Na minha concepção, Shang-Chi era um personagem datado. Fruto da Guerra Fria, ele era uma espécie de James Bond misturado com Bruce Lee, com uma história que, por mais que os mais velhos que eu elogiassem, eu não conseguia encontrar o ponto. Com a decisão do Marvel Studios em fazer um filme do herói, a Marvel rapidamente tratou de atualizá-lo nos quadrinhos. E, diferente das tentativas anteriores, dessa vez chamou um autor que entende da cultura e da realidade chinesa. Gene Luen Yang é o premiado roteirista de O Chinês Americano e o introdutor do Super-Man chinês na DC Comics, onde desenvolveu uma run incrível de deliciosa de ser ler. Luen teve de contornar o fato de que o pai original de Shang-Chi, Fu Manchu, está envolvido em um imbróglio de direitos autorais sobre a herança do escritor Sax Roehmer. Assim, foi preciso criar uma nova origem para o personagem, sem abandonar outros elementos como seu passado trabalhando na espionagem ao lado da amada, Leiko Wu no MI-6. Yang ao lado dos desenhistas Phillip Tan e Dike Ruan, trabalha uma narrativa que vai e vem no tempo, e discorre uma história de legados (ao estilo Punho de Ferro, de Ed Brubaker, outra nova visão dos filmes de exploitation do kung-fu) e de clãs (ao estilo dos Renegados, trabalhados por Jeff Lemire em Arqueiro Verde). O primeiro volume de Shang-Chi, então, se mostra uma história acessível a novos leitores e que pode também agradar aos antigos ao adicionar mais camadas na sua mitologia. Um trabalho muitíssimo competente da equipe criativa. Agora preciso assistir ao filme da Marvel Studios para ver se algum desses elementos se mantiveram na produção cinematográfica.