Comecei a desconfiar desta obra, quando li uma entrevista do autor a anunciar que Vasco Pulido Valente não admirava António de Oliveira Salazar, como se nos estivesse a dar uma grande novidade e a fazer uma surpreendente revelação. A verdade é que o livro de João Céu e Silva é basicamente isto: uma síntese correcta sobre a vida e o pensamento de Vasco Pulido Valente que todas as pessoas que leram as obras e os artigos do cronista e historiador desaparecido no ano passado estão fartas de conhecer. Tem a vantagem de não adoptar o tom sensacionalista que a entrevista de Céu e Silva acima referida (provavelmente produzida com propósitos comerciais) fazia recear. Tem a desvantagem de não se limitar à transcrição das conversas mantidas com Vasco Pulido Valente. Em suma, é uma síntese aceitável para quem queira conhecer alguma coisa da marca deixada por Vasco Pulido Valente, mas sem estar interessado na leitura ou releitura dos seus escritos. A nota mais negativa vai para a falta de cuidado na revisão, fruto provavelmente da origem oral do texto e destes tempos de redes sociais em que a publicação de qualquer coisa está à distância de um «enter» no teclado de um telemóvel.
Vasco Pulido Valente será, porventura, um dos melhores cronistas do sec. XX. Ao longo das varias entrevistas que suportam o livro Vasco Pulido Valente dá nos a sua interpretação dos principais factos políticos do sec xix e xx e fala da sua experiência. A mencao à relação do entrevistado com o álcool era perfeitamente desnecessária.
É uma entrevista, mas para quem quiser saber o que se passou em Portugal desde a implantação da República até agora, é de enorme utilidade. Desconte-se as afirmações radicais sobre a literatura portuguesa e atente-se à História, que ele sabia como poucos.
Apesar deste livro ser uma desordem completa com as mesmas ideias, por vezes as mesmas perguntas, repetidas várias vezes, a certa altura o Vasco Pulido Valente "abre o livro" e começa a falar da história recente de Portugal e de várias personagens importantes, nomeadamente da altura do Estado Novo e do PREC. Havendo alguma tolerância para a falta de organização do livro, talvez fruto do esquema de entrevistas em que se baseou, penso que é uma leitura que vale a pena. O livro dá também uma ideia de quem era, do que pensava e o que fazia VPV como modo de vida. A ideia que criei do livro foi a de que era alguém com um intelecto brilhante que os políticos apreciavam ter por perto para os aconselhar e esclarecer.
O conteúdo do livro (ou seja as conversas em si) são muito interessantes mas a edição em si está francamente fraca e estamos numa sensação de seja vou constante já que o mesmo conjunto de ideias acaba repetido poucas páginas depois. Percebo que isso aconteça num conjunto diversificado de conversas mas não que chegue ao livro final. Espero que em futuras edições da série isso seja corrigido já que a ideia está bem conseguida.
Uma pubçicação desconcertante que trai e confirma a sua origem em entrevistas e na linguagem oral, muitas vezes passada sem filtro ao papel. São notórias as contradições internas do discurso, por vezes suroreendentemente, no mesmo parágrafo. As teses do entrevisatado sobre o imediato pós-25 de Abril são amiúde pouco menos que delirantes, esforçadamente originais mas sem aparente base factual. Muito mais interessante é o enquadramento oferecido para a afirmação e continuidade do Estado Novo, quer na fase da Ditadura Militar, quer após a Guerra. Valem, por si só, a leitura do livro.
Importante para descobrir uma pessoa tão relevante na sua escrita mas também nas suas convicções políticas ao mesmo tempo saber mais sobre alguns momentos relevantes da história recente de Portugal.