apeteceu-lhe sopas de leite mais do que qualquer outra comida, mas olhou em volta, procurou em toda a mesa, não tinha pão duro.” “Que rosto tem uma pessoa? No fim da vida, entre todos os rostos que teve, qual é o rosto que realmente a representa? Será que o último rosto, por ter sobrevivido a todos os outros, é o mais válido?”
Este é o segundo livro que leio do autor, por isso não tenho uma base sólida para afirmar que este é o seu melhor livro. No entanto é essa a sensação que tenho ao concluir a leitura. Esta biografia é ficção, mas baseada na vida, longa e apaixonante, do um dos maiores empreendedores nacionais.
Biografias não são as minhas leituras preferidas mas José Luís Peixoto conseguiu transformar uma biografia numa bela história e reflexão sobre a velhice e o passar dos anos.