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A Invenção Do Dia Claro
Dos grandes continentes que compñe o denominado velho Mundo, æ certamente a Africa aquelle cuja exploraäào hoje em dia se tornou de preferencia o objecto da attenäào geral dos governos das naäñes civilisadas, e isto por tào variados titulos, como os que podem dizer respeito Þs investigaäñes geographicas, ao conhecimento da importancia de seus productos, Þs condiäñes da sua populaäào, e Þ influencia que lhe pïde caber no futuro movimento commercial do Mundo. Ç na Africa que teve sæde uma das mais antigas civilisaäñes que a historia recorda, a egypcia, testemunhada pelas ingentes pyramides e collossaes esphinges, que por muito tempo causaram a desesperaäào dos archeologos. A Lybia, onde os phenicios levaram suas colonias Þ fundaäào de Carthago, deixa vçr a vetustidade d'aquella parte do globo, que jÞ para o grande poeta do Lacio fornecia inspiraäñes, tiradas de factos coævos de Dido e dos exules do cçrco de Troya. Mas esse continente onde a historia antiga vae descobrir o anciào dos povos, e remontar a epocas remotissimas, æ aquelle que ainda hoje, apoz os progressos da moderna geographia, deixa mais vasto campo para estudo e indagaäñes, e cuja maior poräào ainda se acha mal conhecida, inexplorada, e povoada por tribus tào variadas, como varios sào seus caracteres mais ou menos selvagens, e na maxima parte, ainda estranhos aos effeitos da civilisaäào. Notaveis coincidencias nos deixa vçr a historia. Milhares de annos se interpñe decorridos desde que a Africa æ n'ella mencionada. De pouco mais e pouco menos de quatro seculos datam, o comeäo das exploraäñes do atæ entào desconhecido littoral do occidente africano, e o descobrimento do limite austral d'aquella velha parte do Mundo. A esse tempo, as duas Americas eram entidades desconhecidas, quando Colombo e Cabral d'ellas deram noticia. HaverÞ um seculo apenas, que Cook descobria regiñes austraes atæ entào ignotas. E hoje as Americas e a Australia, esses vastos continentes apenas conhecidos de tào recente data, apresentam-se na sua maxima parte povoados de cultas sociedades, em todos seus extensos littoraes, e deixando vçr n'aquellas regiñes transatlanticas, novas nacionalidades e estados florescentes, oriundos da civilisaäào europea, para alli transplantada, e onde a par da importancia d'aquelles, se alarga a esphera d'acäào d'esta. E a Africa? Ainda um denso væo encobre em grande parte a sua intima condiäào da existencia e modo de ser; ainda no maximo numero a sua populaäào vive vida selvagem e feroz, sem que o facho da civilisaäào viesse alumiar as trevas do seu primitivo estado
86 pages, Kindle Edition
First published January 1, 1921
About the author
José de Almada Negreiros
77 books82 followersEscritor e artista plástico, José Sobral de Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe a 7 de Abril de 1893. Foi um dos fundadores da revista Orpheu(1915), veículo de introdução do modernismo em Portugal, onde conviveu de perto com Fernando Pessoa. Além da literatura e da pintura a óleo, Almada desenvolveu ainda composições coreográficas para ballet. Trabalhou em tapeçaria, gravura, pintura mural, caricatura, mosaico, azulejo e vitral.
Faleceu a 15 de Junho de 1970 no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, no mesmo quarto onde morrera seu amigo Fernando Pessoa.
As duas orientações de busca e criação de Almada Negreiros foram a beleza e a sabedoria. Para ele "a beleza não podia ser ignorante e idiota tal como a sabedoria não podia ser feia e triste" (Freitas, 1985). Almada Negreiros foi um pintor-pensador. Foi praticante de uma arte elaborada que pressupõe uma aprendizagem que não se esgota nas escolas de arte; bem pelo contrário, uma aprendizagem que implica um percurso introspectivo e universal.
Vulto cimeiro da vida cultural portuguesa durante quase meio século, contribuiu mais que ninguém para a criação, prestígio e triunfo do modernismo artístico em Portugal.
Faleceu a 15 de Junho de 1970 no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, no mesmo quarto onde morrera seu amigo Fernando Pessoa.
As duas orientações de busca e criação de Almada Negreiros foram a beleza e a sabedoria. Para ele "a beleza não podia ser ignorante e idiota tal como a sabedoria não podia ser feia e triste" (Freitas, 1985). Almada Negreiros foi um pintor-pensador. Foi praticante de uma arte elaborada que pressupõe uma aprendizagem que não se esgota nas escolas de arte; bem pelo contrário, uma aprendizagem que implica um percurso introspectivo e universal.
Vulto cimeiro da vida cultural portuguesa durante quase meio século, contribuiu mais que ninguém para a criação, prestígio e triunfo do modernismo artístico em Portugal.
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Community Reviews
Displaying 1 - 18 of 18 reviews
March 16, 2021
Considero o José um amigo. Não por alguma vez o ter conhecido, mas por me sentir digno de o ter lido. E sei que ele me lerá, eventualmente, pois ao inserir e propagar estas palavras que ele me ensinou, sei que lhe irão chegar. Não temo a sua chegada, talvez por ignorância, talvez por empatia, talvez por pura compreensão do meu sentido das palavras que foram tecidas, e simultaneamente, antagonizadas. "A Invenção do Dia Claro" é isso mesmo para mim, uma carta de amizade, não só a mim, como também a muitos outros amigos, que também senti comigo ao lê-la, travando milhares de amizades a cada nova página que virava. Obrigado por ela, querido José, e lamento a minha carta de agradecimento ser tão pobre e corriqueira, mas garanto-te apenas que simplesmente, é!
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June 19, 2024maravilhoso…. a edição fac-similada da Assírio e Alvim é fantástica; recuamos 100 anos ao mesmo tempo que percebemos o quão à frente do seu tempo estava Almada Negreiros.
September 9, 2026
Não ironicamente dos livros mais belos que já li. Literalmente parecia que o Almada Negreiros estava comigo, ao virar de cada página. ❤️
December 21, 2023
"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido."
September 13, 2021
many thoughts, head full ✨
May 19, 2025
4.5
“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.”
“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.”
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January 28, 2026lido de forma meio ilegal, mas não me consegui parar. rendi-me com o primeiro parágrafo. em relação a este, anotei no meu caderno que realmente é preferível viver com o peso da tristeza de não conseguir ter visto, lido e ouvido tudo o que há para ver, ler e ouvir, do que a possibilidade da arte se esgotar. a arte só existe porque não se esgota.
gostei quando disse “as palavras têm moda” e “quando digo Eu não me refiro apenas a mim mas a todo aquele que couber dentro do jeito em que está empregado o verbo na primeira pessoa", e tocou-me particularmente porque dou por mim inúmeras vezes a apagar o "eu" antes do verbo para que não me interpretem de forma egocêntrica. não gosto de abusar do “eu”. só que o “eu” é uma posição verbal, não um pedestal. é gramatical antes de ser psicológico. eu devia parar de me censurar.
reminder para reler “A Flor” que tanto se relaciona com toda a reflexão sobre criatividade e infância que pretendo abordar na futura curtinha-metragem
gostei quando disse “as palavras têm moda” e “quando digo Eu não me refiro apenas a mim mas a todo aquele que couber dentro do jeito em que está empregado o verbo na primeira pessoa", e tocou-me particularmente porque dou por mim inúmeras vezes a apagar o "eu" antes do verbo para que não me interpretem de forma egocêntrica. não gosto de abusar do “eu”. só que o “eu” é uma posição verbal, não um pedestal. é gramatical antes de ser psicológico. eu devia parar de me censurar.
reminder para reler “A Flor” que tanto se relaciona com toda a reflexão sobre criatividade e infância que pretendo abordar na futura curtinha-metragem
January 1, 2022
Li este livrinho inteiro, da capa até à contracapa num só dia mas não é assim tão impressionante porque há menos de 40 páginas.
O escritor é José de Almada Negreiros (geralmente conhecido simplesmente por "Almada" se não me engano). Almada fazia parte do movimento modernista nas primeiras décadas do século passado e do grupo ao redor da Revista Orpheu, mas este livro é mais brando do que os anteriores. O editor da sua página de Wikipedia atribui esta mudança de estilo a uma atitude mais construtiva depois da grande guerra. Por resultado, quando o autor leu o primeiro texto da terceira parte ("a flor") no palco, havia quem riu em voz alta, achando que era algo satírico o humorístico, mas não era, era sincero.
O estilo da escrita é muito bonito e não me custou entender apesar da ortografia desconhecida, oriunda duma época antes do que nós pensamos como "velha ortografia" a(c)tualmente.
O escritor é José de Almada Negreiros (geralmente conhecido simplesmente por "Almada" se não me engano). Almada fazia parte do movimento modernista nas primeiras décadas do século passado e do grupo ao redor da Revista Orpheu, mas este livro é mais brando do que os anteriores. O editor da sua página de Wikipedia atribui esta mudança de estilo a uma atitude mais construtiva depois da grande guerra. Por resultado, quando o autor leu o primeiro texto da terceira parte ("a flor") no palco, havia quem riu em voz alta, achando que era algo satírico o humorístico, mas não era, era sincero.
O estilo da escrita é muito bonito e não me custou entender apesar da ortografia desconhecida, oriunda duma época antes do que nós pensamos como "velha ortografia" a(c)tualmente.
October 3, 2026
“PARIS E EU
Um dia foi a minha vez de ir a Paris. Foi necessario um passaporte. Pediram a minha profissão. Fiquei atrapalhado! Pensei um pouco para responder verdade e disse a verdade: Poeta!
Não aceitaram.
Tambem pediram o meu estado. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco para responder verdade e disse a verdade: Menino!
Tambem não aceitaram.
E para ter o passaporte tive de dizer o que era necessário para ter o passaporte, isto é - uma profissão que houvésse! e um estado que houvésse!”
Um dia foi a minha vez de ir a Paris. Foi necessario um passaporte. Pediram a minha profissão. Fiquei atrapalhado! Pensei um pouco para responder verdade e disse a verdade: Poeta!
Não aceitaram.
Tambem pediram o meu estado. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco para responder verdade e disse a verdade: Menino!
Tambem não aceitaram.
E para ter o passaporte tive de dizer o que era necessário para ter o passaporte, isto é - uma profissão que houvésse! e um estado que houvésse!”
October 4, 2026
"I went into a bookstore. I started counting the books there are to read and the years I have left to live. It's not enough; I won't even last until half the bookstore is full! Surely there must be other ways for a person to save themselves, otherwise… I'm lost."
A beautiful and thoughtful collection of reflections on art, creativity, and language. Almada’s ideas about the “I” and the endlessness of art really stayed with me. “A Flor” was definitely my highlight.
A beautiful and thoughtful collection of reflections on art, creativity, and language. Almada’s ideas about the “I” and the endlessness of art really stayed with me. “A Flor” was definitely my highlight.
April 13, 2020
Entendi nada, mas tem boas citações.
July 3, 2020
Fantástico. Excelentes frases. Uma autor muito consistente na sua inconsistência de estilo. Tornei-me um fã de um momento para o outro e agora só me apatece ler tudo. Veremos qual será o próximo!
April 9, 2024
foda, muito foda
October 6, 2025
3.5
«Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo.» <3
«Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo.» <3
June 30, 2026
Quando eu nasci, as frases que hão de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade."
July 24, 2026
«Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo.»
July 26, 2026
Brando
February 3, 2013
Genial!
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