Esta é uma leitura escondida nas estantes da literatura portuguesa. Como refere Augustina Bessa-Luís, Maria Judite de Carvalho é uma “flor discreta” da literatura portuguesa.
Antes de mais, este livro pode ser sujeito a interpretações múltiplas. Esta é um livro que nos revela um mundo, um espaço-tempo “sem idade e sem solução”. Tudo é luto, é desluto e é solidão. Para mim, este é o epicentro da narrativa. Pode-se atentar mais para a ideia de amor quanto mais volátil de acordo com cada personagem, ou, por outro lado, pode-se focalizar mais a questão da solidão quasi-natural à existência humana – a mim, marcou-me esta solidão, a forma como ela chega às pessoas, as absorve, as envolve num manto que a vida faz por não descobrir, mas, pelo contrário, faz desejar tê-lo a cada dia de isolamento e desligamento da vida. E quando desejamos descobrir esse manto, essa solidão, já estamos envolvidos em demasia.
Marcado por uma escrita simples, adequada à simplicidade e calmaria do seu conteúdo, este livro leva-nos ao ventre da vida e do amor vivido. Enquanto se lê é-se levado ao de leve por esta simplicidade, no desejo de mais uma informação, de mais uma angústia, de mais um isolamento. Toda esta simplicidade face ao que se pretende contar, por ser simples-simples, imprime um toque ligeiro de intimidade e profundidade à obra.
À medida que a leitura se vai desenrolando, existe neste livro um jogo com as questões temporais que, sem complicações para quem lê, atribuem uma cronologia interessante à narrativa, ora com avanços ora com retrocessos muito bem delineados.
Este jogo ainda se torna mais interessante quando nos apercebemos que parte do que lemos poderá ser imaginação ou memória real da narradora omnipresente (Manuela). A partir desta perceção, vale tudo nesta narrativa. Como nos diz esta narradora omnipresente: “Tudo podia, no entanto, ter sido assim. É mesmo natural que o tenha sido”.
Entre estes ligeiros jogos de tempo, de avanços e de retrocessos, a determinada altura percebe-se que a história ganha novos contornos, que se pretende contar outras e mais histórias, todas elas interligadas. Assim, em meados da obra, é de destacar a reviravolta na narrativa aquando da passagem de Dora Rosário de personagem principal a “personagem pano de fundo» para a história de Manuela que, no final, se vem a revelar a personagem principal de toda a narrativa – essa foi a sensação com que fiquei. Embora declare em vários momentos que não está ali para contar a sua história, Manuela acaba sempre, sobretudo nas etapas finais, onde se nota acentuação uma maior, por cruzá-la com a história de Dora Rosário. De forma um tanto surpreendente, gera-se um triângulo amoroso (Dora Rosário-Ernesto-Manuela) que vem a culminar com a interferência de uma quarta personagem, Lisa Rosário, filha de Dora Rosário – para muitos leitores esta interferência pode mesmo ser sentida como o cume de suspense e drama da obra. Assim, não é relatada uma história de solidão e de desgostos, mas várias histórias, cada uma no seu registo e sujeita ao entendimento de cada leitor. Cada armário com o seu vazio
Um livro simples e bom de se ler…