Envolto em polémica, este romance de José Rodrigues dos Santos suscitou-me imensa curiosidade pela temática e a sua premissa.
Herbert Levin é um judeu alemão de origem sefardita portuguesa. Tinha tez clara e olhos azuis, o que o tornava indistinguível dos arianos. Com a subida de Hitler ao poder, fora despedido da Bolsa de Berlim e viera para Praga. Que melhor sítio haveria para um mágico viver, visto ser uma das cidades mais místicas da Europa, com as suas alegorias ao Golem, Mefistófeles, Kafka...?
Casado com Gerda tinham filho chamado Peter. Seguira a carreira de corrector na Bolsa de Berlim, mas quando se vira sem emprego decidira fazer da paixão uma profissão e assim se tornara mágico. Adoptara o nome Nivelli, o seu nome de forma invertida.
Em paralelo e alternando a narrativa, acompanhamos dois legionários, um espanhol Juan Escoso conhecido por Juanito, e um português, Francisco Latino que, por ter cometido um crime na sua pátria (matou um caseiro chamado Tino em Castelo de Paiva), se viu obrigado a partir para Espanha, onde acabou por se juntar aos legionários espanhóis do lado de Francisco Franco.
Assim, Herbert Levin e Francisco
Na primeira parte desta obra, o autor oferece uma contextualização dos avanços dos nazis, mas também da vida na Checoslováquia onde viviam os Levin.
Como consequência dos Acordos de Munique, os alemães tinham começado a desmembrar o país dos checos e dos eslovacos e nesse momento os alemães completavam o trabalho. Áustria, Sudetas, Boémia e Morávia conquistadas e agora marchavam sobre o que restava da terra dos checos.
Nesta altura, já os judeus tinham uma vasta série de restrições e isso também afectara a família Levin. Ainda assim, Levin ainda tinha a sua Hokus-Pokus, a loja de ilusionismo.
O autor introduz Franz Bardon, conhecido por Frabato, um mágico de renome na Alemanha e na
Checoslováquia que ganhara reputação como perito em Cabala, hermetismo e magia evocatória, a magia que não era arte mas ciência, a do oculto. Através dos seus diálogos com Levin o autor procura demonstrar que a ideologia nazi assentava no ocultismo e teorias em que os alemães seriam a raça humana superior. Também através desta conversa ficamos a perceber um pouco dos contributos para a arte oculta de Crowley, fundador da seita de Thelema; um esotérico português chamado Ferdinand Pessoa; a famosa magus russo-americana Helena Andreyevna Blavatsky (considerada por muitos uma charlatã) que escrevera sobre a origem dos seres humanos. Estes descenderiam de sete raças originais, uma das quais os atlantes, seres espiritualmente muito avançados que tinham feito grandes invenções e construído templos e pirâmides gigantescas. Quando a Atlântida desaparecera num cataclismo, os sobreviventes haviam escapado para os
Himalaias e refugiaram-se no reino perdido de Shambhala, onde transmitiram a sua sabedoria aos arianos, uma raça que teria emigrado depois para o Norte da Europa. Esta teoria tivera um enorme impacto no Ocidente, e em particular na Alemanha e na Áustria, onde fora acolhida quase como se de ciência se tratasse, e inspirara uma série de sucedâneos.
Tanto que o oculto tinha interesse para os nazis que criaram a Hexen-Sonderauftrages, a unidade das SS para estudar bruxaria e feitiçaria germânica.
Levin, no entanto, mostrava ser céptico em relação a estas teorias: “Essa conversa de Thule só mesmo para thulinhos!” (seria um trocadilho perfeito se ele falasse português, em checo não sei se teria o mesmo efeito...)
Segundo estas interpretações, civilizações como a egípcia, a árabe, a chinesa, a maia e a asteca também seriam descendentes desses seres atlantes... Segundo madame Blavatsky, foi a sabedoria ariana dos tibetanos que permitiu a evolução dos chineses e dos indianos...
Alegadamente as SS estariam à procura da arca da aliança, bem como do Santo Graal. Isto porque os nazis acreditavam que Jesus era ariano, loiro e de olhos azuis. Na verdade o Novo Testamento descreve-o como rabino. Chamava-se Yehoshua e era conhecido pelo diminutivo Yeshu. Jesus
nasceu judeu, viveu judeu e morreu judeu.
Em, a 1941 a Alemanha invadira a União Soviética. A entrada da Espanha na guerra assegurava o futuro da Legião Estrangeira. A Legião misturava homens de nacionalidades diferentes. Além disso, a eventual vitória da Rússia poderia assegurar a Espanha ficar com os despojos, como Argélia, Gibraltar e até Portugal fazia parte da equação espanhola... Em 1942 surge a Divisão Azul, novo nome da força de voluntários que combatia na Rússia ao lado dos alemães. A Espanha não entrou em guerra com a Rússia, mas enviava voluntários de modo a manter as aparências para com a Inglaterra e a América, pois poderiam fazer um bloqueio naval e cortar o abastecimento de cereais e combustíveis, pelo que assim o país não sobreviveria. Francisco e Juanito passaram a fazer parte e deslocados para a Rússia. Aí frequentaram um bordel, onde Francisco se apaixonou por Tanya, ou Tanusha, a irmã mais nova que não se envolvia com os soldados por ter ficado traumatizada por um episódio atroz. Aos poucos, ambos foram ganhando a afinidade um do outro.
Levin fez um espectáculo de magia, envolvendo a levitação da “princesa Karnac”, representada pela sua esposa Gerda. Heydrich, o Carniceiro de Praga, também estava na plateia e queria falar com Levin, o que o deixou e à esposa à beira de um ataque de nervos. O SS explicou a Levin que a Totenkopfring é uma caveira, um símbolo da morte e foi um magus que a desenhou, Karl Maria Wiligut, um dos ocultistas que mais haviam influenciado a ideologia nazi. Alegadamente estas foram produzidas pelos artesãos da Atlântida teriam propriedades mágicas que poderiam tornar
imensamente poderoso quem as dominasse. Heydrich perguntou a Levin se queria fazer parte da Ahnenerbe, mas para isso teria que fazer parte das SS. Ao perguntar sobre se teria antepassados judeus, Levin gaguejou o SS percebeu: depressa Levin passou de Bestial a Besta. Ele e a sua família tiveram que morar no ghetto, na zona velha de Praga. Entretanto, os judeus começaram
a ser deportados para Terezín, uma cidade a que os alemães chamavam Theresienstadt e que fora transformada num ghetto. Desde então que os judeus estavam a ser periodicamente enviados de toda a Boémia e da Morávia para esse novo destino. Os Levin também.
A mãe de Levin foi educada segundo a tradição da sinagoga portuguesa de Amesterdão, e para a perpetuar, ensinou uma música ao seu filho, em ladino (língua ibérica semelhante ao castelhano falada por comunidades judaicas originárias da penísula Ibérica) chamada "Amores en el mar".
"Era en un bodre de mar
Ke yo empesi a amar
Una ninya kon ojos pretos
Sin puederme deklarar
Eya m’izo muncho sufrir
Noche ‘ntera sin durmir
I yo yorando en la kama
Sin puederme deskuvrir."
Entretanto, os soviéticos começaram a aniquilar os alemães e Juanito falecera nesses embustes.
Tanusha foi ter com Francisco à cidade de Pushkin, e disse que ela e as irmãs viveram três semanas num bosque de Sablino a vinte ou trinta graus negativos para escaparem à fúria do Exercito Vermelho que as poderia acusar de colaboracionismo.
No ghetto de Theresienstadt, Levin apercebeu-se que nem os judeus mais influentes escapavam, como as irmãs de Kafka. Levin falou com um senhor que lia um postal: “Campo de trabalho de Birkenau, Neuberun.” Tratava-se de um postal codificado: Raev significa fome em hebraico. Alegadamente a pessoa estava a dizer que se encontrou com uma tia que já morreu e que ela
tem um amigo chamado Fome. Fazia ainda referência a uma Odkolek: tratava-se de uma enorme padaria cujos fornos trabalhavam imenso. Não perceberam a alusão…
Em 1943, no lugar da Divisão Azul surge a A Legião Azul, a Legión Española de Voluntarios... Umas das suas canções favoritas era "Desde Rusia":
"Sólo esperamos la orden
que nos dé nuestro general,
para borrar la frontera
de España con Portugal.
Y cuando eso consigamos,
alegres podremos estar,
porque habremos logrado
hacer una España imperial."
Entretanto Tanusha e as irmãs estavam nas mãos das SS e detidas por serem judias, por não poderem provar o contrário. Francisco recebeu a proposta de um SS: ele aceitaria uma nova posição como guarda SS num campo de concentração da Polónia, onde estaria Tanusha como prisioneira.
Os Levin foram colocados num vagão de gado juntos com milhares de outras pessoas, onde havia apenas com dois baldes, um para as necessidades e outro cheio de água; e um pão para cada pessoa durante três dias... Começavam a aperceber-se que não vinham momentos fáceis.
Chegaram a Oświęcim, em polaco. Em alemão: Auschwitz.
Os Levin foram separados e lavados nos duches; ao vestir-se, Levin reparou nas cuecas de
Tallit, um acessório religioso judaico. Também Levin fora tatuado: A-1676.
Francisco conheceu o Unterscharführer Pery Broad, que falava português com sotaque: o seu pai era brasileiro e a mãe alemã. Apesar de proibido, porque Hitler detestava o jazz (dizia que era Negermusik, música degenerada de pretos e modernizada pelos judeus em Nova Iorque...), Pery tocava saxofone. Francisco viu no novo companheiro a oportunidade de voltar a ver Tanusha. Ficou impressionado com o facto da comida abundar no campo de Auschwitz para os SS quando o país
estava submetido a racionamentos rigorosos e os SS faziam ali coisas proibidas como embebedar-se, tocar jazz e escutar a rádio inimiga. Ou seja, furavam abertamente as regras.
Francisco foi colocado no Stammlager para fiscalizar um Kommando: unidades de trabalho. Um Arbeitskommando: trabalho de prisioneiros. Havia Kommandos para fazer estradas, carregar madeira, tratar das cozinhasm para tudo. Os prisioneiros estavam nos barracões submetidos à autoridade de um prisioneiro-chefe, o Blockälteste, e quando saem num Arbeitskommando
estão às ordens de outro prisioneiro-chefe, o Kapo. Francisco iria vigiar um Arbeitskommando e punir o Kapo se ele não punisse os prisioneiros relapsos. Ficou impressionado com o aspecto daquelas pessoas, sobretudo os Muselmann (pessoas que sofriam de fome e exaustão, semelhantes a cadáveres ambulantes...) mas também curioso por serem identificados com cores: os triângulos vermelhos são os presos políticos, os verdes os de delito comum, triângulos pretos os associais e as prostitutas; os cor-de-rosa são os homossexuais, os violeta as testemunhas de Jeová e as estrelas de David amarelas os judeus. As letras identificam o país de origem: P polonês, F francês, B belga... Os verdes foram colocados como Kapos pois, sendo violentos, infernizariam a vida dos outros presos e os mais fracos morreriam. Só sobreviviam os mais fortes, como indica a selecção natural. Indignado com a explicação, ainda mais ficou ao se aperceber que não se viam muitos judeus ali, ao que Broad lhe explicou que em Auschwitz I não tinha muitos, pois eles iam sobretudo para Birkenau, a uns cinco ou seis quilómetros. A maioria só saía pelas chaminés. Francisco estava incrédulo com as explicações do companheiro brasileiro.
Esta explicação do funcionamento de Auschwitz é quase uma visita guiada, que nos deixa angustiados por saber o que aconteceu àquelas pessoas.
Surge uma personagem romena que se apercebeu da língua de Francisco e lá vem mais uma lição: O ídiche é o dialeto dos judeus asquenazes da Europa Central e de leste baseado sobretudo no alemão, enquanto o ladino era um dialeto dos judeus sefarditas da Península Ibérica baseado sobretudo no castelhano. Os judeus cultos de Amesterdão eram na sua maioria portugueses e falavam português como primeira língua, mas usavam o castelhano como língua literária. É por isso
que o ladino assenta no castelhano, embora também tenha algum português. Ora o castelhano e o português são línguas latinas. Como a raiz do ladino é latina e o romeno também é uma língua latina... Daí que percebesse alguma coisa do que o português dizia...
Levin foram para o campo BIIb, conhecido em Birkenau como o Familienlager, o campo das
famílias. Percebeu que o seu trabalho em Birkenau era levar pedras de um lado para o outro e depois de novo para o ponto de partida, para a seguir recomeçar tudo. Seria daí em diante o seu grande contributo para a glória e a riqueza do Reich... A esposa Gerda foi colocada a limpar estradas. Ao menos o seu filho Peter estava numa Skola e até era bem alimentado, perante os cânones dos campos.
Na sua busca por Tanusha, Francisco foi ao bordel de Auschwitz, onde constava o nome da noiva. O guarda avisou que a única posição permitida era de missionário; todas as outras são perversões e estão proibidas pelo regulamento e todas as portas tinham um óculo.
Francisco descobriu que Tanusha estava em Frauenlager em Birkenau, o campo das mulheres. Aí conheceram a Lagerführerin Mandel, a Besta. Ela e a irmã Olga trocaram de roupa e de nomes. Quando a Blockowa chamou a Tanusha para a transferência para o bordel, quem se apresentou foi a irmã. A outra irmã, Margarita, tinha falecido de tifo.
Os Levin conheceram uma artista famosa no campo de Birkenau: Alma Rosé, uma violinista judia. Também assistiram a um suicídio de uma mulher no arame farpado. O autor menciona que a primeira vez que assistiram a tal coisa fora um choque, mas depois já se teria tornado "hábito".
Não sei se alguma vez alguém considerara tal como algo habitual...
Pery Broad explicou a Francisco que Auschwitz I é um Arbeitslager, um campo de trabalho; Birkenau um Vernichtungslager, campo de extermínio. Os nazis perguntavam pelos ofícios e até lhes pediam diplomas e certificados, para enganá-los. Esses judeus iam para os crematórios e eram submetidos ao tratamento especial. Apenas servia para dar a impressão de normalidade, de que havia assistência para os doentes que vinham no comboio, mas na verdade era a ambulância que transportava o gás para o crematório.
Também Pery Broad demonstrava a chamada "banalidade do mal" defendida por Hannah Arendt, em que demonstrava ser um capataz que fazia apenas o seu dever, mas entendia as teses nazistas as quais explica: o plano inicial era apenas expulsar os judeus da Alemanha e que para isso tornaram a vida deles um inferno para que eles fossem embora. Mas ninguém os queria receber e quando a guerra começou, as fronteiras fecharam e não souberam o que fazer com eles e então decidiram enviá-los para as zonas conquistadas. Então acharam que os judeus tinham terra a mais e, como ainda eram poucos, pensavam que podiam alocá-los em zonas menores, como nas cidades, mas como já lá estavam os poloneses, acabaram por criar certos bairros próprios: os ghettos. O
problema é que havia muita gente e poucas condições. Como resolver isso? Pensaram em levá-los para Madagáscar, mas o plano não deu certo. E os judeus continuavam a chegar aos ghettos. Já não havia espaço nem comida para todos, as doenças proliferavam... Era preciso uma Endlösung der
Judenfrage, uma solução final para a questão judaica. Se estavam a morrer, uma morte rápida seria mais humana. Para Pery Broad esta solução foi por sentimento humanitário...
[Muita gente condenou esta interpretação do livro, mas não podemos misturar a narrativa com as eventuais ideologias do autor. Muitos nazis consideravam realmente que os judeus eram o inimigo, outros alegavam que o faziam por dever e outros, como a personagem Pery Broad, faziam por dever e por acreditarem que seria realmente um sentimento humanitário. Claro que é descabido, mas infelizmente o mundo está como está devido a ideias descabidas e maldosas.]
Entretanto ele levou Francisco a Birkenau onde encontrou irreconhecível a sua Tanusha.
As condições desumanas dos campos começavam a fazer-se sentir nas necessidades básicas humanas, como a vida sexual, que tornava os homens impotentes e as mulheres sem desejo. Não havia coisa que mais faltasse em Birkenau que a sensação de amar e ser amado.
Levin ao falar com o professor do filho ficou a saber que muitos judeus é que levavam outros judeus para a morte e que ao fim de três meses a servir nos crematórios os alemães matavam esses homens do Sonderkommando e arranjavam outros novos. Um deles contou que os alemães estavam a preparar a morte de todos em Birkenau e era necessário proceder a uma revolta, na qual precisava dos dotes ilusionistas de Levin.
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Apesar de ser considerado uma obra de investigação jornalística ao invés de pesquisa histórica, a verdade é que aprendi bastante e relembrei muitas coisas que tinha estudado sobre a época. De um modo geral, gostei bastante desta obra ainda que haja algumas questões que destacaria:
José Rodrigues dos Santos segue a típica fórmula do uso de diálogos entre personagens para contextualizar a narrativa e explicar tudo e mais alguma coisa.
"Mágico de Auschwitz" é mais um nome associado a este inferno para atrair os leitores. Apesar de realmente Herbert Levin ser um ilusionista, a verdade é que os seus dotes praticamente são irrelevantes ao longo da obra.
Li uma edição que foi revista para português do Brasil e achei uma patetada terem adaptado um português ao outro... Não percebi a lógica de tal, visto tratar-se da mesma língua e claro que se nota estas alterações. Ainda que haja um diálogo onde entra um brasileiro, não achei nada necessária essa adaptação.
É absolutamente inacreditável o que o ser humano é capaz de fazer e, por mais que leia sobre o assunto, fico sempre indignada e de coração apertado ao saber o que estes seres humanos foram obrigados a passar devido a teorias fundamentalistas e inconcebíveis. E tudo começou com um homem que levou milhões à morte e a sofrimentos inimagináveis.