O livro de Synesio Sampaio Goes Filho é um misto de biografia e história do Brasil. Pouco se sabe do biografado dada a falta de melhores documentos sobre sua vida, mas o autor faz um bom trabalho em trazer à luz um pouco da vida e obra daquele que é considerado o "avô" da diplomacia brasileira, responsável por dar ao país os contornos que tem hoje. São três os bustos de bronze, criados por Bruno Giorgi, presentes na Sala dos Tratados do Palácio do Itamaraty: de Alexandre de Gusmão (referente ao período colonial), de Duarte da Ponte Ribeiro (do Império) e do Barão do Rio Branco (da República). Os três foram responsáveis pela consolidação das fronteiras do Brasil (embora outros personagens concorressem em variados graus).
Alexandre de Gusmão nasceu na então vila de Santos, em 1695; o nono de doze filhos, dos quais oito foram padres ou freiras. Já aos 13 anos viaja para Portugal e inicia seus estudos de cânones na Universidade de Coimbra. Em 1730, Gusmão assume o cargo de "secretário d'el-rei" (por 20 anos!) no reinado de D. João V, o mais longevo de toda a história de Portugal (44 anos) e que coincide com o período de maior produção aurífera do Brasil. Enquanto tal, Gusmão se ocupa de assuntos religiosos e do Brasil. É ele quem estabelece o sistema de capitação (1734) em lugar do "quinto" e se torna o principal ator por trás das negociações do Tratado de Madri (1750). Apenas com a morte do cardeal da Mota (1747), principal assessor do rei, Alexandre torna-se o condutor das negociações com a Espanha. Também é dele a organização do Mapa das Cortes (1749), que, estrategicamente, minimizava a expansão portuguesa no norte e centro-oeste do Brasil e que será usado nas negociações do Tratado. Graças à Gusmão, o Tratado de Madri legitima a posse dos territórios pela ocupação (de acordo com o princípio romano do uti possidetis ita possideatis e da delimitação de divisas pelas mais notáveis montanhas e rios), junto à permuta de Sete Povos das Missões (então espanhola) pela Colônia do Santíssimo Sacramento (então portuguesa).
Em 1749, preocupado com sua saúde e o futuro de seus filhos, Alexandre de Gusmão envia uma representação à D. João V na qual resume seus trabalhos oficiais e solicita uma promoção em seu cargo. Por não ser de família nobre (ademais, um "estrangeirado") e ter ascendido ao posto de secretário do rei por mérito próprio, Gusmão não era tão bem remunerado quanto outros nobres que ocupavam cargos similares. Sua missiva não obtém resposta e, no ano seguinte, morre o monarca, sucedendo-o D. José I, que terá como seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal. Em 1752, Gusmão tem sua casa destruída em um incêndio e vem a falecer no próximo ano, sem que sua família conseguisse saldar suas dívidas. Triste fim para esse que foi responsável por um dos maiores feitos diplomáticos de toda a história. Nada mais justo que se manter um ode a sua memória.