Tal como há pessoas que acham úteis trigger warnings para vários tipos de violência e de doença, também eu gostaria de os ter para a escatologia. Eu, que tenho cão e gatos, já mudei muitas fraldas e lavei muitos bacios, dispenso na literatura este fascínio por cocó que certos escritores parecem ter. Se não são assim tão sugestionáveis, porque em “Pança de Burro” se fala muito de caca e vómitos, vão certamente apreciar a obra mais do que eu.
Quando não estão a comer e a expelir a comida, Isora e a narradora, a quem aquela chama shit, (“carinhosamente”, diz a miúda; respeitando o espírito do livro, digo eu), tentam ocupar-se nas férias de Verão, intermináveis e aborrecidas com só elas conseguem ser quando somos miúdos, numa ilha onde vêem o mar ao longe mas nem as condições meteorológicas estão propícias nem nenhum adulto tem tempo para as levar à praia.
Estávamos em junho, mas podia ter sido em qualquer outro mês em qualquer parte do mundo. Podia ter sido uma aldeia num monte do Norte da Inglaterra, um lugar no qual quase nunca se visse o céu aberto e azul, azul, um lugar em que o sol fosse antes uma recordação longínqua. Estávamos em junho e as aulas tinham terminado há apenas um dia, mas eu já estava a sentir esse esgotamento imenso, essa tristeza de nuvens baixas sobre a cabeça.
Com o vulcão em pano de fundo, vemos o Tenerife como um destino turístico, onde os homens trabalham na construção e as mulheres nos hotéis, ganhando apenas o suficiente para viver.
Pensei na lista de fiados da avó, em como era longa comparada com as outras listas de fiados. Pensei que a minha mãe ia todas as semanas pagar-lhe algumas coisinhas, porque como dizia o meu pai agora estavam a ganhar dinheiro a rodos, estavam montados no dólar.
Na ausência dos adultos, as duas amigas passam os dias a brincar com Barbies, a jogar no Gameboy, a vaguear de um lado para o outro e, sobretudo nas típicas descobertas sexuais da puberdade.
Até amanhã, shit, disse-me, até amanhã. Subi a encosta e a meio do caminho fiquei logo triste (..) e as pequenas rãs do tanque no qual já ninguém nadava começaram a cantar e parecia uma canção antiga, uma canção que vinha de séculos atrás, de quando eu e a Isora ainda não éramos amigas mas estávamos predestinadas a sê-lo (...) e virei-me e disse-lhe shit, acompanha-me a casa nem que seja até à casa dos homossécsuais, acompanha-me a casa, que eu acompanho-te sempre.
É com um sorriso nostálgico nos lábios que se lê este relato genuíno do que é ter uma melhor amiga nestas idades, a intensidade dos sentimentos, o desequilíbrio de forças e vontades, as conversas disparatadas, a curiosidade e a incompreensão face ao mundo dos adultos, as pequenas invejas.
Quando saímos pela porta da dona Carmen parecia-me ter um verme a rastejar na minha garganta. Esse verme preto dizia-me que eu alguma vez tinha invejado a Isora. Gostava da cor do seu cabelo e da dos seus braços. Gostava da sua letra. (...) Gostava dos seus olhos e de tantas outras coisas. Invejava-a pela forma como falava aos adultos.
É esta a parte mais cativante de “Pança de Burro”, juntamente com a graça da linguagem oral vertida para a escrita. Há outro lado com que muita gente também se identificará que é a vida num meio pequeno. Aquela vila no Tenerife é igual a qualquer outra na província de Portugal, ou até qualquer outro país ocidental, marcada pela proximidade da vizinhança, a maledicência, a coscuvilhice, a mentalidade tacanha e até o mau-olhado.