Sou conhecido como Cineasta, mas é preciso dizer que comecei minha carreira, como Escritor, antes do Cinema. Mesmo fazendo ou estando envolvido com Cinema desde 1962, nunca deixei de escrever. Muitos dos meus textos ficaram guardados, iné contos, poemas, romances, pensamentos diversos, guardados como se fossem uma velha mala, cheia desse amor pela literatura. Revirando essa mala, lendo o que eu deixara de publicar, encontrei um pacote de textos de ficção sobre 1964. Textos escritos entre 1963 e 1967, não organizados, que seguiam os dramas de quatro personagens, todos estudantes da USP, todos fortemente marcados pela violência do Golpe Militar. Foi desse pacote de textos que nasceu o livro que publico “1964 – Uma Bomba na Escuridão”. Uma ficção construída a partir de histórias verdadeiras, histórias de amigos ou conhecidos, vividas durante o período abarcado pelo romance, e também a partir da minha própria vivência como estudante e ativo militante de esquerda, na época. Tudo está ali, entre os quatro Julio, Neiva, André e Lucia. Os três primeiros, amigos e colegas na Escola Politécnica da USP, moradores do mesmo quarto da Casa do Politécnico, a moradia dos estudantes mais carentes financeiramente. Ali estão, por exemplo, a Rádio Legalidade, a "Marcha da Família", as assembleias estudantis, o Golpe Militar, a greve de fome dos operários, a cooptação da base do governo João Goulart pelos golpistas. De forma ficcional, os personagens vivem histórias reais, sofrimentos reais, medos reais, espantos, tragédias, dúvidas. Os desenhos que ilustram esta edição, são desenhos meus, feitos na mesma época em que os textos foram escritos. São, sem dúvida alguma, desenhos que bem revelam o meu estado de espírito diante do Golpe Militar. Posso dizer que "1964 - Uma Bomba na Escuridão" é uma ficção vivencial. É o retrato dos fatos, do desespero da minha geração diante da tragédia do Golpe Militar. É um relato de vivências diante do desdobrar da história, de momentos, de muitas dúvidas, de muito medo. É um sentimento de adeus ao passado, de um doloroso adeus ao futuro e, eventualmente, à vida. É o medo e o imenso desconforto com o presente.